Amo-te com o calor de dois sóis. Desejo-te como a corsa à procura de fontes para saciar sua sede. Espero-te como os fiéis o fim dos tempos e como as corujas o entardecer para que enxerguem a presa. Procuro-te diante do resplandecer de uma nova manhã quente, macia e incompleta. Vejo-te em meus devaneios durante as tardes de primavera, em que as flores me trazem o teu nome e os bem-te-vis levam até os teus ouvidos meu canto de saudade. Toco-te em minhas preces, para que um dia retornes, para que um dia regresses ao destino que nossas paixões traçaram aos nossos corações angustiados. Olho-te ao longe, aos poucos, às pressas, para que não notes essa dependência mórbida que tenho de ti e fujas com medo. Sinto-te ausente, mesmo que tão perto, quando teus olhos encaram os meus e não respondem ao meu sorriso de entrega. Aguardo-te aqui, como os passarinhos esperam o inverno para que voem para o sul, como os poemas anseiam o inverso, para que sejam mistério. Espero-te às oito, às nove, às dez, às onze, com pausa à meia noite pro café e pro cigarro. Assim te quero todos os dias, como última sentença declarada a um coração despedaçado, que busca nas agonias dos ais e améns o aconchego de uma chegada nunca vinda.
De: Neemias Melo para Meia-poeta

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