sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Enrubescida

A festa era uma maravilha. Um lustre pomposo, do qual supostas gotas de vidro e cristal pendiam por fios invisíveis, iluminava o centro do salão tumultuado de homens e mulheres bem-vestidos, que seguravam com destreza taças cheias de champanhe e copos com gelo e conhaque. A música orquestrada banhava o chão de ondas espessas de riso embriagado e toques leves em ombros e barbas; a dança prosseguia solta e compassada; os pés, com calçados lustrosos e caríssimos, acompanhavam o ritmo da bateria preguiçosa e farfalhada. A festa era maravilhosa, assim como ela - a moça que acabara de chegar.
O vestido vermelho-vinho deixava os ombros chamativos à mostra e descia, rente às curvas, até os calcanhares, que apoiavam as sandálias prateadas e enfeitadas por pedras que reluziam um brilho esgazeado.  O cabelo era de um negro-vivo inebriante e estava absurdamente liso e preso por dois prendedores envolvidos por diamantes, que se uniam na nuca. Ela era linda. Todos pararam para vê-la, quando a música cessou gradativamente e foi dando lugar a uma nova melodia mais suave. Com graça, ela descia os degraus da imensa escadaria enfeitada para a noite. O sorriso exalando uma essência que condizia com os acordes dos instrumentos, a mão que segurava com cuidado um pedaço do vestido, o braço esquerdo solto que se movia com destreza. Serviu-se logo de uma das tantas taças de uma bandeja de prata, e se juntou à multidão que retomava o bailar. Havia apenas um problema.
Os olhos. Ela não se demorava olhando a ninguém, porque não conseguia. A beleza estampada nos movimentos calmos se restringia a mãos, pés, braços, cabelo, boca, mas jamais aos olhos. Ela os mantinha abertos, mas deixava que eles fitassem apenas o chão ou divagassem pela sala enorme e abarrotada de nobres. Faltava alguma coisa. Observava, esperançosa, os espaçamentos entre as colunas da parede anterior, as fitas, as cores, a janela... A janela! Foi ali que ela se demorou. Um moço já a tirara para dançar, mas era lá que os seus olhos se cravavam. As árvores se balançavam lá fora, ela via. Alguns galhos ricocheteavam no vidro, mas o som era quase inaudível, comparado ao da banda posta na plataforma. As folhas iam se soltando, embora arrancadas, e ela fechava os olhos imaginando como seria se tivesse a sorte daquelas pequenas e voláteis estruturas mal iluminadas pela luz que emanava do ambiente. As narinas se abriam buscando um cheiro que estava em outro lugar. A cintura era envolvida pelas mãos do rapaz que ela não reconhecia, mas ela sentia dançar com outra coisa, algo que também tirava as árvores para dançar e, sem nenhum pudor, também as despia. Começou a assoviar a música que tocava, pois a conhecia de cor. De olhos fechados, narinas curiosas e lábios articulados num pequeno círculo, ela assoviava atinadamente. Quando percebeu, empurrava com o próprio corpo, o homem que a acompanhava em direção à janela. Foi chegando cada vez mais perto, as pálpebras ainda espremidas, o sonho ainda florido, e foi percebendo que, pelas frestas da janela, alguém também assoviava. Abriu os olhos. Havia algo que ela queria lá fora. As íris escuras moviam-se freneticamente à procura do que quer fosse e ela não sabia que era. Foi se aproximando mais, os dedos quase encostando no vidro frio, o moço quase pedinte de pausa porque ela já o empurrava com força, e, enfim, ela soube o que era. O nome dele era vento. E ela o sentia fugidio entre os dedos arreganhados que buscavam uma resposta inalcançada. Ela pestanejava, confusa, sem saber o que fazer. Quando, de repente, a música já tinha acabado novamente e ela só ouvia o assovio do seu amante invisível que parecia enamora-la pelos batuques ocos dos galhos que se atritavam contra a barreira transparente que os separava. Não foi preciso sair. Ela o sentiu por dentro, como se ele a amarrasse, com cordas novas e grossas, as entranhas. Era a dor mais agradável que ela já sentia. Entendia que o cabelo liso era uma mentira, e o sapato caro era um disfarce, os braços colados ao flanco, uma afronta. Ela era uma menina, não uma donzela. Mas ninguém precisava saber disso.
Deu uma piscadela para o vidro que, não nitidamente, mostrava o seu reflexo meio apagado. Sorriu, como que pela primeira vez, de verdade, e enrubesceu-se de uma maneira que só ela e as folhas entenderiam. A partir daquela noite, e para toda a vida, ela era enrubescida como a mulher do vento.

De: Neemias Melo para Carolina F.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A janela sempre esteve de bom tamanho, assim como os livros disseram tudo que eu precisava dizer. Ir lá fora sempre pareceu muito difícil. Tão bonito ver as estações cederem à complexidade do equilíbrio que nos sustém, mas, quanto ao retirar de cada folha e tingir de cada ponto de céu e nuvem que se vai, nunca coube a mim mover uma palha. Eu, por assim dizer, sou um cavaleiro acovardado. Histórias demais, sentimentos demais, mas minha armadura ainda está polida, intacta - vejo minha falta de coragem brilhando através dela. Porque é certo que nunca me vestiu essa ideia de balançar os braços, sacudir o orvalho da noite, suspirar o fresco espírito da manhã. Meus cotovelos se acostumaram com a moldura da janela, e os meus olhos já conheciam cada palmo estampado nos extremos do vidro embaçado pela minha respiração. Respirar me bastou até agora, e nada mais. O descompassar das batidas veio antes da adrenalina; os fios brancos e os olhos de quem morre chegaram antes do tempo; a lagarta, ainda no casulo, quis abrir as asas para cair. Um tipo de emoção que cabe na luz que entra pelas frestas irregulares das cortinas fez eu me sentir cuidado, quando tudo que eu mais quis foi ter sentido frio. E as músicas cuidaram de embalar meu ventre fechado e contorcido de romance inalcançado. Se eu sinto muito? Não sei dizer o que sou eu, o que é sentir, nem mesmo sei a medida que serve para muito. Eu sou alguma coisa não conhecida por não ter arriscado rasgar as fotos e sujar as mãos com sangue novo. Eu sou um tipo de animal acuado num pequeno quarto, sem querer cravar as unhas na terra, contente com linhas e quadrados e superfícies ocas. Ou talvez eu seja só mais um que desliga as luzes quando alguém  passa de madrugada e olha para cima, sentindo ser vigiado. Eu sou um segredo que não precisava ser contado. Eu não preciso, eu sou calado, caído, molhado - de que? Lágrimas, talvez. Mas nem imagino se o gosto que elas têm é doce ou ralo, por não ter provado de gotas de outros olhos, outras dores. Aqui, nunca doeu. Eu sou uma parede branca que brinca de trincar, mas nem se mexe. Eu nunca quis fazer a vida acontecer.

Neemias Melo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Deixei nos umbrais desta porta
as marcas de um punho renhido -
vigas das quais se suporta
o peso de um corpo puído

Deixei nos adeuses do tempo
as mãos que, há tanto, calaram
sufocando esse escasso alento
acamando esses nós que restaram

E, esquecido de fragosa vivacidade
me perdi nos becos em que, avulso, caí.
Bebi tamanhas dores, entre os bares da cidade
e, de amor não vindo, desgostoso da vida, enxotado e sem saída, morri.

Neemias Melo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, consenti em deixar-te apenas para o meu Senhor. Fiz eu tuas próprias malas, coloquei eu mesmo o teu ralo cobertor em meio às tantas outras coisas cujos nomes tu não me ensinaste. Deixei, à noite, a porta aberta, jurando ao menos ver teu rastro, sentir teu cheiro, seguir teus passos. Pedi, ao mesmo Deus a quem te entregaste, que velasse, acima de tudo, meu sentimento aceso, mesmo que confuso, brilhante, queimando, tão quente, por ti. Porque disseste "adeus" e eu, tolo, ouvi "A Deus". "Vá com Ele, minha amada, deita o lombo nas costas do mundo que Ele nos entregou, suspirando esse cheiro de laranja que deixaste, impregnado, aqui". Eu era um desses poetas que brincam com as letras, vendo o jogo que, bem colocadas, meio que tímidas, elas davam. Fui me sentindo ator, também, fingindo que aguentava teu salto cravado nos meus olhos. E, nessa, de tirar letras ou fazer pouco caso de boa interpretação, comi do amor que, para ti, era amora; senti da dor que, em tua visão, poeta adora; acelerei quando pediste acerola. E me desencaixei nas palavras que, outrora, me serviam de abrigo e, em poucos casos, demora. Confesso que perdi as estribeiras e os sentidos de um bom escrevedor. Porque falhei quando deixei de ouvir-te, clamando por socorro sem nem mesmo estar caindo. Ou talvez eu já estivesse lá embaixo, acostumado ao limo íntimo das pedras.
E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, voei para longe, como se o bater das minhas asas fosse prece, e achar-me já não fosse mais algum recurso. Fiquei por ali. Ali parado, ali distante, ali inalcançável. Fiquei dali, tecendo um tabernáculo na minha bruta fé de que, o Deus que a levara para um lugar tão longe de mim, traria o bom senso que eu bem reconheço ter perdido. E, então, resgataria o tanto amor que me regia, e a pouca força que me fora levada. Relevaria esses meus esquecimentos de quem acredita saber demais e veria que eu preciso, sim, de piedade por aqui. É que homens feitos não fazem cena. Eu preciso dela, mas nunca fiz questão de pedi-la.

Neemias Melo

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E você banhava o dedo no vinho, molhava os meus lábios, lambia o que escorria, e eu – bobo – até babava. Porque você era aquilo que eu não acreditava merecer, a chance que não tive direito de escolher, o sonho que eu sequer sonhava.  E você dizia coisas que eu não sabia entender, num mundo que eu nem sabia existir, com dimensões que eu não interpretava. Mas eu dizia: “Por favor, me perdoa”. Eu era tão puro. Eu era. Você não vê? Você não vê que tudo que eu tenho hoje é lembrança, é passado?  E você dizia ser culpa minha não conseguir carregar, sozinho, a cruz que lhe apertava. E eu sofria acuado por não poder corresponder a esse abafo que só cabia você. Você e o seu orgulho que me desesperava.  Porque você fazia frio e eu dilacerava. Você cosia asas e, no chão, eu me jogava.  Você dizia: “Vem” e eu me suicidava. Você falava de amor, mas de amor eu não escutava. Não é que você tenha ido. Você nunca veio de verdade. Eu me doei sem restrições, com o coração na mão, com a identidade nos pés e você dizia: “Acho melhor eu me afastar, estou me envolvendo demais”. Eu não acreditava. Eu não acreditava que todo medo era um aviso. Você seria o meu fim. Você foi. Eu morri na noite em que você disse eu te amo como um agradecimento por um pedaço de biscoito e um gole de mim. Eu não durei muito depois de você dizer não vai embora, porque eu esperava há tanto tempo um abraço seu. Mas você recuava aos meus pedaços. Estou desencaixado. Estou pisoteado. Eu vou embora. E, por favor, coloque um pouco de vergonha na cara e não me venha com essa de que sente muito, porque você não faz a mínima ideia do que é sentir. Muito menos muito.

