em que lapso de bocejo
perdi o fim do mundo? ando perdido como perdidas estão todas as coisas.
desprendo-me do teto - evito cores, raios, flechas. como um pêndulo entre
lençóis, balanço. amanheceu, mas é hora de dormir. em que estação do ano perdi
o último trem? soprei as velas do meu décimo nono aniversário e logo a vida
inteira se apagou. reparto lágrimas em pequenas xícaras para cada caco de mim.
acabado o sal, conta-se a sede. em que insônia perdi o medo do escuro? a lua
pia, o piso é frio, o cobertor engole-nos - eu e todas as flores que abraço -
repouso a cabeça sobre as mãos unidas. choro. tento colher um soluço, mas
também o soluço se despedaça. a respiração falha. os punhos relaxam. um suspiro
dança invisível. em que ventania esqueci de fechar a janela?
Neemias Melo
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