sábado, 29 de setembro de 2012

Este blog está definitivamente desativado

Mas deixo os textos e imagens que já compartilhei em memória dos sentimentos que, hoje, passo a suprimir. Foi uma honra ter tido pessoas tão queridas ao meu redor. Mas escureceu, é hora de me recolher. Um forte abraço. Adeus.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Meus olhos não são os meus olhos

Não são os meus olhos, meus olhos. Alguém passou aqui, lhe digo, e arrancou os que me pertenciam e deixou estes que tanto me incomodam. Digo... Ainda sou eu. Sim, sou. O mundo continua o mesmo... Sabe quando se tem a impressão de ver um vulto passando quando se olha para o outro lado? Às vezes acho que uma velha árvore me persegue e deixa folhas ásperas caírem sempre que me viro. E elas brilham. Sabe quando se deita olhando para o céu e pequenas partículas semitransparentes são vistas vagando? Tem-se passado dias sem que elas sumam. Hoje durmo com minhas amigas leves. E costumava pensar que precisava do sol para vê-las. E meu quarto... Ah, o meu quarto! Tem as mesmas coisas, o mesmo cheiro e clima quente. Paredes azuis, guarda-roupas marrom, a tv que não ligo. Mas esses olhos... Não são meus. Não sei lhe explicar como seriam os meus, só sei que estes não são. Ardem, às vezes, e por seguidos minutos. Choram por conta própria e deixam de enxergar as cores. Isso é doença? Tenho tias que sempre dizem que existem doenças que ninguém explica. Alguém saberia o que tenho se eu dissesse o que sinto? Sinto, acima de tudo, agonia. Procuro cicatrizes nas têmporas, riscos nas pálpebras, e nunca acho nada. Nasci com esses olhos? Não é possível! Não me lembro de tê-los tido antes. Há algum tempo. Dois meses? Não, não. Mais que isso. Três anos, talvez. Não me lembro muito bem de como eu era naquela época, mas era quase igual. Quase. O motivo são esses... Por que repetir? Não são e ponto. Ponto. Ponho óculos escuros e saio para a rua, vejo a cidade quase igual, as pessoas quase iguais. Passo em frente a uma pequena loja de roupas, vejo minha imagem no vidro. Ando um pouco torto, ombros baixos. Resolvo tirar os óculos e lá estão eles, olhando-me com a bravura que nunca tive, encarando-me como eu jamais ousaria fazer. São tão audaciosos e fixos que não me atrevo a piscar. A atendente pergunta se eu preciso de ajuda. "Preciso, moça, mas a senhora não poderia me ajudar". Saio dali. Não me pertencem e não gosto do jeito como me olham, me fazem parecer alguém de verdade, alguém que mudou e não avisou a ninguém, alguém que viu muitas coisas e esqueceu poucas - as que não deveriam ser esquecidas. Alguém que uma vez eu quase me tornei, e que acabei não me tornando por pouco. Muito pouco.

Neemias Melo

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Todas as noites em que sinto que não vou conseguir, em que a garganta sufoca qualquer coisa que me arranha querendo sair, livro-me das minhas roupas e, de cueca, vou para a varanda. Observo atentamente minhas mãos finas, o acúmulo de gordura nos quadris que eu sempre odiei, a mancha de nascença que trago no peito; dobro os braços sobre os joelhos, como se os cotovelos fossem o alicerce do mundo, e me ponho a chorar. Geralmente, quando tomo banho finjo que choro. Espremo os olhos, delineio a boca numa expressão triste e, ofegante, abro a boca em descontentamento. Nunca tenho certeza se choro de verdade no banho ou quando saio na chuva. Mas nessas noites, em que eu me abraço cansado, deposito apenas uma lágrima no topo de uma reação em cadeia, e um castelo de tristezas se desmorona sobre mim. Numa posição de fraqueza, cada gota é um agradecimento e cada suspiro um pedido de desculpas. Em todas essas noites, o céu se deita sobre as minhas costas, faz um carinho com as estrelas e me arrepia, diz que fica tudo bem, que tudo tem de ficar bem alguma hora. Sou uma pessoa tão só. Meus melhores amigos são os meus cachorros, e minha zona de conforto é lugar algum. Trago sempre uma máscara para sobrepor o rosto vago que tenho, por sentir nojo da pena que os outros oferecem. E em todas essas noites me levanto depois de mais ou menos meia hora, deixo as pernas molhadas de vergonha e solidão, entro de novo em casa, visto novamente as roupas, escolho uma nova máscara e sorrio como todo mundo sorri. Receio um dia descobrir que não sou apenas eu que minto, e que todo mundo leva máscaras no bolso e deixa as pernas salgadas em certas noites. Tenho medo de um dia conseguir levantar o véu, recortar a pele das pessoas, deixá-las todas iguais, e lançar uma porção de céu nas costas de cada uma, e faze-las abraçar o próprio corpo, e chorar por ser muito pequena uma vida toda, e sentir que é sempre muito o que a gente tem de carregar calado.

Neemias Melo

domingo, 9 de setembro de 2012

Quem sabe

Um dia eu vou encontrar alguém que gosta das músicas que eu gosto; que se afasta quando eu peço distância e se achega quando eu penso em fugir. Um dia eu vou achar esse alguém parado numa esquina fumando um cigarro e segurando um para me dar. "Você demorou um pouco", sem pesar na fala, sem calcular tom ou gestos. Eu estaria um pouco molhado, um bocado sujo, mas o cabelo estaria legal, ele é legal de qualquer jeito. "Demorei, não é?", e esse alguém sorriria. Eu sentiria vontade de chorar mas em vez disso acenderia o cigarro. 
Um dia eu vou conhecer alguém que faça sempre café para dois e joga minha porção fora quando esfria; que revira a casa para encontrar a carteira que eu perdi na noite anterior e ri dos meus defeitos, os ama. E esse alguém vai me abraçar quando eu tiver um sonho ruim; vai deixar sempre um último biscoito no pote e dizer bom dia quando o dia começar ruim. E depois de termos nos encontrado na esquina, esse alguém me levaria para um cais e colocaria um som legal para tocar no celular. Os celulares iriam servir apenas como despertadores e reprodutores de som. Minha cabeça em seu ombro, nossos pés balançando no céu. 
Um dia eu vou reconhecer alguém no meu sorriso, e retribuir o amor tão bom que tenho gerado, e repetir as mesmas frases que escrevi em pranto, felicidade em só o ver andando. E mesmo que esse alguém não venha ou que, por circunstância qualquer, se demore, vou agradecer à vida todos os dias por ter me dado a chance de, amando, ter me reencontrado.