Neemias Melo

Desabafo

Pelo que os olhos continuarão abertos, mesmo após o tapa, e as mãos permanecerão cruzadas depois de todas as chicotadas. Pelo que as escamas cairão com os suaves toques e as cores escorrerão para os dedos de outrem. Porque o corpo já não sente mais o tato e, em vez disso, sente uma outra alma que suspira angustiada uma chuva que não vem, um rio que não molha, um abraço que não sustenta, uma vida que definha.  Pelo que os cortes latejarão até a morte, porque a vida consiste na dor. A dor é a chave, é a estante, é o amontoado de engrenagens que nos soca com força o rosto e nos faz aguentar, calados, o bruto fardo.  E a boca permanecerá calada enquanto as pedras são atiradas por mãos amigas. E a sobrancelha não  arqueará e não se levantarão as súplicas, as misericórdias, as benevolências. Pelo que amor não se manifestará, porque as coisas tornaram-se valiosas - mais do que os próprios homens. Não valemos mais o próprio cuspe. Nadamos. Morremos. Adormecemos pisoteados.

Neemias Melo 

sábado, 26 de novembro de 2011

Timidez

Não houvesse rumo, eu fugiria - para longe, bem alto, tão perto de onde, outrora, deveras, sofri. Não vingasse a solidão que deixei em meu lugar, voltaria - no entanto, que triste, mirrado, sofrido, fiquei; não pude, não deu, nem mesmo parti. Não ouvisses meu grito, eu calaria - decerto, agora, que vejo, borrados, teus olhos, tão puros, nos meus, bateu, sorrateira, aquela, de sempre, saudade. De sempre? Nem tanto. Ou talvez seja. Já não sei bem em que lugar devo as palavras por, compor, repor, transpor - me lembrasse de outras derivações de por, amor, eu também não saberia. Porque me assusta, confesso, essa, tão minha, maneira de, querendo dizer-te, sem pressa, um tanto, talvez, demorado, que te amo, embolar-me desajeitado, descabido, gaguejado, não partindo, não gritando, nem sequer falando, que, se me dissesses que também me amas, assim, quem sabe, mesmo que brevemente, eu deixaria, por ora, meus entornos, delongas, demoras, e beijaria teus rubros lábios que me impedem de articular corretamente o que tanto quero abocanhar.

Neemias Melo

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Não há uma só vez em que eu te olhe e não tenha certeza de que é esse o amor que outrora cantavam meus avós. Um olhar com som de violão, e sinto que nele caberia o coro nunca esquecido que as gargantas roucas e afinadíssimas entoavam. Desejo, por isso, mantê-lo aceso, e conservá-lo em pequenos frascos, para que sejam abertos quando o tempo abraçar-nos também, e uma nova canção nascer com alma já envelhecida. Um amor com gosto de vinho, para que nos embebedemos à toa, dancemos com as mãos repousadas nos ombros e cinturas quando não houver mais melodia para acompanhar; para que sintamos o vento mesmo com as janelas fechadas. Um amor que nos esquente quando nos calarmos, nos tape os olhos e nos empurre ladeira abaixo, e que nos adormeça o corpo para rolarmos, cairmos, pularmos, enquanto a bebedeira toma conta do coração. Um amor que nos embriague quando estivermos velhos, e faltar a força, o apetite, a postura - que nos baste, quando não houver nada além de uma simples canção guardada há muito tempo.

Neemias Melo

domingo, 20 de novembro de 2011


Eu não vi tua pélvis ígnea procrastinando o alçar dos pelos - os arrepios desfolharam-se mudos. Quando os trejeitos emborcados de volúpia alçaram voo, não conferi tua contorção maculada. Das tuas poses, tua entrega, tua súplica, eu nada bebi. Mirei-te posta à fuga, implorando envolvimento e carne - mas não a minha. Quiseste fartura e eu sequei, buscaste gemido e eu calei, pediste paixão e eu neguei. Quando as suspensas gotas de suor se assentaram no teu colo, meus dedos já estavam prontos a recolher tua - nunca antes vista - fragura, pois roubei de ti apenas a parte que nunca enxergaste: a vergonha, e o cansaço. Arranquei de ti a ameaça de sono, para que não acreditaste nos outros, assim como deveras desconfiam de ti. Enrubesceram-se os lábios fendidos, expôs-se no vestido aberto as coxas, mostrou-se nos teus injuriosos ombros fogo, e na tua saliva um recado: murchar-se-ão e dispersar-se-ão das frontes o véu de misericórdia, pois do provar da minha língua nasce o erro. Não desistimos nunca, e ali jazeram nossos pulmões mirrados e puídos. Decerto nadávamos quando amanheceu o dia, e -tamanho o descontentamento - afundamos de mãos dadas, prontos para o mar, fugidios da praia. Não nos despedimos por desconhecimento, e poupados fomos de dor. Eu não sei o que será de ti, cabelos ruivos, mas eu nunca vou morrer de amor. Eu não vi fluindo de ti vida, nem em tuas veias sangue correndo, nem nos teus olhos o contrair das pupilas, mas nos meus nunca houve tão grande estagnação - fracassamos antes mesmo de acordarmos.

Neemias Melo

sábado, 19 de novembro de 2011

Mas minha menina,

a vida não é feita de ilusões, e essa tua preocupação com a chuva é bobagem. Dá tua mão aqui, espera que logo chega a felicidade, e ela não deixa um gosto amargo na boca, como todas as outras coisas. Mas, minha menina, deixa aqui ao meu lado as tuas lágrimas para que plantemos esperanças, desfrutemos dos olhos vermelhos, das mãos enrugadas de choro, dos dedos tortos de estalos, das pernas marcadas por quedas. Colhamos estrelas no quintal quando for véspera de ano novo, façamos um piquenique à luz de velas, brindemos as irreparáveis olheiras, os inseparáveis laços. Mas, minha menina, recitemos Cecília quando Marjorie tocar, gargalhemos da gente, encontremos respostas, misturemos os grãos. Escrevamos sobre cravos e rosas, sobre ares e folhas, sobre buscas e contos; criemos coragem, refaçamos as contas, resgatemos as causas, defendamos as massas. Vivamos de sonho e distribuamos amor. Sejamos eternos, sejamos felizes. Troquemos correntes por asas, espinhos por fitas, suspiros por dentes expostos em curvas labiais. Encaremos a verdade, disfarcemos a dor, imitemos os heróis e durmamos embriagados. Fustiguemos o mal, nos levantemos sobre os montes, brademos um hino, lutemos ao lado dos esquecidos. Eu sei que leva um tempo para entender, mas poetas nunca morrem, menina. Nunca morrem.

Neemias Melo

sexta-feira, 18 de novembro de 2011


Eu diria que se um dia você quiser começar a escrever - não sobre sentimentos batidos, rimas gastas ou dívidas nunca pagas -, se um dia quiser se espremer, abrir uma ferida com a caneta, estancar o dedo no umbigo até tocar as entranhas, boa sorte. Você vai procurar a queda, de qualquer maneira, mas o fundo do poço não parecerá tão escuro. As paredes de lá são detalhadas com formas e cores e sonhos. Detalhes esculpidos a dedo, histórias que mudariam histórias, marcas que enlaçariam frutos, frutos que adoçariam marcas. As linhas vermelhas verticais e horizontais criarão vida, voarão para lábios, pescoços, poemas. A arte pela arte. Morte é vida que caiu em sono; é folha que esfarelou-se em gesto; é frio que descabelou-se pouco. Tudo se tornará pouco. Os pássaros não serão os mesmos, assim como as pessoas perderão o gosto anterior de adocicadas maçãs. O corpo se tornará templo, as mãos carregarão a culpa, os lábios entoarão pecados, os dedos espalharão mentiras. O segredo estará escrito em sua nuca, e você sempre achará que se contorcendo um pouco mais, conseguirá lê-lo. Os funerais se tornarão eternos, a noite estabelecerá seu trono, a música permanecerá inaudível, enquanto as coisas se despedaçarão no tempo. O cansaço chegará primeiro, o mistério pedirá passagem, o espelho permanecerá inerte, enquanto você esmurra a prata que lhe aponta falho. Falhará como homem, petrificar-se-á como pássaro, emudecerá como flauta, esquecer-se-á das promessas. Quebrará alianças, construirá muralhas, abraçará ruínas e virará passado. Passou-se, passaram, passou - virará tantos, beberá todos. Assinará seu nome nos pactos - mas quem é você? Assanhará as unhas para que elas fiquem excitadas ao sentir calor, quebrantará a alma por saber que de nada adiantará gritar. Surtará. Boa sorte se quiser tentar deixar de sentir as coisas de acordo com a ínfima carga que realmente possuem. Se um dia quiser partir da realidade, pular no aquário da desesperança, desencontrar-se nos retratos, nos bilhetes, nas pegadas, tenha boa sorte e, se me encontrar por lá, não me guie de volta para casa - não caberia mais morte nesse peito manchado.

Neemias Melo

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Em se tratando de flor"

Eu te amo como alguém que observa de longe uma criança desatenta - como se não houvesse nada no mundo que pudesse tirar de mim o direito de te guardar até a morte. Eu te amo como alguém que cuida, uma ave que abriga dentro de si o sabor da vida, o salgar das lágrimas. Eu te amo como se somente eu soubesse o segredo de te fazer bem, e de te manter em segurança nos braços que sempre estarão abertos a te receber. Eu te amo porque tu és minha, porque ao olhar nos teus olhos eu entendo que a dor é pequena demais para quem consegue abrir mão das próprias chagas e entregar o pouco de força que resta a quem nos faz bem. Tu não precisas te esticar, estender os braços, chacoalhar as pernas para chamar minha atenção, porque desde que nasceste ela já é totalmente tua. E se choro, se passo noites insone, se perco o ar ao não saber onde estás, é que no meu peito reside a porção somente tua, que decerto expiraria se sumisses de mim. Viva, minha pequena, que eu estarei aqui para te acolher quando os joelhos vacilarem, quando o vento estiver estraçalhando os teus cotovelos arranhados. Meus joelhos calejarão por manter acesa a prece de te querer eternamente ao meu lado, porque vieste de mim, para mim, por mim, e desejo o teu repousar mais do que o meu conforto. Eu te amo porque eu preciso te amar, porque tu és a fonte do meu amor, porque tu és a razão de eu não ter desistido, porque tu és a menina dos meus olhos, e nada nem ninguém vai tirar de mim o teu olhar marejado e tuas frágeis e pequeninas mãos pálidas, que sempre estiveram em meus sonhos, desde que sorriste para mim.

