domingo, 27 de maio de 2012

Os sonhadores cantam baixo e o sol se põe. Uma sereia paira sobre o ar deixando um rastro de brilho. Uma flor definha e cai. Um moço varre o chão e aceita o café da moça que oferece dois tipos de adoçante. Um menino chicoteia as próprias costas, um passarinho foge por prever a chuva. Mãos espalmadas recobrem o chão e, bem baixo, de longe, ouve-se o canto dos que dormem. Olho ao meu redor. Todos acenam: o moço que varre, a sereia, as mãos que pisoteio. Chamam o meu nome e não abrem a boca. Conhecem-me sem me notar. Sentem que fui algo que deveria ter durado e simplesmente evaporou. Sentem minha falta. Sinto minha falta.
Fecho o livro que carregava nas mãos. Sigo em frente. Não olho para trás - não antes de ter atingido distância suficiente para ser considerado um estrangeiro quando retornasse. Não retorno. Todos continuam acenando. Guardo o livro na mochila que carrego nas costas. Dou as costas. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta.
Já não ouço o canto dos sonhadores e o sol já nasce. Deixo no peito o vazio oscilar entre solidão, saudade e tristeza, ao preencher-se. Nos dias em que ambos preenchem o peito, consigo chorar. Nos outros, não sinto nada. Ou sinto muito. Por todos. Por tudo. Sinto, apenas. As penas. Coçam. Sinto que caem ou crescem. Sinto medo, mas fecho os olhos. O escuro fortalece a crença e purifica os anseios. Ando crente e forte. Ando só. E eu não volto. Eu não volto.

domingo, 13 de maio de 2012


é chegado o inverno.
choro com frio;
adormeço cansado;
penso onde estarias se ainda me amasses.
abro os olhos.
estás ali diante,
bem diante de mim.
carregas nos olhos o amor do qual não sou digno.
sorris.
dói-me o teu riso.
dói-me a capacidade de sorrires com o nada que represento.
dói-me saber que, mesmo merecendo mais, te contentarás com pouco.
muito pouco.
é chegado o inverno.
lá fora, o céu nublado deixa o dia claro.
a luz invade o quarto onde estamos.
os corpos nus,
as mãos dadas.
tu dizes "eu te amo"
e eu cerro as pestanas
como se dissesse "sinto muito"

Neemias Melo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

fumaça


em que lapso de bocejo perdi o fim do mundo? ando perdido como perdidas estão todas as coisas. desprendo-me do teto - evito cores, raios, flechas. como um pêndulo entre lençóis, balanço. amanheceu, mas é hora de dormir. em que estação do ano perdi o último trem? soprei as velas do meu décimo nono aniversário e logo a vida inteira se apagou. reparto lágrimas em pequenas xícaras para cada caco de mim. acabado o sal, conta-se a sede. em que insônia perdi o medo do escuro? a lua pia, o piso é frio, o cobertor engole-nos - eu e todas as flores que abraço - repouso a cabeça sobre as mãos unidas. choro. tento colher um soluço, mas também o soluço se despedaça. a respiração falha. os punhos relaxam. um suspiro dança invisível. em que ventania esqueci de fechar a janela?

Neemias Melo