Neemias Melo

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Contas-me quem sou mas não sabes meu nome. Quem sou eu, amor? Quem sou eu? Costurei um de meus átrios num de teus ventrículos, minhas impurezas desaguam em ti. Tens os meus excessos mas não conheces minhas delícias, não recebes minha vida, não sacias tua fome. Arranquei a pele para que com ela te cobristes no frio, dei-te o corpo para que encontrasses desejo, dei-te palavras como estrelas - não se podem contar, não se pode alcançá-las. Teu pescoço rijo, teus ombros virados. Percebes que nunca me olhaste no olho? Via em ti um espelho, reconhecia minha feiura, meus detalhes falhos. Que viste em mim, senão meus próprios erros? Alguma vez olhaste para mim como alguém que merecia algo melhor? Eu, por ti, melhorei. Não tenho amigos, não trago sorrisos, escondi minhas lembranças. Trago no peito apenas lamentos e cheiro de chuva. Não tenho tua facilidade, tua confiança. Mas eu tinha belezas, e eu as entreguei-te. Todas elas. Como é que elas perderam o valor para mim? Não valem nada, a minha beleza, nem a beleza do mundo. Tu não as vês, de qualquer forma. Ninguém as vê. Sou outro, tenho mudado. Tenho calado tantos medos, que eles se solidificam como estátuas e me vigiam constantemente. Ando devagar. Devagar penso, devagar me reconstruo. Hoje, és mais uma lembrança escondida, e eu apenas certeza. Não sou o único que me desconhece. Tu nunca soubeste quem sou e jamais amou, como eu amei, o outro alguém que já fui.

Neemias Melo

sábado, 25 de agosto de 2012

Sou como os livros antigos. Feio por fora, e feio por dentro. Já me disseram isso algumas vezes. Não sou muita coisa, e me falta uma porção necessária de beleza. Marcas aqui e ali, dobraduras aos montes, remendos na capa. Mas sou do tamanho que deveria ser, pelo menos por dentro. Nem vasto, nem breve, tenho um punhado de história guardada e outro, de páginas ainda brancas a serem escritas. Tenho nome incomum, expressão imponente, e falar aveludado. Não sou amado por todos e nem para sempre, mas tenho certeza de que caibo em qualquer canto. Livros velhos também podem guardar pétalas mortas.

Neemias Melo

Não tenho mais tempo para falar de amor

Não tenho mais roupas que me sirvam, não tenho mais tempo reservado aos estudos, não tenho mais tempo para nada. O engraçado é que me falta tempo também para comer, para tomar um banho decente, para ler um livro inteiro. O engraçado é que não tenho pressa. Falta-me tempo para retomar a pressa. Falta-me o desespero por ser completamente inútil. Na maior parte do dia, sento-me sobre o piso frio da varanda e fumo. Tenho tempo para ver a fumaça dançando à minha frente. Divirto-me. Depois me levanto. E não tenho tempo para corrigir a postura, para trancar a porta, fechar a torneira, arrumar os lençóis que joguei na sala para deitar sobre e dormir. Não é justo. Não me parece justo. Tenho dez dedos nas mãos, posso escrever com eles, catar borboletas, lavar a louça. Não entendo como não tenho tempo. Meu dia passa corrido com pequenas pausas de nicotina. Como se eu fosse aquela fumaça que dança. Um passo feito no vento não pode ser refeito, o jeito é continuar subindo, subindo, até se espalhar no céu. Imagino sempre como deve ser cair para cima, como se o mundo virasse e eu despencasse no infinito. Há tempo no infinito? Talvez ele me espere por lá para uma prosa ligeira. "Tenho andado atrás de você, mas não lhe encontro", ele diria. "Tentasse descer um pouco, acharia", eu brincaria. Senhor tempo, senhor tempo, você viu onde eu deixei minha última lágrima? Estou seco. Esprema-me um pouco e vê, não escorre nada, nem uma gota. Quando um cisco cai no meu olho eu arranco com as unhas. Não choro mais, senhor tempo. Não tenho tempo para choro. O senhor me deixou, como todos os outros me deixaram. Tropeço nos cadarços por não ter tempo de amarrá-los, caio e não tenho tempo de me levantar. O senhor vê a falta que me faz um abraço? O senhor foi o último, o último amigo que eu esperava me estender as mãos e dizer que tudo ia dar certo. Mas eu estou saindo agora, meu ex-amigo. Estou voltando à minha queda inversa, ao meu paralelismo encabulado. Nos encontramos em outra galáxia, ou talvez eu caia num mundo que só caiba eu. Eu, minhas roupas que não me servem, minha pressa fugidia, meu banho mau-tomado, minhas preces ecoantes. Não tenho mais tempo para falar de amor.

Neemias Melo

domingo, 19 de agosto de 2012

Mãe, me empresta o carro para eu dar uma volta? Eu sei que ainda não tirei a carta de motorista, mas vê só como eu cresci. Já tenho de fazer a barba duas vezes por semana. Tenho cara de gente adulta. Mãe, a senhora viu meu isqueiro? Eu só quero dar uma volta por aí, estacionar em frente ao pequeno cristo redentor da nossa pequena cidade. Sozinho. Fumando. Do lado de fora do carro, porque a senhora não gosta do cheiro, mas mesmo assim se acostumou a me beijar a testa de manhã quando eu apanho o primeiro cigarro. "Bom dia, meu filho". Bom dia, minha mãe. A senhora viu como eu cresci, mãe? Meus ombros estão largos, embora minhas mãos continuem bem pequenas. Tenho mãos de criança, mãe, mas sou crescido, sim. Minha dificuldade é só em segurar as coisas que as pessoas grandes seguram, mas minhas mãos se firmam no volante, mãe. A senhora aprendeu a dirigir com treze, não foi? Eu já tenho dezoito. Veja só, mãe, já tenho dezoito! Já posso ser preso. Já posso comprar minha própria bebida, ver filme pornô, entrar em bares. Eu tenho idade para isso, mãe. O que eu não tenho é vontade. Porque, embora eu tenha crescido, minhas vontades permaneceram pequenas. Eu gosto de brincar com os cachorros, de assistir desenho animado, tomar leite achocolatado e comer salgadinhos. O que mudou foi o cheiro de cigarro e a vontade de andar de carro, mãe. E eu só quero que a senhora me empreste por umas duas horas. Não preciso de mais. Só preciso de duas horas para perceber que eu cresci. Eu cresci, mãe. Tenho vontade de correr para qualquer lugar sempre que penso que cresci demais. E se eu fizer o que o resto dos adultos fazem, mãe? E se eu me tornar alguém tão forte quanto a senhora? E se eu perder a fé, mãe? E se eu perder a fé nas pessoas? A senhora sabe que eu sempre fui um pouco só, mas não é por maldade. É por curiosidade. Lembra quando a senhora era menina e ficava atrás das árvores vendo as carroças passar? Então, mãe, eu me escondo atrás desse corpo crescido para ver os adultos conversando na mesa. Para rir dos assuntos que eu não sei. Eu não sei ser gente grande, mãe. Mas eu sei dirigir. E isso me faz ser gente grande, não faz? Eu só preciso de duas horas. Eu juro, mãe. Duas horas, e eu volto com o cabelo cortado, e não deixo a senhora ver o carrinho que eu sempre guardo dentro do bolso.

Neemias Melo

terça-feira, 14 de agosto de 2012

perco-me dos sentidos
à medida que a fumaça sobe
e o cigarro acaba

que é o mundo
senão um grande palco
e um imenso conta-gotas de lágrimas?

que são as pessoas
senão personagens mudos
tropeçantes em olhares vagos
em busca de finais felizes?