Neemias Melo

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Não se ouve muito falar em caridade em anonimato. Há sempre atrás de cada gesto otimista um anseio por reconhecimento, uma vontade de ser visto por merecimento. Não se vê textos belos que são escritos para serem repassados, falando de um amor talvez já esquecido, de uma verdade calada, de uma dependência sedenta. Talvez o homem não mais deposite sua fé no próprio homem. Queremos ser os líderes, os cabeças, os oradores que têm sempre o direito da fala. Estamos sempre prontos para derrubar as pessoas com as nossas palavras e argumentações bem articuladas - tanto que passamos horas, senão dias, ensaiando uma só frase que arranque do ouvinte o máximo de motivação possível. Nos imaginamos sempre os mocinhos do filme, aqueles que morrem para salvar os outros, que não desistem nunca. E se nós estivermos sendo os vilões durante todo esse tempo? Ou pior que isso: sejamos, talvez, coadjuvantes na nossa própria história. Certa vez eu li num muro: "O sábio cala - a verdade por si fala", mas eu - cru que sou - nunca me reconheço ignorante, imagino sempre que os outros têm muito a aprender de mim, mas eu... passo tanto tempo ensaiando os sermões que tenho para todo mundo que nunca paro para escutar alguém. Eu não vou dizer que tenho vontade de que um dia as coisas mudem, ou que as pessoas são um mistério, ou que eu preciso aprender a viver melhor. Não, o mundo já conhece isso. Todo mundo sabe de tudo, mas se esquece. Eu me esqueço. Eu estufo o peito para dizer que eu consigo mover o impossível com minhas ideias, mas, quando olho no espelho, nem sempre sei quem sou. Eu me esqueço, ou melhor, eu esqueço de mim. Eu me deixo jogado na cama com alguma ação na ponta dos dedos e uma coragem na ponta da língua, mas me esqueço ali no canto. Não se acredita mais em milagres porque eles acontecem quando não nos resta nada além deles, mas eu sempre espero tanto de tudo - talvez não haja mais nenhum segredo. Talvez para mim não haja nenhuma herança, e eu seja um descrente qualquer que deixou de exercer o dom de entregar-se.

Neemias Melo

sexta-feira, 11 de novembro de 2011


No fundo, bem escondido das influências sorrateiras da evolução, ele sentia falta de colocar os pés na terra. Sempre que chovia, sentia a energia da água, que percorria asfalto para encontrar saída, unindo-se aos seus fluidos corporais que se exaltavam e ebuliam nos vasos estreitamente comprimidos. Quando captava de longe o cheiro de folha, sua alma estendia galhos, produzia folhas, conduzia seiva, para que houvesse movimento de dança e cura, para que o paletó não fosse maior que o limo das pedras. O mundo estava cheio de concreto, e não de pedras. O concreto entupira átrios e ventrículos, fazendo o coração bater parado. O concreto fizera das pálpebras escamas pegajosas e espessas, cuja densidade impedia a fotossíntese dos sonhos. O concreto paralisara vias, entulhara poços. O cinza paletó não poderia ser maior que o limo das pedras - a escorregadia propagação de verde. Lá, bem atrás dos pulmões, onde ele sempre sentiu morar a alma, residia o gosto da lama, a textura das cascas, o desemaranhar dos casulos. Ali morava a extensão que o mundo não pudera jamais conhecer. Dali brotavam as asas amarelas e a tintura esverdeada que tingia os olhos diante do chamado de liberdade. E os montes o evocavam de volta para o equilíbrio, pois faltava um pedaço na maternidade natural: o bicho homem havia se esquecido de que também possuía patas, pelos e instinto. O bicho-ele se esquecera de apagar as lâmpadas para olhar as estrelas, de quebrar a garrafa e beber da uva. E no fundo - na parte onde nada seria capaz de tocar - um animal uivava, latia, grunhia, miava, pedia, para ser cuspido para fora da jaula e voar para onde seu barulho fosse entendido como louvor.

Neemias Melo

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Enlaça-me, encobre-me, protege-me, amor. O mundo não pode roubar de mim o brilho. Não ainda. Esconde-me, sequestra-me, cativa-me, amor, para que não haja refúgio algum senão teus braços. Há tanto a se dizer, tanto a se mostrar, mas não há meios de externar a essência, compreende? Não há como te mostrar a entrega que faço a ti. Eu quero, amor, ser o pássaro que canta apenas na tua janela, e cujo canto não é influenciado por outras sinfonias, outras harmonias que não tenham origem no nosso reconhecimento infinito. Eu anseio, amor, ser fogo que incendeia teu rubro sangue inerte, e movê-lo, vertê-lo em paixão, silêncio, entrega; derramá-lo em nossos braços dilacerados pelo vento, espalhá-lo em nossos cabelos, outrora ninho do nosso segredo. Eu preciso, amor, transformar em gemido a fadiga dos meus músculos que se agoniam quando te veem, para que também eu não me agonie e me esqueça de deliberar tua língua, teu pescoço, teu suor. Então carrega-me, abraça-me e guarda-me, amor. Não somos perfeitos, mas ninguém, além de nós, precisa saber disso.

Neemias Melo

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Conto - PARTE III

Trabalhou na fábrica de tijolos durante todo o tempo em que morou ali. Não entendeu a saída de Vargas da presidência em 45, mas reanimou-se quando, em 1950, viu o seu ideal de prosperidade voltando ao poder. Conseguiu aumento de salário por ter conseguido permanecer no emprego quando o patrão despediu outros tantos. Mudou-se para um cortiço mais ajeitado, e onde conseguia pagar um quarto só seu. Teve algumas namoradas, saiu com várias prostitutas. Fez amigos demais, principalmente quando bebia e levava a viola. Estas eram noites de festa.
Quando, em 1954, Vargas, o pai da oportunidade, num ímpeto de bravura e desistência se matou, ficou desnorteado. Ouvia no rádio a leitura de uma carta deixada por Vargas, mas só tinha a impressão de ter ouvido: “Deixo a vida para entrar na história”. E ele, mesmo sem estudo, sem uma educação bem formada, sabia que isso era ruim. Não só para ele, mas para toda a terra de esperanças. Para sua terra sofrida, deixada há tempos. Não. Não haveria de ser assim. Não era justo que a esperança se matasse.
Pegou a viola, saiu descalço de casa e foi até o centro da cidade. Lá, pôs-se a cantar como nunca havia cantado. Entoava a canção como se não houvesse emoção que parasse a sua cantoria; dedilhava as notas como se os dedos dançassem. Fazia amor com a viola e dava vida a lindos acordes que faziam as mesmas lágrimas que caíam dos seus olhos no dia de sua partida, brotarem dos olhos de quem passava e parava para ouvi-lo.
Então era isso? A oportunidade era aquela? Ter visto o pai trabalhando, ter visto a mãe morrer tão jovem, ter conquistado amigos e mulheres e nem sequer ter calçado um sapato daqueles pretos? Será que nos pés só cabiam aquelas chinelas feitas de tiras de couro marrom?
Cantava e chorava, mas a voz não tremia com o escorrer das lágrimas. Cantava e orava, pedindo a Deus que mandasse uma chuva que lavasse aquela cidade, aquele asfalto, e que trouxesse a esperança exposta no panfleto já esquecido no mundo, mas que jamais se apagara da memória. Cantava e pranteava por lembrar-se dos amigos que saíam da fábrica, que morriam nas ruas, que sofriam de fome. Chorava porque a esperança ainda não havia alcançado a todos. E como havia de alcançar agora, se o próspero havia morrido? Como é que havia de alcançar aqueles que ainda não haviam juntado dinheiro para subir num pau-de-arara e arriscar a sorte?
Chorou tanto, tanto, que não percebeu quando um homem viu que ele estava descalço e tirou os próprios sapatos para lhe dar. Percebeu apenas minutos depois, após mais uma música triste tocada, após mais um pedido de desculpa às mãos que seguraram tão firmes o papel gasto ao peito e que agora tocavam uma música para todos aqueles que sentiam muito pela morte do homem que prometeu a melhora. Percebeu quando cessou os acordes, quando baixou o olhar e viu aqueles sapatos negros e engraxados ao seu lado. Engoliu as palavras, fitou todos os rostos ao redor, arregaçou as calças até os joelhos e saiu andando, deixando para trás os sapatos – que jamais serviriam para aqueles pés.