Neemias Melo

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O seu ciúme besta. Sempre o seu ciúme besta. Tínhamos tudo nas mãos. A faca, o queixo. Mas e o apetite, meu bem? Você vinha empanturrado de outros banquetes e eu, a pão e água, nunca soube lhe fartar. Eu lhe explicava, não sou igual às outras pessoas, não vim etiquetado como todo mundo vem. Saíamos com seus amigos, todos rindo das suas piadas, ninguém me olhava de frente, sempre pelas beiradas, e eu coçava as mãos, levantava os pés para contrair a panturrilha, para ver se aquela agonia passava. Duas horas de cerveja duravam uma eternidade em que eu não sabia aonde olhar. Eu tinha tudo: o coração livre, a conversa fiada, a roupa que me misturava ao resto da gente. Você tinha o ciúme, a desconfiança, a postura ereta, a arte de fazer qualquer pergunta se transformar num teste. E então adquiri também o medo. De falar num tom mais alto, de erguer a cabeça, de sorrir abertamente. Sempre o seu ciúme besta. Suas mãos inquietas que um dia se ergueram contra mim e me acertaram no rosto. As lágrimas que correram soltas enquanto você me xingava. Era assim que a minha cabeça deixava os meus dias, meus momentos de distração. Eu não precisava de ouvir absolutamente nada para que começasse a gritar e me justificar por um tropeço no cadarço, uma carne que passou do ponto. Meu Deus... Como é que aconteceu? Como é que eu desisti de tudo e fui embora de novo? Eu estava cansado de fugir. Exausto. O jeito era sair juntando tudo e pisar nas antigas pegadas, andar em marcha ré colhendo as roupas que caíram da mala que eu esqueci de fechar. Foi isso. Esse seu ciúme besta, que deixou um pedaço de vidro no meu coração, um coágulo no olho por insônia. Uma imagem triste de menino de volta ao lar, debaixo das asas ossudas da mãe, das músicas religiosas antigas que ela ouve no quarto, dos textos que não acabam nunca, num quarto sempre desarrumado. Meu Deus, meu Deus... Onde foi que eu assinei algum termo de infelicidade eterna? Quero o meu advogado. Quero o colo de minha mãe e não seus braços que me apertam. Quero minha porção infantil que me suja os pés e não me arde a face. Quero tudo mais bonito e menos denso. Um pedaço de amor que não me mate. Uma história de mentiras em que eu possa acreditar.

Neemias Melo

sábado, 14 de julho de 2012

As janelas estão fechadas, mas sinto o vento. O braço até arrepia. Está frio, mesmo que esteja debaixo de vários cobertores. Penso se colocar a cabeça debaixo deles me deixaria sem ar. Tenho asma. Quase morri por conta disso, umas três ou quatro vezes. Rio da idéia. Morrer sufocado por me esconder do frio e de um vento imaginário. Paro de rir. Curioso, como sempre paro de rir abruptamente, como se um pai severo me observasse em frente às visitas. Às vezes coço as pernas com muita força. Pedaços de pele se acumulam debaixo das unhas. Quase nunca sangra, mas dói. Pergunto-me se no mundo existem pessoas como eu: que coçam as pernas até que sangrem, que cessam o riso por medo de fantasmas ou lembranças. Acho que não. Para dizer a verdade, penso que tudo no mundo é uma mentira; que eu sou o deus da minha própria mente e que enlouqueci para cobrir do meu cérebro alguma coisa que eu não lembro, por ter enlouquecido. Talvez eu tenha matado minha própria mãe, embora a desta realidade me convença com suas palavras e gestos que é bem real a dor que minha existência a causa. Ou talvez eu tenha sido vítima de algum tipo de violência física ou emocional que tornasse os meus olhos estrábicos enquanto eu me retorcia numa convulsão. Ou talvez não. Talvez a vida seja mesmo assim. Assim patética. Mas não descarto as possibilidades. Penso que sou grande, e que meus dedos só não escrevem coisas mais belas porque as coisas mais lindas do mundo devem ser guardadas. Penso que sou indestrutível, e que, por mais que meu sangue escorra, o sopro de vida que carrego é levado no peito. É mais bonito assim. É também mais triste. Tentar sempre sobrepor uma realidade alheia à que tenho para não desapontar Deus. Sei que Deus nos colocou aqui. Sinto. Acho que, de onde Ele está, deve chorar. Por minha causa, apenas. E isso porque duvido que existam outros iguais a mim. Sonâmbulos. Pessoas que precisam de café e de lavar o rosto a cada quinze minutos para não acordar. Eu queria acordar, mas num lugar diferente. Abrir os olhos, ver que estou numa praia de areia branca e água límpida. O sol refrescaria minha pele gelada. Meus pés aquecendo-se na areia, meus olhos fechados deixando tudo à frente das minhas pálpebras alaranjado. Depois sorriria. Acabaria assim. Como num filme. O final de um filme. Tinha de ser assim, o final logo depois do começo. De outro modo, tudo desandaria de novo, eu perderia o controle das mãos, o chão me engoliria. Ai ai ai, meu Deus, minhas pernas. Sangrou, desta vez. Bosta! Não gosto de cheiro de sangue. Até acho a cor bonita. Penso se existem pessoas que sangram até a morte por causa alguma. Sorrio. Paro de sorrir. Alguém me vê. Alguém me escuta. Melhor entrar debaixo dos cobertores. Talvez morrer em posição fetal, abraçando a asma, e acordar na praia que narrei mais cedo, lembra? Claro que lembra! E deixar que se repita minha chegada ao novo sonho várias e várias vezes, até que eu me esqueça de onde vim, qual nome tenho, e que minha mãe chora quando me vê. Seria melhor assim. Um sonho dentro de um sonho. Como a vida que cabe em mim. Que se encaixa. Está frio. Minhas mãos estão geladas. Entro debaixo dos cobertores. Encolho-me. Sinto sono. Sempre sinto sono. Durmo. Não acordo. Pelo menos, não por enquanto. Não há pressa para acordar. Fico quieto. Espero. Abro os olhos para ver se vejo sinal de areia no meu colchão, ou algo que representasse a minha passagem para um outro lado. Nada. Repito três vezes. Nada. Estico-me. Parado fico. Decepcionado. Estou louco, tenho certeza. Não há pessoas como eu no meu mundo. Há apenas eu. Um menino e uma camada grossa de cobertores. Apenas eu.

Neemias Melo

sexta-feira, 13 de julho de 2012


"Habita, nas entranhas dos sonhos, um tempo perdido. Brota, da putrefação dos costumes, um caminho. Corre, nas marchas de cada plano, um adeus não pronunciado. Estancia, em juramentos, pedidos perdidos. Escorre, entre os punhos retesados, medos. Corta, palmas das mãos e solas dos pés, escolhas. Arranha, garganta afundo, pedidos. Camufla-se, nas pupilas, fugas. Nasce, nos passos, a morte. Parte, nos dias, a vida."
 
Letícia Rosa

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Tristes são os meus olhos quando encontram um espelho.
Triste sou no reflexo d'uma poça d'água.
Triste é a minha imagem na imagem de qualquer coisa -
Enquanto outras e outras coisas se aglomeram nos meus cílios.
Mas triste não sou. Sou lido.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Passou-se o tempo e esquecerem de me passar. Ando amarrotado numa pele que creceu demasiadamente num corpo miúdo. Tropeço nas pelancas, asso nas dobras, canso-me de excessos. Seja lá quem me esticou, equeceu de alertar sobre o sufoco. Não sei se é falta de ar ou sobra de espaço, mas, por dentro, tudo me é pouco.

Falemos sobre o medo, então. Narremos sua essência inexata e seu potêncial de molde a tudo. Matenhamos perto seu cheiro de chuva, sua força cinza, seu vazio denso.
Falemos, então, sobre o frio - os galhos secos que unham a pele e excitam o corpo à tremedeira. A sinceridade da dor, a cumplicidade do silêncio e a imponência do escuro.
E falemos da verdade. Espremamos a ferida até que murche. Vejamos - nos parapeitos dos altos prédios - crianças mudas que choram por não encontrarem estrelas caídas ou mãos que impeçam a queda [o pulo]. Queiramos perto a exatidão dos olhos que enxergam longe e se perdem [nada veem].
E, também, falemos da tristeza, mãe dos que não dormem, mestra do medo, do frio e da verdade. Saibamos calar quando ela vem, esperar quando ela cresce e ceder quando ela abraça. Reconheçamos o pouco valor que temos - ou o nenhum - e esperemos a hora de desaparecer do mundo, do roteiro de Deus, das armadilhas dos sonhos, dos ruidos do vento, carregados em seus fortes antebraços [cócegas por fios soltos de seu manto negro desfiado]. Reverenciemos sua forma sólida, seus coágulos de sangue nas têmporas, seus rodeios infinitos e reticentes.
Por fim, falemos de mim. As cicatrizes, os erros, as falas em momentos oportunos que se perderam. Falemos das fugas, dos gestos falhos, das magras mãos. Riamos da pose morta, dos pés podres, do cabelo bem lavado e cheiroso. Gesticulemos em frente ao espelho - o mundo acenando para mim.Viremos as costas - o mundo a me esquecer. Exaltemos o amor - o mundo a me humilhar. Sejamos sinceros: nem mesmo o respeito próprio limpa um coração perdido, uma mente avulsa e um par de ombros cansados. Nem mesmo as palavras, que nada mudam, mas tudo tranformam. Nem mesmo a vontade de seguir em frente ou cair da cruz. Nem mesmo o tempo. Nem mesmo a falta que me faz - que faz a todos - ter um ninho a repousar a cabeça e deixar que os pensamentos cuidem de trazer um novo sol. Nem mesmo as repetições, a gradativa perca de fôlego. Nem mesmo nada.
Calemo-nos, depois. Prossigamos, apenas.

Neemias Melo

domingo, 27 de maio de 2012

Os sonhadores cantam baixo e o sol se põe. Uma sereia paira sobre o ar deixando um rastro de brilho. Uma flor definha e cai. Um moço varre o chão e aceita o café da moça que oferece dois tipos de adoçante. Um menino chicoteia as próprias costas, um passarinho foge por prever a chuva. Mãos espalmadas recobrem o chão e, bem baixo, de longe, ouve-se o canto dos que dormem. Olho ao meu redor. Todos acenam: o moço que varre, a sereia, as mãos que pisoteio. Chamam o meu nome e não abrem a boca. Conhecem-me sem me notar. Sentem que fui algo que deveria ter durado e simplesmente evaporou. Sentem minha falta. Sinto minha falta.
Fecho o livro que carregava nas mãos. Sigo em frente. Não olho para trás - não antes de ter atingido distância suficiente para ser considerado um estrangeiro quando retornasse. Não retorno. Todos continuam acenando. Guardo o livro na mochila que carrego nas costas. Dou as costas. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta.
Já não ouço o canto dos sonhadores e o sol já nasce. Deixo no peito o vazio oscilar entre solidão, saudade e tristeza, ao preencher-se. Nos dias em que ambos preenchem o peito, consigo chorar. Nos outros, não sinto nada. Ou sinto muito. Por todos. Por tudo. Sinto, apenas. As penas. Coçam. Sinto que caem ou crescem. Sinto medo, mas fecho os olhos. O escuro fortalece a crença e purifica os anseios. Ando crente e forte. Ando só. E eu não volto. Eu não volto.

domingo, 13 de maio de 2012


é chegado o inverno.
choro com frio;
adormeço cansado;
penso onde estarias se ainda me amasses.
abro os olhos.
estás ali diante,
bem diante de mim.
carregas nos olhos o amor do qual não sou digno.
sorris.
dói-me o teu riso.
dói-me a capacidade de sorrires com o nada que represento.
dói-me saber que, mesmo merecendo mais, te contentarás com pouco.
muito pouco.
é chegado o inverno.
lá fora, o céu nublado deixa o dia claro.
a luz invade o quarto onde estamos.
os corpos nus,
as mãos dadas.
tu dizes "eu te amo"
e eu cerro as pestanas
como se dissesse "sinto muito"

Neemias Melo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

fumaça


em que lapso de bocejo perdi o fim do mundo? ando perdido como perdidas estão todas as coisas. desprendo-me do teto - evito cores, raios, flechas. como um pêndulo entre lençóis, balanço. amanheceu, mas é hora de dormir. em que estação do ano perdi o último trem? soprei as velas do meu décimo nono aniversário e logo a vida inteira se apagou. reparto lágrimas em pequenas xícaras para cada caco de mim. acabado o sal, conta-se a sede. em que insônia perdi o medo do escuro? a lua pia, o piso é frio, o cobertor engole-nos - eu e todas as flores que abraço - repouso a cabeça sobre as mãos unidas. choro. tento colher um soluço, mas também o soluço se despedaça. a respiração falha. os punhos relaxam. um suspiro dança invisível. em que ventania esqueci de fechar a janela?