Conto - PARTE II

Após três dias e meio de viagem e tendo como únicas refeições feitas: um pão que ganhou numa cidadela duma moça que passava, um abocanhado na marmita que Zé, o companheiro ao lado, o oferecera e quatro mangas que apanhou do pé, quando o automóvel parou, chegou à tão esperada São Paulo. Ao todo, eram dezenove, os homens que haviam vindo se acotovelando espremidos no pau-de-arara e que, debaixo de sol e chuva, concluíram o trajeto para sua nova casa.
De início, não soube muito bem para onde ir. Talvez porque não tivesse lugar nenhum para se alojar. “Se quiser, pode vir comigo a uma pensão que arranjamos, eu e Tião, aquele de verde ali, logo três ruas acima. Aproveita e já sai com a gente amanhã cedo para ver se arranja um trabalho pra pagar a dona do lugar”, disse Zé, quando notou que o rapaz já estava para desatar a chorar no meio do grupo de homens que se dissipava aos poucos, e ainda acrescentou: “Tem que se cuidar, menino. Quantos anos cê tem? Não, precisa nem falar. Te dou dezessete. Dá pra notar pelo bigode e pelas mãos ossudas. Fica com a gente que cê vai dar um jeito também, menino. Afinal, tá tudo mundo aqui pra isso”. Suspirou aliviado, pôs nas costas o lençol amarrado, segurou firme a viola numa das mãos e foi.
Demorou a se acostumar com o novo ambiente. Tinha ouvido falar que as ruas lá eram negras e sólidas, ao contrário do chão de terra batida, que fazia uma poeira danada. Só acreditou quando viu. Havia, também, postes, longos cabos cilíndricos com uma espécie de lampião nas pontas. “Um lampião que não pega fogo. Esse precisa é de eletricidade”, havia explicado Zé, que também não sabia o que era a tal da eletricidade. Demorou a se acostumar também com o aperto do cortiço no qual se instalaram. Os três: ele, Zé e Tião, dividiam um só quarto. Um ficava na cama, um numa poltrona rasgada e o outro no chão. Revezavam todas as noites para que a dor nas costas desse trégua por ora. Só se acostumou rapidamente com o emprego, que era numa fábrica de tijolos. Carregava quilos e quilos de barro formado e saído do forno o dia todo, mas o braço já estava acostumado ao trabalho puxado. Não reclamava do salário porque nunca tinha tido o próprio dinheiro, e aquele dava para pagar a dona do cortiço, dona Sirlei, e ainda deixada uns trocados para sair uma ou duas vezes no mês com os colegas. Tinha era sorte. Ouvia falar de gente  que nem comia direito. Isso ele fazia. E ainda dormia numa cama, vez ou outra, quando era sua vez no revezamento - coisa que não fazia nem quando morava com o pai.
Das coisas marcaram sua estadia na grande São Paulo, a maior delas foi o carinho que conquistou de todos com a intimidade com a viola. Tocava sempre. No cortiço, depois dos puxados turnos na fábrica, nas vezes que saía para tomar cachaça e pitar um cigarro com os companheiros. Tocava e encantava a todos que ouviam a voz do galo que havia se aprumado na cidade grande. Algumas vezes até arranjava um trocado na volta do trabalho, quando se escorava em algum canto, estendia no chão um lenço e tocava as mesmas canções sertanejas que tocava com o pai.
Chegou em São Paulo em 1942. Tinha na imagem de Vargas, o homem do panfleto que cumprimentava as crianças sorridentes e penteadas, o ideal de gente próspera, como dizia dom Carlo. Mas ele estava longe daquilo. Percebeu quando via a diferença da roupa que vestia, do lugar em que morava e dos calçados baratos que contrastavam com os homens e mulheres bem parecidos com as crianças do panfleto. Tinham roupas escuras e bem costuras, cabelos lustrosos e rentes à cabeça. Eram a prosperidade em pessoa. A prosperidade que ele nunca vira na sua terra. Nem ali mesmo, nos próprios amigos, com as roupas que ambos usavam, com a esperança desfalcada que nutriam. Mas ele já estava ali. E não havia outra terra de oportunidade que não fosse aquela. E ele tinha uma viola, uma voz de galo, braços fortes. Haveria de deixar a esperança desnutrida a troco de que? Não. Ele sonhava e sonhava alto. Um dia calçaria um sapato daqueles.

Conto - PARTE I

Amontoou as poucas roupas que tinha num lençol e depois embrulhou. Pegou a viola que era do pai, colocou as cordas que faltava, afinou-a. Deu uma boa olhada na mesa de madeira que o pai e ele haviam construído quando menino, nas bacias que usavam para os banhos de cuia, para a telha quebrada que ele sempre deixava para consertar num outro dia. Deixou aberta a porta que fechava a casa de pau a pique quando saiu. Entrou no pau-de-arara às 5:27 da manhã, e sabia que dessa vez ia por um caminho sem volta.
“A terra da oportunidade”, estava escrito no papel desgastado com a foto do atual presidente do lado de duas crianças sorridentes, bem vestidas e penteadas. Mesmo que a leitura não fosse fácil, por causa do raro acesso à escola, conseguia silabar a frase abaixo do título em negrito. “Vargas: o homem que trouxera para o Brasil a esperança da prosperidade”. E repetia: pros-pe-ri-da-de, sem saber ao certo que diabos era aquilo. Mas se lembrava bem de uma vez ter visto Dom Carlo, um coronel espanhol que sondava as vilas da região para cobrar os impostos, dizer a palavra enquanto se referia àquela terra seca e poeirenta. “Isso aqui é uma riqueza sem tamanho, dona Mariquita. Hás de ver a prosperidade que desse lugar vai brotar”, dizia, quase se gabando, exagerando na pronuncia do r: “rrriqueza”. Sabia que a tal prosperidade devia ser algo relacionado com água para se lavar todos os dias ou carne no almoço ao menos três vezes por semana, porque a cara que a mãe, dona Mariquita, fazia ao ouvir o diplomata era a mesma de quando tinha frango caipira na panela. E – ah! – como sentia falta daquela mulher. Sentia falta daquela senhora encostada na beirada da entrada de casa, com a mão na cintura. Sentia falta da mãe, que parecia ser composta de pele e osso, com aqueles braços finos e secos e que morrera tão jovem, tão quente, ainda. Morrera dessas doenças que pegam a gente num dia, levam para a cama no outro e daqui umas quarenta e oito horas nos colocam debaixo da terra num terreno atrás da igreja, com uma cruz branca, feita de tábuas de madeira, escrito a tinta preta: “Maria Cecília”.
Ficara sozinho com o pai, desde os nove anos. Começou a ajudar no trabalho de faz-tudo com dez. Capinava roça; matava porco e limpava as tripas; fazia mesas, cadeiras, camas, armamento de telhado e colocava até as palhas, vingasse o salário pago. O pai também cozinhava, mas acabava comendo por falta de opção.  Aprendeu também a tocar viola. Ah! Nisso sim aprendera a ser mestre. Tocava com o pai os sertanejos conhecidos todas as tardes depois do serviço, enquanto o pai dava uns goles na cachaça e umas pitadas no cigarro. Cantava que nem um galo, dizia o pai. E cantava mesmo. Fazia segunda voz, quando o pai já ficava dormente com a bebida e inventava de cantar também. Sorria quando isso acontecia. Sorria agora, também, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas ao mergulhar nas lembranças, embaçando a imagem do panfleto sobre a calça meio desfiada, no colo do menino que deixava tudo para trás, sentado naquele espaço apertado. O pai morrera da mesma doença que a mãe. Acabou no leito e, pouco tempo depois, ganhou também uma cruz branca no terreno da igreja. “Sebastião Pereira”, dizia a cruz ao lado da de dona Mariquinha. Não chorou em nenhuma das mortes, o menino. Sabia que o pai havia lhe educado um cabra-homem e que agora já estava com dezessete, a idade em que um homem tem juízo para honrar o membro entre as pernas. Resolveu ir para São Paulo, e o fez na manhã seguinte à morte do pai. Guardara o panfleto que havia visto cair certa vez do bolso de dom Carlo, quatro meses atrás. Era o mesmo que agora recolhia as lágrimas que caíam do rapaz. “A terra da oportunidade”. Apertou o papel ao peito, aspirou bem fundo o ar da manhã que acabava de nascer, enxugou as últimas lágrimas que não caíam dos cílios e fez uma promessa dentro de si mesmo. “A minha oportunidade chegou”. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Os olhos espremidos observavam atentamente as crianças descalças jogando futebol lá fora. As mãos enrugadas cediam aos movimentos repetitivos dos tremores constantes enquanto repousavam na janela. O pano gasto do vestido florido deixava o contorno dos seios caídos mais delineado e cobria cuidadosamente os ombros pendidos para o chão. A pele flácida se balançava com facilidade nos braços e abaixo do queixo quando ela alisava o vestido com a palma da mão ou mudava a inclinação da cintura em relação às pernas, encontrando uma posição mais confortável para contemplar o céu e o contorno rarefeito das nuvens. Os lábios secos e miúdos se contraíam quando a gengiva sem dentes coçava, e logo depois se arqueavam num sorriso tímido diante de uma nuvem com um formato engraçado ou quando um passarinho vinha lembrá-la dos tempos já passados. As tardes na fazenda do avô. A cachoeira logo atrás da campina, os patos que por ali nadavam. O corpo bem disposto aos mergulhos, o refresco dos sorrisos brancos, dos seios rijos, dos cabelos cacheados embalados ao vento. E agora: os membros que pediam descanso, a sede que rejeitava o copo d’água, a coragem que se contentava em acompanhar de longe as aventuras já vividas. Os beijos roubados, o pudor desavergonhado no final da adolescência: o fruto amadurecido, suculento, pedindo para ser abocanhado. A primeira vez, o primeiro amor, o espartilho rasgado pelo atrito com a parede, as pernas brancas cedendo passagem, a carne quente implorando prazer. Tudo era vaidade. Já não havia mais espaço para os prazeres. A senilidade havia se apoderado dos ossos, abraçado as pernas.  Mas não havia pesar na incapacidade. A vida havia sido vivida. Sobrara a saudade. A saudade, que agora era amiga, confidente, irmã mais velha que aconselha. A saudade que gritava, inicialmente, dos retratos e do lado do guarda-roupa vazio, pertencente ao marido já falecido, mas que, agora, cantava baixinho, a mesma canção que cantavam os canários que se aninhavam na laranjeira do quintal. E a casa, com a pintura descascada, era apenas a estampa das íris esbranquiçadas, que traziam consigo a cegueira gradativa. Os móveis, de estofado surrado, combinavam com os vestidos ásperos e esfolados. Estes, emolduravam dona Lúcia, que ainda namorava os mesmos rapazes, corria pelos mesmos bosques, trepava nas velhas mangueiras,  comia mexericas e maçãs com os dentes preservados, cheirava as flores e a grama enquanto fingia ser coelho, rolando feito menina. E era menina, de fato. Sorria por nada, se apaixonada por tudo, não perguntava demais porque queria descobrir, sozinha, o significado das dores. Nem chorava quando uma farpa entrava no dedo. Em vez disso, contraía os músculos da face toda e arrancava-a de uma vez só. Por ser estéril, não tivera filhos. Por ser filha única, não tinha também nenhuma irmã. Casara-se cedo, com o amor de sua vida: Augusto, que era uma flor de moço. Viveram felizes até sua morte, e deixara ao menos uma pensão para Lucinha – como sempre a chamava. E, por ser viúva, não repartia os devaneios à toa das tardes macias. Nem se importava. Guardava para si as risadas emudecidas, já que os pensamentos não falam – só na cabeça da gente. Guardava para si também o cansaço. Não o distribuía, não cansava a mais ninguém. Mostrava-se uma árvore frondosa quando se punha na janela: dessas que balançam mas não perdem uma folha sequer quando vem uma ventania, mas murchava quando se recolhia em sua cama, sem reclamar das dores. Eram uma etapa de crescimento. E ela sabia que uma das últimas. Sorria mesmo assim, orava todas as noites mesmo assim, penteava os cabelos mesmo que ninguém a visitasse; chorava quando ouvia um poema bonito e cantarolava quando uma música grudava na cabeça. Só não deixava que nada confundisse saudade com tristeza. A saudade era de casa. Saudade fazia companhia, contava segredos, repartia o pão. Tristeza é outra coisa. É sentir muito pelo que aconteceu. E ela não sentia muito. Sentia demais, o que é bem diferente. Sentia aquela sensação de missão cumprida, de ter a leitura de um livro finalizada, de bolo quentinho no forno. E, com a saudade, ela trazia uma caneca de leite gelado para acompanhar o bolo recém-assado. E gargalhava quando sobrava um último pedaço para as duas dividirem.