Neemias Melo

domingo, 25 de março de 2012

Eu começaria falando dos olhos ou das mãos. É sempre assim. Depois, diria como eles se tornaram ásperos, embora úmidos, inteiros. Descreveria os dedos irregulares, as pupilas dilatadas demais para um dia de muito sol. Viriam, também, os tremores por falta de qualquer coisa que suprisse o vazio torto dos dedos outrora descritos, o sussurro do vento, o pestanejar da tevê - como se meu quarto abafado falasse as coisas que eu não conseguia dizer por cansaço ou preguiça. Eu falaria sobre o espelho, o cabelo, a cozinha, as partes do meu corpo que as roupas escondem, do céu que nunca mudava quando eu me atrevia a desviar o olhar do chão, da perca de sentido quando eu falo dessas coisas. Escrito isto, eu exploraria algum sentido quebrado dos que nascem em alguns homens - cegueira, surdez, esquizofrenia - e acreditaria que eu mesmo sou cego, surdo e louco. Algum elemento natural ou fala esquecida me diria que é hora de fazer alguma coisa que eu não entenderia ou não faria questão de entender. Não ousaria tocar em uma palavra. Nenhuma só. Visitariam as linhas a morte, o tempo, o descaso. Eu fecharia a porta por não querer corrigir a postura que uso quando escrevo, e para que ninguém me visse chorar se eu perdesse o controle. Eu contaria os meus segredos em pilhas de metáforas, bordaria os meus medos com flores e cobriria os meus demônios com pedras limosas. Confesso que sempre achei lindo retomar o mesmo processo de sempre e ainda parecer imprevisível. Sempre adorei a ideia de escrever, ser alguém que doma as palavras com a mesma sagacidade com que o faz com os sentimentos. No final, eu sorriria, porque apenas eu sabia das coisas que não escrevi - embora tudo estivesse ali disfarçado. Aquele covarde que se escondia atrás de duas palavras de fé; aquele moço triste que jogava papéis picados para o alto e se convencia de que via neve; aquela coisa previsível que perdeu a identidade de menino ou homem, pássaro ou gigante, mas que voltava ao canto para rabiscar o ladrilho gasto com um prego enferrujado. Aí mais uma coisa. As coisas sempre viriam com um adjetivo que as fizessem mortas, fracas ou velhas. Porque as coisas por aqui são assim. Porque eu as deixo trancadas tempo demais, apertadas demais, confusas demais e, sendo domado por aquilo que sinto, acabo por nunca saber quem sou.

Neemias Melo

sábado, 24 de março de 2012

Os olhos fechados queriam mudança repentina de cenário quando abrissem. O aviso prosseguia preto. A promessa tatuada sempre. Nos lábios, a fala repetida: "Estou partindo". Geralmente seguida de atrasados pedidos de desculpas ou chorosos silêncios de consentimento, a frase neblinosa perdia a textura de sal, ganhava cor de chão; e, por uma vez - uma só - tragou-se por si só aos pulmões, dando a si mesma vida, isolando as pontas soltas dentro do peito.

Uma só vez não houve resposta; os ouvidos não reconheceram ameaça, o tamanho do estrago era idêntico ao da possibilidade de cura. "Estou partindo". E, partido, permaneceu exatamente onde estava - onde os olhos alcançavam uma porção vazia o bastante para não apresentar risco ao corpo que tornou-se volátil para não se diluir. Partido ficou até que o sol nascesse e alguém acordasse no outro lado da cama. Depois abriu os olhos, soube ser também cenário, abraçar a tatuagem, suspender o aviso. Pediu ao sol apenas que a noite outra vez voltasse, e, com ela, toda a incerteza de se acordar com a falta que se pretendeu dormir.

Neemias Melo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

E, agora, vejo-te a olhar-me assim,
e - não a mim - teus olhos veem.
E, logo depois, sinto-te a beijar-me a fronte,
mas - não minha pele - teus lábios tocam.
E, enfim, abraço-te macio como uma pluma,
porém - leve como uma montanha - suspiras.
E sussurro algum pedido de que te achegues,
que venhas me amar mais de perto.

Vens:

os olhos anuviados, a boca pálida, os braços caídos -
Tão perto quanto deveria ser
o outro lado do mundo.

Neemias Melo

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eu vi. Um rapaz se olhava no espelho e a imagem refletida o contrariava. "Quem és tu?", perguntou o vidro. "Sou tu. Solto. Sol to. Soutu.", disse o próprio reflexo, desenhando as palavras enquanto as pronunciava, sem esperar a resposta. Riu, riu e riu. Socou o espelho e o rapaz se despedaçou. O que o mundo conhecia não passava de um avesso da cena confusa que criou, sobre dois universos paralelos, um morto e um esquizofrênico, ambos despedaçados e canhotos. Eu vi.

Neemias Melo
Parem a vida, preciso descer!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Saudade

Cabe, no teu sorriso, o meu amor
e, nos teus dentes, o mistério do vento.
Cabe, na tua mão, a minha vida
que, de padecer, empalidecida,
recorda teu beijo com gosto de tempo.

Neemias Melo

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A questão é que orgulho e egoísmo são coisas totalmente distintas, mas possuem o mesmo cheiro, a mesma cor e o mesmo gosto. No final das contas, você nunca vai saber se a trança que protege o seu coração é bordada de lágrimas ou pedras. O isolamento, por outro lado, é bem simples. É uma questão de precaução. Apenas deixar seguro aquilo que, sabe-se lá por quanto tempo, ainda não se juntou às folhas que deixamos esparramadas, contendo frases avulsas, palavras desencaixadas, parágrafos tortos. Amor desentendido, você diria. Não, não, companheiro. Eu me refiro ao passado que ainda não reconheceu seu posto de morte e sempre dá um jeito de soltar um suspiro fraco - desses que derrubam qualquer certeza de que o sorriso, ao menos uma vez, era verdadeiro.

Neemias Melo

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Absconditus

Naquela noite, em vez de ver a lua, a lua me viu. Como se se escondesse atrás do muro numa brincadeira, ela espiou quando fechei a porta do quarto. Notei que alguma coisa havia se movido atrás de mim, e um brilho perolado abrandou-se quando me virei. Caminhei até a janela, afastei o pano que a cobria. Com calma, subi o olhar até encontra-la. Entre as grades, eu a descobri, olhando-me como uma menina que encontra um tesouro enterrado. O céu, pintado de nuvens rarefeitas e muitas, dava a impressão de ser infértil e rachado como solo sertanejo. Uma só estrela brilhava pomposamente entre o anil escuro da noite e o cinza empalidecido das nuvens banhadas de lua – o astro que não era meu porque me encontrou primeiro, escondida atrás de um par de grossas cortinas que deixaram escapar, por fisgas discretas, um fulgor diamantino que me avisou: “és assistida”. Mirando-a, sorri, mas ela não me retribuiu o sorriso; fitou-me. Ventou e, como se duas mãos me abraçassem pela cintura, acheguei-me à parede, entrelacei os dedos nas grades, exalei um hálito apaixonado e quente - típico de alguém que não sabe dançar, mas é chamado pela lua a fazê-lo. Eu disse a ela: “Não sei dançar, não, dona Lua”, mas ela não ouviu; fez ventar mais forte e a alça direita da minha camisola escorreu pelo meu ombro esquerdo. Fui ajeitá-la, mas o vento tornou-se ainda mais impulsivo, fazendo escorregar também a alça direita. Abracei os seios a evitar a nudez e olhei-a novamente, curiosa. Uma faixa de nuvem passava-lhe pela base, como se sorrisse e calasse o riso timidamente com a mão - uma fresca brisa substituiu o anterior ar agitado que, sem perceber, desprendeu-me os cabelos, agora soltos e bailarinos em minhas costas.