Neemias Melo

quarta-feira, 12 de outubro de 2011


E, desde que você se foi, a cafeteira tem tido mais utilidade que o computador, a televisão, meus olhos apagados. Como se, desde que você se foi, meu peito precisasse pedir uma carona para um lugar longe do sol, que só faz-me lembrar dos seus olhos, que em meus sonhos sempre estão em chamas. Porque, desde que você se foi, saudade deixou de ser sentimento e passou a ser estadia. Não sinto mais saudade. Vivo saudade. Sou saudade. É que, desde que você se foi, eu fico andando em círculos à espera de um milagre, e tenho de me lembrar a cada três segundos que respirar não é nada mais do que inspirar e expirar. Força, menino. Mas se, desde que você se foi, não posso mais dormir sem chorar e comer sem sentir meu estômago dar uma cambalhota e lavar a louça sem namorar a faca em busca de refúgio, como é que arrumo as malas se você levou as roupas me deixando nu? Como é que deito no chão se os cacos dos pratos que quebrei revestem o piso que só repete os sussurros dos seus passos leves? Como é que largo a bebida tendo um dia me embriagado pela sua saliva? Eu me despeço dos bilhetes de ameaças de fuga que deixei nas paredes mas não vou a lugar algum. Porque, para mim, desde que você se foi, a ponta dos meus dedos são o outro lado do mundo, e minhas veias são inimigas, e meus joelhos não são confiáveis, e as palavras que eu urro quando me lembro dos seus braços protegendo a minha pureza só me apontam uma espada rumo ao pescoço, sempre que exalto à solidão da sala sem móveis: "me desculpa!", e os ecos retrucam: "culpa!". E culpado me permito sofrer por um dia ter sido livre e me prendido por conta própria nas suas pernas. E culpado me contento em encontrar alegria por poder lembrar da vida que tão rapidamente quanto veio com as suas carícias, foi embora com a sua tatuagem. E culpado me ajoelho e entrelaço os dedos numa redenção incerta.
Deus há de perdoar a minha dívida, pois tenho pecado de amor.

Neemias Melo

sábado, 1 de outubro de 2011

Eu deixei que o seu amor me inundasse por saber que o seu coração precisava de cuidado, de carinho, de atenção. Mas e o meu, meu benzinho? Quem é que toma conta de mim enquanto eu me afogo, tentando salvar você?

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alma irmã diz:
- Será que eu estou começando a acreditar que é disso que eu fujo? Dessa depressão... Dessa vida que a sociedade me impõe, dessa coisa de a gente viver o que já está escrito. Estudar. Faculdade. Trabalho. Família. Filhos
Pássaro Pesado diz:
- Mais ou menos assim... Mas acho que não tem como fugir. Se a gente não faz isso por obrigação, faz por amor, faz por ódio, por preguiça. Faz por não dar para anular aquilo que é óbvio. Cada um tem seus motivos para ser igual ao resto. Mas ninguém vê.
Alma irmã diz:
- Acredito nisso. E a gente disfarça tanto... Eu sempre estou bem, rindo pra todos, mas por dentro eu tô... nem sei explicar!
Pássaro Pesado diz:
- Tem a parte do livro em que uma aventura acontece, depois vem aquela outra parte em que o narrador diz: "algum tempo depois". E depois a aventura continua... Todo mundo crescido, mudado, maduro, inteiro. O tempo fez alguma coisa com eles. Estamos na parte em que a vida fala: "algum tempo depois". Não estamos nem antes, nem depois. Não somos nada formado, ainda. Estamos vivendo na parte que ninguém quer ler. Nem mesmo a gente, oras!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quando olhou para os lados, viu que não queria estar ali com aquelas pessoas, com a música absurdamente alta, com o nó na garganta, com aquele cisco que sempre caía no olho. Via corpos dançando, a vulgaridade exposta nas nucas, nas mãos. Via sexo nas pupilas, pecado nas línguas, sensualidade animal nas silhuetas. Via gente triste querendo esquecer do tempo e gente vazia o bastante para não entender que aquilo era tristeza. Via crianças que haviam sido violadas buscando na noite uma resposta, mulheres que haviam desacreditado no amor e o substituíam pelo álcool, homens submetidos ao nada, caídos sobre o próprio vômito, deitados no pó, no doce abraço do fracasso. Os ouvidos doíam, os dedos estavam gelados, os pés acompanhando timidamente o compasso histérico das luzes inquietas. Quando não conseguiu mais olhar para direção alguma sem que uma lágrima ameaçasse sair e as narinas começassem a umedecer, fechou os olhos.
E, como alguém que se despe de uma camisola de seda, levantou os braços, acariciando com as unhas o ar denso, levou as mãos acima da cabeça e posicionou-as como a receber os primeiros pingos de uma tempestade, concentrou-se na respiração e na contração rítmica do abdômen. Levantou a cabeça como se tivesse ouvido um passarinho cantar e sorriu para as cicatrizes do punho esquerdo. Quando uma nova música começou, pôs-se a dançar como um menino tomando banho, e arqueava os cotovelos num movimento de reverência. Deixava os pés varrerem o chão, e os braços se confundirem com os galhos de uma árvore que por pouco não é derrubada pelo vento.
Dançava como se não houvesse pressa para tentar achar as partes do espírito que se perderam na estrada, como se não houvesse culpa na contemplação daquilo que é profano. Dançava para celebrar a morte que há muito havia se instalado na retina, nos dentes, nos calcanhares, e para não se esquecer de que não existe julgamento quando se trata de uma vida: todos valemos o mesmo inferno. Dançava porque queria, e porque podia, e porque precisava entender que amanhã era tarde para errar uma outra vez. "Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei", ele havia lido em algum lugar. Mas qual era o preço para a paz? Que remorso era aquele que sempre nos puxou para a terra desde que éramos pequenos? Qual era a nossa dívida?
Ele queria apenas atuar, porque, na verdade, era o que todos sempre faziam. Acenava para desconhecidos, gargalhava para o bêbado que o ofereceu um gole de vodca, mandava beijos para a prostituta que não havia reparado que a roupa tinha um rasgo nas costas, piscava para os travestis que tinham rostos deformados por cirurgias mal sucedidas, sorria para o mundo, e um mundo sorria de volta. Eram todos perdidos. Todos cansados e sobrecarregados que não acharam o caminho de volta para casa. Eram todos uma comédia sem graça, um romance decadente, e ele - que antes assistia de longe o silêncio mórbido das almas que choram - misturava-se em meio àquela gente trincada, esperando apenas um sopro para se decompor. Gente que havia sido esquecida, que havia acreditado nos insultos. Gente rotulada, moldada. Gente distraída.
Dançou até o suor aderir a roupa à pele, até os pés incharem, até o nó na garganta desatar, até o sol raiar, até os passos se tornarem desajeitados por causa do cansaço. Dançou até se esgotar, até sentir o sangue sendo bombeado para todas as extensões do corpo, sentindo todas as partes latejarem. E, pela primeira vez, sentiu-se inteiro. Deixou o lado de fora no mesmo estado de emergência que o lado de dentro e sentiu que era preciso deitar. Mas que fosse num colo amigo, para chorar até que as lágrimas secassem, até que sumissem os recomeços nunca vindos, até que retornassem as antigas certezas. Sentiu que precisava de um abraço, ou de um beijo na testa mas, em vez disso, aquietou-se, juntando os braços à cintura, cessando o movimento dos pés. Respirou fundo e saiu correndo daquela boate para um lugar onde não houvesse ninguém que o ouvisse gritar que sentia muito por ter crescido e se tornado apenas mais um no amontoado de sonhadores calados.

Neemias Melo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sustentava com dificuldade os ombros arqueados e os olhos esvaecidos. Desconhecendo-se no reflexo nu, encontrava no olhar estrangeiro uma tristeza irmã. Uma cumplicidade silenciosa. Admirava as pernas eretas e de poucos pelos e o contorno da panturrilha. Pernas jovens. O cabelo ainda molhado do banho cobria algumas partes da testa e alguns fios chegavam a tocar os cílios, que pestanejavam com o contato. A barriga confusa, o peito forte acompanhando a respiração ofegante, os braços pendendo para o chão. As mãos pesadas, a pélvis delineada. O pênis calado. As coxas firmes, os joelhos precisamente ajustados, os tornozelos protuberantes, a pisada torta, indecisa. Os dedos dos pés que se fechavam num pedido de desculpas. O endurecer da cerviz que renunciava um adeus que deveria ser dito a alguém que não se conhece, alguém que não se viu. A tremulação que vinha com o choque da lembrança da violação, da vulnerabilidade, da entrega ainda não madura, do roubo, da dor. O cintilar das formas turvas que perdiam sentido quando as pálpebras não continham o transbordar que nascia na alma. O fôlego que se perdia quando a despedida era feita, sem que ao menos se soubesse quem partia. A certeza de ter sido derrubada a última parede do castelo de areia, e a desolação da ficção. O estalar da língua no céu da boca como uma negação ao mal-estar que vinha do estômago, da saliva que engrossava para que o vômito que ameaçava vir não corroesse o esôfago. As lágrimas inúteis. A espera inútil. A pureza apagada. As gotas medíocres que caíam no chão e ali ficavam misteriosas. O fruto arrancado da árvore antes do tempo. O soprar das velas, o fechar da cortina e o aplaudir mudo das poltronas vazias. Apagada a luz do quarto, a aproximação do corpo ao espelho era revelada pelas luzes de fora, que entravam pela janela cujas grades impediam os cotovelos de encontrar apoio para contemplação do cinza nos dias nublados. A córnea que brilhava com desgosto, os lábios que se contraíam secos, o coração que batia assustado, e os ouvidos que não queriam escutar o segredo. Uma criança havia morrido. E era isso que fazia doer quando os tímpanos tiniam em meio ao farfalhar das folhas secas que caíam no umbigo.