Demorei a observá-la até que a nuvem se retirasse e ela voltasse a fitar-me silenciosa. Um palpite absurdo passou-me pela mente e sacudi a cabeça, recusando-o. Não poderia ser. A brisa continuava; balançava levemente o breve acúmulo de seda caído sobre meus antebraços postos num abraço individual de cotovelos. Ela, ainda misteriosa, permanecia impassível, quase séria. O mesmo palpite voltou a me transpassar e, dessa vez, não o expulsei com a veemência anterior. Mas seria possível? Pensei, e, de imediato, a brisa intensificou-se, balançando minhas vestes mantidas pelos meus braços, como se me lesse os pensamentos. Mas será? E intensificou-se um pouco mais. Então, entendi. Não era dança, o que a lua queria. Mas como? E, sem argumentos plausíveis, reconheci que eu não podia trair a sequência dos fatos. Ela havia me descoberto, e não eu a ela. Mas e se... E se eu a tentasse persuadir através de sopros? E se eu a tivesse achado primeiro? “Não achou”, ela me disse. Não achei, consenti. Eu a pertencia. Vagarosamente, afrouxei o abraço, o tecido, agora em queda, fazia cócegas nos pelos abaixo de meu umbigo. Peguei espessas mechas louras que se desprendiam de minha cabeça e usei-as para tapar-me os seios. Prontamente, o vento voltou – afastando-as. Olhei os meus seios à mostra, os mamilos rijos, uma pinta escura acima da auréola direita. Voltei a ver a lua, que parecia estar num cenário diferente do de minutos atrás. Percebi que havia deixado passar algo. As nuvens - as tantas de antes - imitando o meu despojo, haviam passado. Também estava nua, a lua. Dali, eu não via do mundo mais do que minha visão alcançava da janela, mas senti como se nada mais precisasse ser visto e nenhum segredo houvesse maior do que aquele. Ouvi, de algum modo, a lua me dizer que eu e ela tínhamos uma coisa em comum, e eu, instigada, procurei o que era. Num céu todo limpo, apenas uma pinta brilhava perto do seio da lua. Uma pinta? Olhei de novo meu seio direito e ali havia uma estrela, num corpo todo nu. Sorri. Voltei os olhos e, dessa vez, ela sorria de volta - toda aberta e convidativa a mim e minha nudez. Todo aquele esplendor anil cobria-me e eu percebi que, em vez de infinito, o céu era apenas um espelho que refletia a minha imagem clara, loura, crua, imersa em frescor e despida de sono. Prossegui de olhos abertos, ao máximo, para entender o que a lua continuava a me dizer, mas já não dizia nada. Toquei a pequenina e negra mancha no meu seio e a estrela, no céu, piscou. Tudo compreendi – num tipo de entendimento que eu não ousaria escrever e certamente falharia se tentasse.

Tempo depois – e não tenho certeza de quanto – fui visitar meus avós no interior do Estado. Lá havia um lindo lago – escuro, profundo e gelado, como uma ponta de dedo salivada que alcança uma faísca de carvão ainda viva. Devo dizer que, depois do meu encontro com a lua, passei a dormir sem roupas, como se elas me parecessem mais pesadas do que de costume.  Quase tudo me parecia desnecessariamente pesado. O céu, num dos dias em que lá estive, chamou-me às pressas, enquanto dormia. Levantei-me, fui até o lado de fora da choupana. Talvez fosse tarde, mas o tempo não se é contado numa noite em que o infinito pede companhia. O céu me chamava para o lago e eu não via razões para não obedecê-lo. Caminhei sem receio algum de me perder. Meus pés sentiam a grama roçar no espaço entre os dedos e um calor amigável brotava das minhas panturrilhas. O terreno plano das terras de meus avós deixava a impressão de que o ajuntamento de águas sombrias e o céu sem estrelas eram apenas um, e apenas uma parede fluida separasse o mundo dos sonhos. “Entre”, o céu ordenou. Entrei. A água estava demasiadamente fria, mas o fogo de minhas pernas parecia se estender por todos os lados. “Deite-se”, prosseguiu em ordenar, sem nenhuma pressa em sua fala. Deitei-me. Com todo o corpo coberto de água, apenas a face mantinha-se exposta à serenidade da brisa. Pequenas folhas imersas bailavam em minhas nádegas, meus ouvidos ouviam um ritmo bonito e desconexo de pedras a rolar e sinos abafados. “Venha”, ele falou, como se estivesse dentro da minha cabeça e eu o pudesse sentir pressionando-me o cérebro. Logo a face também imergiu.

No momento seguinte, sem que houvesse aviso prévio, senti que era engolida pelo frio, meu corpo era imerso em escuridão e, então, sob uma curta sobreposição do sentimento de desespero ao de perda, mergulhei numa imensidão azul marinha, senti que caía, mas comecei a levitar, a perder as formas do meu corpo. Ultrapassei as nuvens, as massas oscilantes de ar, e, antes que digerisse o que acontecia, estava no topo – mesmo que me parecesse improvável - do céu. Observei atentamente o território embaixo de mim e pude ver que estava sobre a minha casa, mas que podia abraçar o mundo inteiro. Uma sensação estranhíssima. As casas pareciam pequenas peças de encaixe, mas tudo me era conhecido. Senti que podia espiar a minha janela. Impulsionei minha massa para frente. Notei que podia. Sorrateira, pus-me logo a explorar o espaço cedido. As cortinas estavam fechadas, mas uma fresta aberta revelava-me que alguém estava no meu quarto. Seja quem quer que fosse, notou que era visto. Apressei-me em voltar ao meu posto, receosa. Vi duas mãos brancas afastando as cortinas, aproximando-se da janela. Notei que as mãos eram tão pálidas quanto a lua, mas, ao ver o reflexo dos olhos do ser que se revelava entre as grades, percebi que tão pálida quanto as mãos da menina de camisola era o meu esplendor esbranquiçado. Eu era a lua, e, percebendo que via a mim mesma dias atrás, pensei em chorar ou desabar dali, de encontro a mim mesma, mas, em vez disso, o que produzi foi apenas vento. Um místico e atrevido vento.

Neemias Melo 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Na virgindade de uma boca, um só pedido: Ensina-me o sabor do mundo.

Neemias Melo

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções. "Nunca termina nada, o menino. Faz qualquer um acreditar na sorte quando começa alguma coisa, mas logo empurra descrença goela abaixo nessas pessoas, que não mais fizeram do que estender as mãos, e vai embora", eu ouvi ela contando à minha avó. Não mentiu. Das coisas, sempre quis o pior, a parte podre, o desequilíbrio pendente para o desastre. A vida tem seu preço e eu me atrevo a cobra-lo de quem se esquece de correr o risco. Faço questão de que as coisas sejam, de todo, desajustadas. Acostumem-se os antebraços com as marcas deixadas pelas unhas de outrem enterradas na pele, implorando para que a partida não chegue cedo. Adormeçam os cotovelos para que o frio não fustigue com tanto fervor a carne, quando o vento contrário parece a ponto de açoite. E que dar as costas não custe tão caro - fecham-se os olhos, espremem-se os lábios, tornam os pés à porta e, depois de atravessá-la, cerra-se tudo, o tempo se cala. Ando sobre as coisas sem medo de cortar os pés - minha cor é quente, como quente é a chama da vela que me demoro a enamorar, bailando a ponta dos dedos rapidamente em volta do pavio enegrecido. Caem as coisas à medida que passo e não torno a calcular o tamanho do estrago. Cresceu a vida à minha volta como um empilhamento de caixas de papelão, cheias de livros amarelados e de cheiro forte e áspero; sinto sempre a insegurança de ser pego de surpresa pela chuva, diluindo-se os papéis, cobrindo-me de uma massa espessa de histórias esquecidas e verdades ainda guardadas. Mas eu, sobretudo, caminho. Não que seja necessário, ou por questão de culpa ou erro; caminho porque as pernas ainda funcionam e porque há qualquer pedaço de caminho pronto a receber a mim e a essa atração de desgraças que me acompanha. Culpa dos homens por haverem se corrompido com essa fraqueza tosca e essa fé bruta no impossível. Eu parto, mas parto de olhos abertos, a sentir todas as lacunas que deixo em fundas pegadas por onde passo. Eu aperto no peito o casaco que me isola dos perigos do vento; busco, num bolso, um isqueiro prateado, noutro, puxo um cigarro, ponho-o seguro entre os lábios secos, contraio-os em volta do objeto, protejo o fogo com uma concha feita de mãos, acendo-o, trago; o gosto é, inicialmente, amargo - como todas as coisas são amargas, de início - e prossigo.

Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções, e eu dizia a ela que é porque o cigarro tem um gosto mais agradável ao palato depois de algumas tragadas, e que eu era uma espécie de cigarro; que um dia as ruas me espremeriam entre as esquinas, me prenderiam entre alguns muros, sugariam de mim todo gosto forte e droga letal - eu seria qualquer coisa que a vida guarda no bolso e espera a hora mais fria da madrugada para acender e sorver. Eu era qualquer coisa que deveria evitar findar-se, porque eu evitava o fim de tudo. Eu só espero um clique num isqueiro prateado para, então, ser sugado até desaparecer.

Neemias Melo

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Praça da Liberdade

Pois cantava aquele pássaro como se piasse abruptamente
Mas bem sei que me chamava às pressas
Porque punha a goela a exalar uma sinfonia aguda
e fitava-me, usando as asas como um leque
Produzindo vento pra que eu também balançasse as minhas
[asas que nunca vi]
“Piá, piá, aqui, aqui, que é?, que é?, sobe cá”
E, retumbante, saltava de galho em galho
Abria o bico descontente, brandia golpes de altivez
“Aqui, aqui! É aqui, piá. É aqui!”
Repetia, impaciente, encarando as minhas pernas desajeitadas
Meus longos braços descomunais e irregulares
E, sem entender, prossegui transeunte
Deixando, ali, às sombras d’um Jacarandá
O pequenino que ajuntava estímulos, jeitos e cordas
Pra puxar um menino-pássaro para a vida que o sustentaria
Tal que as pernas não fraquejassem e as penas, enfim, crescessem
Mas ouvi que me chamava, o companheiro,
Como se já fosse eu moço engravatado
Que, daquilo, não fiz eu sequer menção - e muito menos esforcei-me 
Em impulsionar o corpo, expulsar a queda, aceitar o canto
Que me fazia ser igual ao sabiá

Neemias Melo

domingo, 15 de janeiro de 2012

Fênix

Abriu os braços a receber os flocos que caíam levemente ao seu redor, se acumulando na calçada, em cima dos muros, nas extremidades das árvores. Sorria abertamente, mostrando os dentes; olhava para cima, imaginando-se sobrepondo as calçadas, alçando um tipo de voo incomum - mas permanecia ali, presa ao chão, numa cena tão triste quanto poderia ser. As pessoas passavam e se demoravam olhando o devaneio que, durando alguns minutos, deixava a impressão de ser eterno. Era uma menina posta a abrigar partículas acinzentadas que vinham do céu, e que gargalhava ao perceber que tocavam a sua face empalidecida de frio e timidez. Mas não percebia... Não percebia que os cabelos se incendiavam. Sim, pegavam fogo. Os fios, outrora negros, flamejavam e se acendiam como uma fogueira. Labaredas se desprendiam de sua cabeça e ela sequer notava, sequer via. Debaixo de um carvalho de alguns metros de altura, a chama que irradiava dos seus cabelos alcançava alguma folhas que, queimando, soltavam-se dos galhos e, ainda fumegantes, deitavam-se em objetos que também tornavam-se avermelhados e quentes. Casas, caixas de papelão, jornais dispersos, papéis. Ao seu redor, tudo era banhado de fogo e desmoronava. Gente ainda passava e via que a menina se confundia, mas não conseguiam se aproximar dela - uma onda de calor indomável os impedia. E as coisas iam se decompondo, o vento as espalhando, o frio não condizente com a destruição calorosa que se alastrava. E ela ainda sorria, olhando para o céu, sem sentir que o calor que emanava de si acabava com tudo à sua volta. Era uma cena horrível. Ela via as estruturas minúsculas se assentando nas bochechas claras e pensava ser neve aquilo que eram cinzas iniciadas pelo desespero que ela nunca soube arrefecer.

Neemias Melo

sábado, 7 de janeiro de 2012

Confissão

E eu, por vezes, tocava aquelas fotografias como que pelo ínfimo entrelaço mantido de que ele, um dia, também as tocara. E me esparramava no carpete felpudo, afundava os dedos nas cerdas macias, só por saber que, um dia, ele ali também se deitara. E observava a cozinha, os tantos copos, os talheres não mais em seu esplendor prateado, e beijava-os todos, esfregando a boca decididamente nos objetos que ele, um dia, também beijara. E mirava o espelho trincado, com alguns respingos aqui e ali de pasta de dente - os que ele, apressadamente fazendo os movimentos de vai e vem com a escova, espalhara pelo vidro - e não reconhecia posse alguma minha no reflexo. E eu, por ora, despia-me e me posicionava nu em algum canto em que tivéssemos transado; apalpava cada parte de mim; alisava minuciosamente cada porção contaminada, cada ponto doído, sentindo o corpo que, um dia, ele lambera, cheirara, roçara o peito que chamuscava grossos pelos, deitara as mãos que também partiram. E eu, por instantes, silenciava a casa toda, apagava as luzes, sentava-me ainda despido no chão frio, fechava os olhos, repousava os braços, controlava a respiração e escutava aquele coração que, um dia, ele arrebatara. Eu era o templo vivo do amor que sobrara - e ele era a minha indagação.

Neemias Melo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Janela

Fecham-se as cortinas como se fossem pálpebras e mergulho no mundo que apenas a ti mostrei. Tão fácil seria, se voltasses a ocupar o espaço que adornei para o teu repouso, bem ao lado das dunas que banhei do sal que brotou dos meus olhos, um tanto úmidos. E não vacilariam os meus membros - os pés que rejeitam sapatos, os braços que atraem a frieza da madrugada, as pernas que preferem a nudez - se trouxesses aquela caixa que, não produzindo mais música, guarda as tuas jóias e tua coleção de bilhetes de cinema. Porque eu sabia, desde o início, que eras uma mentira, se igualando às musas que admiravas, por não possuírem elas dono, enquanto tu tinhas um cão a privar-te das noites mas que ao menos lambia-te a perna quando um bocado da tinta que escurecia os teus supercílios a sujava. Morre o sol nas curvas sensuais do horizonte e eu me demoro a perceber que já é tarde e ainda te espero para o café da manhã, com uma xícara de leite frio e dois biscoitos a serem descartados. Deitam-se as nuvens e a lua, lá de cima, roubando apenas para si o altar do céu, olha-me com uma cara de pena, diz para que eu não me engane, que eu não me desgaste, em saber que não voltas mais. Mas eu, mesmo perdido, te espero. Como se adiantasse manter acesa, a chama que grudou teu perfume cítrico nas minhas roupas de lã e se as cortinas fechadas da casa que abriga um sonho bom e desacreditado impedissem a lua de calar suas observações a lembrar-me de que estou só. Louco e só.