Neemias Melo 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Você


Você acha que escreve, mas rabisca. Você sente que abraça, mas se despede. Você vê uma borboleta e um girassol onde o tempo colocou uma rosa despetalada e um amontoado de espinhos sem cor. Você aposta na amizade, mas chama pela solidão quando se perde. Você jura que é livre, e vê nas grades apenas linhas a serem preenchidas. Você tem azar no jogo e mais ainda no amor, e tem a impressão de que isso daria uma música bonita, algum dia. Mas você consegue compor, menina? Você sequer sabe fazer uma nota num instrumento? Você consegue abrir a boca e dizer alguma coisa antes que uma espada atravesse o seu ventre? Você consegue deixar de sonhar, criança?
Você dança na vida, mas não há melodia a ser acompanhada. Você chora nos cantos, mas não há lugar para que essas lágrimas caiam. Você pisa em cacos de vidros nas pontas dos pés, e acha que por isso é bailarina. Você sabe que é tudo verdade, e é aí que você se engana.Você tem medo de ser mal interpretada, mas sabe que se alguém lhe interpretasse corretamente, de nada adiantaria. 
Você nasce e se desfaz
Você urra e acaricia a alma solenemente
Você cria e não se lembra
Você espalha e tropeça no próprio lixo
Você é igual a mim, criança. E o que resta a nós, que somos imperfeitos? Eu lhe digo, minha cara. O que nos resta é dar uma piscadela para o espelho, esperar que ele entenda a nossa trama e, enfim, apertemos as mãos dos nossos companheiros de farsa expostos na camada de vidro que recobre a película prateada dos nossos palcos. Às favas quem me diz que são reflexos esses palhaços que sapateiam sempre que viramos as costas! Prossigamos sem imitações, sem rastros, sem identidade a ser revelada. Com o coração na mão e a antiética nos dedos, refaçamos nossas estruturas jamais finalizadas.
E que rufem os tambores. De novo.

Neemias Melo

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

No dia em que de Romeu se desprender uma costela

Se um dia você quiser partir, diga pra mim que vai buscar a roupa na lavanderia, ou vai ao mercado comprar café, ou que vai cuidar do pomar, meu amor. Diga pra mim que vai, mesmo que na nossa cidade nem tenha lavanderia, mesmo que nenhum de nós tome café, mesmo que moremos em um apartamento. Diga pra mim, meu amor, as besteiras menos convincentes e as mentiras mais escrachadas, pra que permaneça em minha mente a imagem intacta da sua cabeça sobre o meu peito nu entre o lençol que recobria nossas coxas e a paixão que recolhia nossas vergonhas. Diga pra mim que vai, mas volta, mesmo que demore, para que eu não me esqueça do nosso retrato no espelho, e do nosso reflexo na fotografia. Dois criminosos trapaceando no amor, amando além da conta, além do peito, além do humanamente aceitável. Dois anjos caídos, dois exemplares de uma raça extinta dos céus e do inferno, se entregando aos socos na alma, às suplicas ao tempo. Diga para mim verdades fugazes e certezas incabíveis quando estiver de saída, que eu preciso acreditar que decerto estaria louco se um dia acordasse e não visse seu lado da cama bagunçado, e chamasse seu nome e o eco esbofeteasse a minha face, e procurasse forças para levantar, mas houvesse estruturas de vidro quebradiças nos meus cotovelos toda vez que eu tentasse sustentar meu peito vertido em chumbo, e eu caísse num mar de fantasia, e conversasse com as paredes, e contasse os meus segredos para o abajur, e tomasse chá com a geladeira, e dançasse forró com a vassoura. Diga pra mim que um dia volta ou que talvez nem vá, para que eu mantenha o equilíbrio da estrela que fumega em minha garganta, para que ela não morra e se torne um buraco negro que não se farta de agonias, de suicídios não concretizados, de salgadas lágrimas mornas, de canções em que amor só rime com dor. Diga, amor meu, para que, ao invés de tentar arrancar de uma vez o punhal que você ornamentou nas minhas entranhas, eu me curve diante dele e encontre um outro caminho pra escapar do final. Diga, meu bem, e eu não morro de uma vez só quando lembrar que lhe perdi no meu medo.

Neemias Melo

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Amo-te com o calor de dois sóis. Desejo-te como a corsa à procura de fontes para saciar sua sede. Espero-te como os fiéis o fim dos tempos e como as corujas o entardecer para que enxerguem a presa. Procuro-te diante do resplandecer de uma nova manhã quente, macia e incompleta. Vejo-te em meus devaneios durante as tardes de primavera, em que as flores me trazem o teu nome e os bem-te-vis levam até os teus ouvidos meu canto de saudade. Toco-te em minhas preces, para que um dia retornes, para que um dia regresses ao destino que nossas paixões traçaram aos nossos corações angustiados. Olho-te ao longe, aos poucos, às pressas, para que não notes essa dependência mórbida que tenho de ti e fujas com medo. Sinto-te ausente, mesmo que tão perto, quando teus olhos encaram os meus e não respondem ao meu sorriso de entrega. Aguardo-te aqui, como os passarinhos esperam o inverno para que voem para o sul, como os poemas anseiam o inverso, para que sejam mistério. Espero-te às oito, às nove, às dez, às onze, com pausa à meia noite pro café e pro cigarro. Assim te quero todos os dias, como última sentença declarada a um coração despedaçado, que busca nas agonias dos ais e améns o aconchego de uma chegada nunca vinda.

De: Neemias Melo para Meia-poeta

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


E então, entrei no quarto, onde as persianas estavam sempre fechadas. Dei uma olhada rápida na bagunça que era o reflexo do meu lado de dentro. Tudo igual. Numa das réstias de sol que entravam sorrateiras pelas frestas feitas pelo vento que vinha da janela aberta, notei que uma borboleta branco-amarelada jazia no chão, imóvel. Aproximei-me, me agachei e, sustentando meu corpo na ponta dos pés, me sentei sobre os calcanhares. A apanhei com o polegar e o indicador da mão direita. Estava inerte, e o barulho que suas asas fizeram quando eu a levantei à altura dos olhos era áspero, seco - estaria morta, decerto. Com o indicador da mão esquerda eu acariciava as pequenas pernas, que se aderiam á minha pele, e depois se soltavam, quando não conseguiam acompanhar os movimentos, me fazendo recomeçar o ciclo de carícias às estruturas sem vida. Com os dedos das duas mãos, abri-lhe as asas, como um cristo, um filho morto do deus das borboletas. Haviam pintinhas pretas em meio às manchas amareladas e brancas. "Que o peso dos pecados de todas as borboletas pecaminosas desse jardim que há lá fora seja despejado na sua morte, borboletinha", pensei, enquanto imaginava uma porção de insetos chorando pela perda da imaculada que veio se refugiar no quarto de um pecador como eu para morrer. "Eu te entendo, borboletinha cansada. Sei também que você nunca fez chocolate para madrinha nenhuma, devia era ser só tristeza por ela ter te deixado trancada no casulo por mais tempo. Preciso ir, madrinha, é hora de voar, você deve ter pensado. Mas a madrinha gostava de chocolate, e você sabia chorar. Alguém só soube ver uma música besta nessa agonia toda". Éramos dois caídos num quarto sem luz, com manchas pretas no corpo, na alma. Dois perdidos. Mas um era o filho de deus, o outro, um descrente de força divina alguma.
Quando, de repente, como num ímpeto de força e bravura, senti um puxão que tinha a origem nas raízes das minúsculas asas que, compostas de duas camadas, começavam a querer se libertar dos prendedores do varal. A roupa já estava seca. A morte não havia chegado e sim o descanso. Olhei-a indignado, enquanto as pequenas pernas retomavam um movimento que havia sido esquecido com o assentamento da inércia sobre a leveza. Me coloquei de pé, deixei-a dependurada pela asa numa só mão, com a outra abri uma fresta maior que as feitas pelo vento, e a atirei na grama do jardim que dava de frente para a minha janela, mas que eu nem me lembrava.
"Sai daqui, salvadora fajuta. Quem tem o direito de morrer e renascer das cinzas aqui sou apenas eu."
E fechei dessa vez a janela.

Neemias Melo

terça-feira, 13 de setembro de 2011


Eu sei que você não entende esses momentos de devaneios em que eu me perco nos seus cabelos, no infinito dos seus cachos, e me esqueço de dizer-lhe o que espera de mim. Mas você tem de entender que eu preciso me retirar, às vezes, para me recompor, para juntar os pedaços da minha armadura que se desmonta quando você chega, quando você passa. E você tem que entender, menino, que essa ironia e esse sarcasmo têm mais base no medo que na arrogância. Isso mesmo, no medo. Porque eu tenho medo de ser verdade o que os seus olhos me contam: de que eu estou destinado a lhe amar perdidamente. Eu tenho medo de um dia me enroscar nos seus braços e não conseguir achar o caminho de volta, de nem sequer querer encontrá-lo. Eu tenho medo de que essa represa que eu sustento com dificuldade um dia se rompa e inunde o seu mundo, e você nem fuja e, em vez disso, fique para limpar a bagunça, fique para entender as minhas agonias, fique para sempre, para mim.
Você tem que entender que, para não ficar com um pé atrás, eu tive de dar um pulo. Me segura, ou eu me arrebento. Mas acho que me arrebento se você me segurar também. Me arrebento, me devoro e me desfaço, abrindo as portas para que você entre e roube de mim o que quiser. Você tem que entender que eu levo muito a sério quando alguém segura a minha mão e diz que não vai soltar. Então, não solta. Não parta. Não fale. Não questione. Que o meu silêncio é apenas a tomada de fôlego que eu preciso para morrer no seu  abraço e me despir do que me impede de verter-me em amor e fogo a cada beijo seu.

Neemias Melo

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Bendito Fruto

Eu não espero de ti, Romeu, uma carruagem abarrotada de flores, nem uma promessa que nos amarre até a morte ou uma poesia mui bela que me faça apenas teu.
Eu não espero de ti, Romeu, que reconheças minha voz em meio a tantas, nem o meu corpo imerso em mentiras ou meu perfume diluído nos suspiros das madrugadas insones.
Eu não espero de ti, Romeu, que lutes contra minha família por me querer demais, nem que compre do diabo o meu passado ou que arranque dos espinhos minha alma.
Mas se queres envolver-me, e fazer-me perdido em tuas encenações, ama-me baixinho, pra que eu te tenha como um segredo a ser guardado,
pra que eu esqueça aquilo que eu já havia apagado,
pra que eu enlouqueça, me permitindo tirar  pra dançar um coração que tanto esperou para ser amado.
Eu espero de ti, Romeu, um lençol amarrotado no pedaço da cama que te aninhou por pouco tempo
ou um abraço que se esqueceu de esfriar e um lamento
de uma lucidez que não havia de durar pois era vã.
E vãos os meus pedidos entregues àquela estrela que aparece às quintas-feiras antes do amanhecer.
E vãos são os meus movimentos fluidos durante a chuva, e o intento de regar-me em teus olhos,
escorrer pelos teus lábios, teu corpo,
teu nada.
E vãs são as minhas preces, pois hei de te esquecer quando partires,
pois hei de fechar os olhos e desejar nunca ter tido tuas coxas envoltas em minha cintura,
pois hei de enlouquecer de agonia, por querer-te dentro dos ossos, me arranhando a alma.
A menos que me ames em silêncio, e me minhas paredes descasquem para os teus azulejos,
e meu choro se cale diante da tua presença,
e o meu pecado fuja ante a tua pureza,
que sussurrará em meus ouvidos a cada manhã repartida:
"Não te amo pra sempre, mas te quero pra mim enquanto teu peito aguentar doer".