Neemias Melo
E ela me segurou firmemente pelos braços com aquelas mãos de quem passa o dia inteiro colhendo jabuticabas e se esquece de limpar os restos das cascas de jabuticabeira que grudam na dobra dos dedos, me sacudiu como a um galho abarrotado de maduros frutos na esperança de que alguma coisa caísse - uma palavra, um resmungo fraco qualquer - e insistia em querer mostrar, com alguma expressão no rosto, no modo com que franzia o cenho e enrugava a testa, que eu não estava ali. Ora, que absurdo! É claro que eu estava ali – perto da árvore cujas camadas desfolhavam-se, deixando-a brutamente adornada, enquanto uma chuva de pequenas verdes e amareladas folhas em chamas, refletoras da luz do sol diretamente nas minhas pupilas, secava-nos as bocas que voltavam a molhar-se com saliva quando a língua, carreada de água, sais e enzimas lustrava os lábios num movimento de sede. E é claro que eu estava ali, mesmo que não conseguisse ajustar o foco no seu rosto moreno, e apenas os seus cabelos castanhos, trançados de lampejos de sol, se balançassem no cenário que, jurando eu estar acontecendo, fiava.

Ela me disse com aquela voz de quem bebeu a noite inteira com os amigos e depois foi para casa a pé se encharcando de uma garoa fria de outono quase em fim que eu não estava ali. Ora, como não estava? Eu estava ali atrás de algum carro parado, de alguma caixa de papelão a ponto de desmanche, na forma de uma moeda jogada a um mendigo cego que apontou a abertura da caneca de lata para o lado errado. Eu estava ali, mesmo que só visse vultos de cabelos escuros ensopados se espalhando num espaço estático de gotas que não se moviam, como se a negrura empapada manchasse o próprio ar.

 E ela beijou-me a testa com aquela boca de quem fica horas abocanhando os beiços e arrancando as securas ásperas e sobressalentes vindouras dos períodos que a língua se esquece de encher-se e regar a vermelhidão das dentadas e disse “adeus”, como se eu não estivesse ali sendo chacoalhado - por aquelas mãos ossudas que eu não distinguia no meio dos fios castanhos que se alastravam por tudo que respirasse ou não. Disse adeus como se eu não estivesse ali, nas horas em que ela comia pedaços dos lábios até que sangrassem, ou como se eu não reparasse que ela nem via que eu não estava ali.

E ela me olhos com aqueles olhos de quem...
Os olhos de...
Olhos daquela que...
Olhou com aquelas armas que ela carregava onde deveriam caber dois globos marejados, com íris de cor semelhante à dos cabelos. Mas ela me olhou. Com aqueles, só dela, e não de outros, olhos. Não como quem recebia uma rajada de vento, ou como quem chorava - apenas como quem olha um homem acovardado e de mente anuviada em cenas sobrepostas e amontoadas umas em cima das outras. Olhou-me, imagino eu, uma vez que não a encarei em momento algum, como um cometa que, de última hora, muda sua rota de colisão. Olhou com aqueles únicos pares de olhos que eu nunca fitei por desaforo ou descuido.

E me deixou como quem sacode um tapete e vê a poeira flutuar no infinito mundo do pó. Deixou-me voando com as outras partículas comuns a mim, de igual insignificância, que se restringiam a disformes e microscópicas formas de cristais. Deixou-me como quem abre a geladeira à procura de uma resposta e se lembra de dormir, minutos depois. Foi dormir. E a lâmpada de cor alaranjada da geladeira permaneceu acesa – como a cabeça de qualquer homem distraído que nunca soube se apaixonar por cabelos castanhos da maneira correta.

Neemias Melo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Segregação

Aponta a faca ao coração, torna-a para o rumo da abertura da camisa justa, corta os botões da gola à base, assanha a virilha, deixa o abdômen contraído de aflição à mostra.

Volta a faca ao coração.

Finca apenas a ponta, vê o sangue manchar o metal frio e aquecer as entranhas do objeto empunhado por ti. Tu, o bom moço vestido de negro, ansioso por mais um desastre, encabulado do silêncio da vítima.

A faca. Voltemos à faca.

Desenha um símbolo simétrico, faz escorrer o que tiver de escorrer, banha o dedo na língua e toca a carne ferida e estranha do teu holocausto. Sussurra as palavras secretas da tua língua nefasta, espalha, no peito do fraco, o rubro néctar que os ventos te imploram, arregala os teus olhos e observa que o receptáculo está selado com a marca.

A faca. Joga-a fora.

Tens o cordeiro, a posição correta, o ambiente terreno ligado às pedras. Tens de agir agora. Carimba o polegar encharcado na testa do homem, silaba o teu desconhecido canto, vira os olhos de excitação, treme os ossos de agonia, encosta os outros dedos nos cabelos que agora suam, fecha-os rapidamente, olha pra cima, sente o pescoço enrijecido, sente a nuca queimando, sente o peso subindo, cala. Cessa a tremedeira, retira o dedo, afasta-te do moço. Tens agora uma jornada. Despe-te na frente da oferenda, toca-te, masturba-te, acelera os movimentos das mãos fechadas num círculo de horror. Ejacula. Espalha, com os teus dedos dos pés, o sêmen no chão, mira tua semente jogada. Olha o moço, temente, retraído, assustado. Alcança o sêmen com o dorso da tua mão, suja-o, suja os lábios do impurificado, também. Liberta-o. Deixa-o correr, deixa-o tropeçar ao se lembrar das forças que te uniram a ele naquela hora. Sente as suas lágrimas escorrerem pelos teus olhos anuviados, o vacilar dos joelhos hesitantes das pernas que buscam socorro. As dele. Acolhe-te, guarda-te, retrai-te. Teu espírito foi selado no corpo do menino que agora sustenta o dele e o teu peso. O menino chora as tuas dores, busca os teus abismos, se farta dos teus desejos. O menino agora é o corpo que abriga os teus medos, que aquieta o teu chacoalhar de trapézios, que afogueia teus cotovelos enregelados de inverno e noite. Tens a saída: o menino selado. Tens a ele para depositar as tuas mentiras, e atormentar os pensamentos para que escreva os teus vocabulários macabros, teus rituais de podridão, tuas vaidades de quem foge. Foge ele por ti, agora. Aguenta ele por ti, sente ele por ti, morre ele por ti. Descansa, orador da cerimônia. Tens, depositado na criança, os teus mais sombrios pesares. Tens um escritor. Usa-o.

Neemias Melo