Neemias Melo

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O filme já acabou mas a gente gosta de ficar vendo os nomes de quem tanto se esforçou para nos dar uma ou duas horas de distração. Comigo não precisa de tanto. Leva o coração e o que mais conseguir arrancar de mim. Nome eu nunca tive, assovia e eu voo pra perto. Casa eu não encontro, escreve "menino" e eu assopro os teus cabelos. O presente é a minha prisão, poetisa. Corre ou fica, fica ou passa: vou pra onde desatino me guiar.

Ps: esquecer de ler

O que eu faço para tentar fazer isso desgrudar é escrever, criança, e é um erro teu achar que de algum modo adianta. Eu sinto tanto nojo de quem olha para isso aqui e enxerga alguma coisa bonita, de quem pede "escreve, escreve, escreve". Manda-me morrer, afogar, atrofiar os membros. Manda-me arregaçar as mangas e escancarar o peito às unhas, que fica mais educado da tua parte.
Eu não quero melhorar. Não quero. Quero é desaparecer com aquele último suspiro que eu solto quando desligo o chuveiro. Quero é derreter com aquela última lágrima que eu deixo cair quando termino de retocar a máscara. Eu quero me despir dos meus anseios e regressar para a vida que eu tinha antes de chegar a esse mundo pra morrer.
Tem sempre uma história atrás das reticências que eu deixo pra preencher o que não coube no papel. É que sempre acho que é cedo demais para dizer que é o fim. Ontem mesmo era tarde demais para me despedir, mas hoje o meu terno preto me serviu pela primeira vez. Vou ao meu enterro. Àquele que começou há muito tempo, mas me esperavam para começar a cerimônia. Deitei, criança. O que eu faço agora é fechar os olhos. Tu te esqueceste da pergunta de sempre: "Tá tudo bem?". Sei que nunca é pra valer mas, se queres saber, eu não tô nada bem.
Tem bolo na geladeira, e estamos na época dos morangos. Pega o que quiser no meu guarda-roupa, passa no mercado e compra leite condensado e depois planeja um novo rumo. Não sobrou nada aqui.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E aquela era a grife de noivas mais requintada que se podia encontrar naquela cidade. Vestidos rodados, longos, com franjas, sem mangas, frente única e a relíquia da casa: um vestido que, de tão branco, deixava a visão embaçada depois de um tempo olhando, e que possuía detalhes bordados com diamantes pequeníssimos e bem trabalhados, como pássaros voando com ramos de vides nos bicos, flores perdendo pétalas para o vento, um moinho cercado por espinhos, uma cachoeira, uma cabana escondida, uma árvore desfolhada... Detalhes que não podiam ser vistos sem que se passasse horas a fio namorando aquela perfeição.
Foi o que ela escolheu.
Experimentou-o. Serviu. O cabelo não precisava ser arrumado, ela o queria solto.
- Pago agora e já quero vesti-lo
- Foi uma boa compra, senhorita. Se me permite perguntar, há quanto tempo espera pelo dia do seu casamento?
- Não espero. Não vou me casar
- Mas... Qual a ocasião para o vestido?
- Ah, hoje eu vou me matar – ela disse enquanto passava as mãos no vestido, sentindo o corpete delineando a sua cintura, sem mudar a expressão hora nenhuma, o que fez a atendente perceber que talvez não fosse brincadeira. Mas o dinheiro já estava posto sobre o balcão. Saiu caminhando pela calçada, enquanto a cauda do vestido arrastava no chão úmido pela chuva de minutos atrás e os pequenos diamantes iam fazendo cócegas nos muros com o reflexo quase forçado de um sol que implorava para sair detrás de um céu nublado.
- A senhorita esqueceu os sapatos – a atendente gritou para a mulher, que já dobrava a esquina.
Chegou em casa, escancarou as janelas, abriu a adega, tirou o vinho mais antigo . Foi até o banheiro, encheu a banheira, chutou para o canto a roupa suja espalhada no chão. No quarto, abriu a última gaveta da cômoda e pegou os remédios de tarja preta que ela havia comprado para o avô e dito que tinha sido assaltada enquanto voltava para o carro. Uma pena, o avô pensou, mas amanhã o vô pegava adiantado o dinheiro da aposentadoria e ela comprava de novo, mas dessa vez tomasse cuidado. Tomou.
Levou o som para o banheiro, colocou o CD predileto, deixou nas duas músicas consecutivas mais melancólicas, colocou no chão o vinho, uma taça, as drogas. Entrou devagar com o vestido já imundo nas extremidades, olhou com desdém para as veias azuis sobressalentes nos pés pálidos demais e riu. Sentou-se com calma na água morna, encarou as pontas do cabelo que, mergulhadas, tinham uma leveza muito mais bonita, muito mais morta. Agarrou a garrafa, deixou o vinho escorrer pela superfície interna da taça enquanto ia inclinando de leve a cabeça se perguntando qual o lugar na alma tinha uma cor tão igual àquela. Espremeu das cartelas, um a um, os comprimidos e deixou-os na beirada da banheira. Começou a segunda música. “Porra, mas já?”. Voltou para a música anterior. Começou a assoviar na parte da flauta. Tomou um gole do vinho. “Supimpa”, ela pensou e deu uma gargalhada frouxa. Que tipo de idiota ainda falava supimpa? Catou os comprimidos todos com uma mão e os deglutiu num só gole. Já era o coro, e ela berrava com o violão e o baixo, balançava os joelhos pra ver a água se agitar em volta do vestido que mal cabia naquela banheira. O vestido que se acostumasse com o aperto, ela também ficava desajeitada em qualquer lugar e não reclamava. E a canção já havia terminado novamente. “Porra, de novo? Eu gosto mesmo dessa música”, mas deixou a outra tocar. Muito mais triste - pensou enquanto suspirou - música assim é só pra chorar. E esse remédio que não faz efeito? E cantarolou o coro, pois não sabia a letra. Passou os dedos na boca da taça, a encheu. Tomou numa golada. Encheu de novo. Deixou a taça de lado e entornou a garrafa. A segunda música também havia terminado. Da terceira ela nem gostava, mas depois de se escorar nem se importava, estava era cansada de tudo, mesmo. Dessa gente que não escuta quando a gente grita, desse nó na garganta que não desfaz quando a gente tosse, da vida que não nos costura de volta quando a gente desfia. Queria levantar, mas ali estava confortável demais. Queria coçar o nariz, mas os braços pareciam pesados. Começou a deslizar. Queria trocar o CD, mas os ouvidos clamavam por festa, queria gritar, mas o peito queria descanso, queria fechar os olhos, mas preferiu ver as imagens serem distorcidas vistas debaixo da água, enquanto ela escorregava para mundo de lá. Queria chorar, mas já estava afogada, queria viver, mas já tinha se despedido, queria abraçar, mas já tinha alcançado. E o vestido se desfez em dança, e nos pés nasceram barbatanas, e o teto era só paisagem. E a banheira cheirava a casulo, e as clavículas, que eram feitas de aço, trançavam os cabelos que viraram cortinas, na torre de uma princesa que queria fugir, mas havia esquecido os sapatos.

Neemias Melo

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quando minha mãe foi ao médico

- Aqui está o resultado do ultrassom do bebê que você está esperando
- Mas doutor, o que é aquela mancha perto do coraçãozinho dele?
- Ah, aquilo é o que a gente costuma chamar de tristeza encardida no peito
- E ele vai conseguir sobreviver a isso, doutor?
- Pior que isso, dona Rosa. Seu filho vai nascer poeta.

Neemias Melo

terça-feira, 23 de agosto de 2011

E havia perdido com o tempo a vontade de prosseguir. Trancava-se dentro do quarto, fechava as janelas, a cortina, trancava a porta, apagava a luz, colocava algum filme ou outra coisa que não o obrigasse a exercitar a mente, a reorganizar os sentidos, pôr de volta o trem nos trilhos. Deixava que a vida lá fora continuasse sem ele, enquanto o tempo lá dentro dormia, sonhava. Fingia-se de morto sempre que alguém batia na porta ou se via uma sombra pela fresta de luz rasteira que revelava brilhantes partículas de poeira. Ficava a maior parte do tempo nu, e acariciava com cuidado as cicatrizes nos punhos, o pescoço, sentindo a movimentação precisa do pomo-de-adão durante a deglutição, as pálpebras delgadas e molengas, as costas quebradas e que se arrepiavam quando os dedos passeavam procurando um pedaço intruso que pudesse ser arrancado. Mas não havia nada ali que fosse estrangeiro, pois tudo aquilo era seu, mesmo que a dor viesse de dentro, sorrateira, decidida em adormecer algum canto que sustentava o fôlego. Tinha aquilo como uma oração, um ritual sagrado e um sacrifício posto em um altar vazio. Tinha sempre o maior cuidado possível ao sair de sua toca, quando ninguém estava em casa, e o fazia nu, como de costume. Deitava-se no chão da sala, esparramava os dedos no carpete fundo e macio, respirava devagar. Abria o guarda-roupa da mãe, das irmãs, abraçava aquelas roupas como quem abraça um defunto num caixão a ser fechado, e sugava fortemente o cheiro que um dia poderia desaparecer como aquela coisa que ele procurava nas costas – teriam sido asas que caíram? E sua alma tão triste, tão só, agarrava com as unhas a saudade estampada nos retratos e a liberdade oblíqua dos quadros, e despejava em troca uma lágrima para cada lembrança. E havia perdido com o tempo a facilidade de arrastar uma vida que vem amarrada nos tornozelos, arrastando-a consigo para a escuridão, deixando-a queimar debaixo da pele, sem que ninguém visse. Devia ser colocado numa redoma, certa vez pensou, pois, além de frágil, era belo e, assim como todas as coisas que já chegam a esse mundo trincadas, deveria viver apenas para se manter inteiro. Bebia um pouco de água, comia uma sobra que deixavam na geladeira, lavava-se com pressa e, quando ouvia alguém abrindo o portão , olhava-se no espelho depressa e pedia desculpas para o homem morto do outro lado, voltando para o relicário que o esperava debaixo dos cobertores. Um pássaro que nasceu com as asas para cima, e sempre que tentava voar se afogava – ou seria apenas uma criança brincando de pique-esconde com o medo?

Neemias Melo

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A melancolia – cômica, como sempre - veio de novo em minha janela, dia desses, para me dizer que eu tinha de voltar para casa. Acho que ela e o vento fizeram esse acordo, de me tirarem para dançar toda vez que eu alcanço um ninho ou um galho que sustente o meu pesado pouso. Mas eu não quero rasgar o meu coração outra vez, fazendo ele se desprender desses arames farpados, eu me aconcheguei aqui, no meu desespero, na minha desistência, no meu fracasso. Deixa esses amantes desvairados para amanhã, que eu não quero mais contribuir na construção de sonhos que deixei de acreditar. Eu deveria voltar para casa, decerto, mas nem sei onde ela está – se está mesmo em algum lugar. “Está bem, está tudo bem”, eu fico repetindo enquanto limpo a sujeira que vai grudando nas minhas pernas feridas enquanto eu corro de olhos fechados. “Amanhã ela vai embora”, eu digo, fitando o espelho enquanto raspo a cabeça e arranco com as unhas as novas penas que nascem nos meus braços. Tenho chorado todas as noites, receoso de que chegasse cedo a hora de partir, temeroso de que com o amanhã viesse a incerteza da calma, ansioso pelo dia que você traria a chave da torre. Você fica linda nesse traje de nuvem, criança, eu gosto de lhe ver brincando de fugitiva, invertendo os papéis comigo, me permito sorrir quando você cerra as pestanas procurando um lugar para se esconder que eu não conheça, mas eu sinto o seu cheiro de longe. Em minhas lembranças mora um pedaço seu, e eu me permito afaga-lo no meu rosto quando estivermos separados pelos rabiscos das escolhas não planejadas. Eu lamento pelo vidro que tive de quebrar para roubar uma pétala da flor que crescia na sua cômoda, mas me contento em saber que dos nossos pesadelos nasceram sua alma, que é sábia e sabe se recompor, e meu coração que, se remendando com retalhos, aprendeu a se manter inteiro.

Neemias Melo
Eu queria poder dizer que meu olhar não é assim perdido, minha boca não é assim caída, e meus sonhos não são assim pedaços. Essas fraquezas consumadas enfiam estacas no meu coração e – Deus sabe o quanto – me fazem querer estar longe para não presenciar meus movimentos de agonia. Eu queria poder recolher do chão essas palavras de esperança que me gritam, mas que se transformam em inaudíveis sussurros atravessando esse abismo de descrença que eu construí para esconder o meu fracasso. Quero banho, quero colo, quero afago, quero abraço, para ver se passa essa morte encardida nos ossos, para ver se desenterra o baú onde guardei minhas promessas. Esse céu foi sempre assim cinza, e essa rua sempre assim molhada e fria. Onde o amor soprou na minha vida, há um santuário empoeirado que serve de ninho para corujas adormecidas e pombas sujas. Há uma vela dentro de um jarro no fim da rua principal, para iluminar o bilhete que a menina deixou quando começou a correr atrás do balão vermelho. “É tarde”, diziam os ecos do silencio daquele papel amarelado e áspero. É tarde, ecoavam os sinos da igreja que distribuía pecados. É tarde, gemiam os cravos ao serem amassados pela carruagem que levava meu corpo morto ao meu enterro. É tarde, diziam as viúvas chorosas ao lado do caixão e as virgens trancafiadas nas altas torres. É tarde, dizia um monge que recebeu revelações sobre tempos vindouros. É tarde, dizia eu, acariciando o rosto pálido da menina que um dia saiu em busca de um balão colorido e acabou se afogando no riacho ao fim da campina. Os rouxinóis cantaram um hino de amizade quando cessou o último urro. Caiu o homem quando foi dado o último murro e o sangue que escorreu do nariz quebrado e da mandíbula triturada deixou um gosto salgado no vestido da justiça. No monte com forma de tartaruga havia uma cabana. Lá vivia um homem que aprendeu a caçar lobos e um menino que aprendeu a cortar os pulsos. Ao longe, naquele monte, o tom alaranjado tomava a liberdade de invadir o céu aos fins de tarde e se encarregar de fazer as linhas horizontais no punho do menino abrirem espaço para o vermelho. “Há um velho morto e um menino com uma faca enferrujada na mão”, gritava a senhorita com chapéu florido que levava uma torta de maçã. “Há um menino que aprendeu a deixar os cortes dos braços voarem e encontrar pescoços, coxas, peitos”, dizia o poeta da cidade mais próxima ao delatar o que o pequeno assassino faria. Perguntava sempre a ele: “Por que é a morte um vício insaciável para ti, menino?”. Não havia resposta, havia? “É para deixar passar o azul da noite em que nasci”, certa vez ele disse. Ele disse. E dizia com tanta convicção de que a maldição de seu nascimento havia de ser propagada, que ajuntou as sujeiras das mãos encharcadas de culpa e espalhou no coração do menino que carregava um nome na testa. “Seu nome será...”. Disse, e não terminou a frase ao cair morto em frente ao menino agora portador da escuridão.
Essa é a história que aconteceu numa tarde de terça-feira no único mundo que coube os demônios de um príncipe opaco. O mundo da desistência. Um brinde ao batuque do coração posto na bandeja de prata. Um salve aos podres de uma fruta doce inalcançável. Um beijo na boca da morte e uma canção de ninar para afastar o calor do seio materno. Acabou, criança, volta para a nudez de frio.

Neemias Melo

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E este gosto de sangue novamente em minha boca. Esta sensação adocicada que ele deixa na língua faz-me lembrar do som abafado da sua risada, enquanto eu passeava com o nariz nas suas clavículas, tentando guardar para sempre o seu cheiro, lhe fazendo arquear os ombros. Esta textura espessa que escorre no canto dos meus lábios me lembra das cantigas de roda que você cantarolava enquanto penteava os cabelos, deixando seus fios lhe desfiarem e tecerem um carpete de ternura cor-de-marfim ao som dos bem-te-vis. Esta respiração ofegante me remete às suas danças compassadas e aos seus vestidos rodados, que vestia sempre que queria me fazer sorrir, dançando para espantar os males do mundo, os demônios de mim. O peso das minhas pálpebras desenterram os versos mal articulados e de caligrafia quase ilegível que lhe escrevi e, aparentemente, ateiam fogo em meus olhos, que transbordam tentando conter as chamas. Meu peito escancarado e a minha garganta seca revelam que a dúvida que pairava sobre os meus sonhos enfim pousou e estendeu suas raízes a ponto de não poderem ser retiradas sem levar consigo uma parte grande da dignidade que me restou. Esse queixo trêmulo é a recompensa da minha fraqueza e o despejar das agonias no pedaço destinado às minhas verdades absolutas. E por se falar em verdades absolutas, você era uma das poucas que me restaram, uma das únicas causas que ainda defendia e das guerras que mantive travadas. Nunca fiz muita questão de mudar, e você bem sabe disso, mas o tempo o fez sem ao menos pedir permissão. Eu também não me reconheço, se isso lhe serve de consolo, venho evitando até mesmo me olhar no espelho, que é para poupar o desgosto. Eu bem me lembro das nossas promessas, e do preço que cada uma tinha, mas perdi a paixão pelas crenças e perdi também a fé em mim mesmo, que dizem ser o pior. Fiz o meu espaço ficar apertado para nós dois, você foi expulsa pelo meu descaso e hoje até eu estou sendo regurgitado pelos meus extremos tão distantes. E eu sangro, sofro e morro, me convencendo de que é sempre tarde para recuperar meus papéis queimados, minhas pegadas apagadas, meus caminhos divididos e meu canto, que foi selado com o cerume da sua prece. Deixo o vento frio que me trouxe até aqui me ordenar um novo caminho a ser seguido, porque eu não me pertenço. Meus tornozelos estão cobertos por essa camada superficialmente congelada, minha cabeça dói, meus joelhos tremem, meu sangue escorre sem nenhuma pressa pelo meu rosto e meu pescoço, e eu tento apenas me lembrar de cada detalhe seu, cada momento em que mergulhei em seus olhos, seus lábios, seus cachos. Esse gosto em minha boca faz-me lembrar de tanta coisa, e eu gosto de me ver assim caído, assim inalcançável ao ponto de não te machucar algum dia. Você foi um pedaço de céu nesse meu inferno embaraçado, mas eu... talvez eu seja um caso perdido.

Neemias Melo
Ontem mesmo haviam sido construídas as nossas estátuas - nada mais nos aguarda, nada mais nos aguenta. Nessa coisa de se fazer de vítima e vilão numa história desnecessariamente inventada eu já fiz mestrado, e me debruço sobre minha escrivaninha e me despeço dos meus papéis amassados. Onde é que foi parar meu cobertor? Faz frio aqui, venta demais, e meu corpo já não aguenta tantas partidas. Em meu coração jaz uma fábula mal contada e a promessa que o vento me fez, de não pertencer a lugar nenhum, pois somos compostos da mesma matéria: o tudo – ou seria o nada?, se é que há diferença. O passado me pertence, e o presente foge de mim como as palavras que eu adorno para lançar nos abismos secretos.
Ontem mesmo estavam ali as nossas posturas eretas e eternizadas pelo bronze, e os olhares ao longe, sempre perdidos, sempre vagando, e uma marcha fúnebre deixava o tom lúgubre do cinza, que tomava conta do céu, mais nítido. No mar não coube tanta tristeza, escorreu pelo rosto essas agonias, transbordou o vinho da taça, mas o paladar já estava desgastado. Um ponto a mais nunca faz mal, um novo parágrafo talvez, só me preocupo se o final chega e nos pega de surpresa – mas existe mesmo um final? Das minhas lembranças surge uma menina que sai correndo descalça e eu sei que ela não volta. Resta a nós um desfecho amargurado, como o denso fluido das nossas essências. Agarra minha mão, fecha os teus dedos dos pés junto à terra e olha pro lado, nossa despedida não tem lugar nenhum para morar. Deixa o braço caído, o ombro pendendo pra frente, o cabelo escondendo as marcas estampadas na fronte, faz um último pedido e assopra nosso mundo, apaga os meus pecados e morre devagarzinho, para que possamos voltar para a vida, que nunca esperou nosso retorno para poder prosseguir.

Neemias Melo