sábado, 29 de setembro de 2012

Este blog está definitivamente desativado

Mas deixo os textos e imagens que já compartilhei em memória dos sentimentos que, hoje, passo a suprimir. Foi uma honra ter tido pessoas tão queridas ao meu redor. Mas escureceu, é hora de me recolher. Um forte abraço. Adeus.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Meus olhos não são os meus olhos

Não são os meus olhos, meus olhos. Alguém passou aqui, lhe digo, e arrancou os que me pertenciam e deixou estes que tanto me incomodam. Digo... Ainda sou eu. Sim, sou. O mundo continua o mesmo... Sabe quando se tem a impressão de ver um vulto passando quando se olha para o outro lado? Às vezes acho que uma velha árvore me persegue e deixa folhas ásperas caírem sempre que me viro. E elas brilham. Sabe quando se deita olhando para o céu e pequenas partículas semitransparentes são vistas vagando? Tem-se passado dias sem que elas sumam. Hoje durmo com minhas amigas leves. E costumava pensar que precisava do sol para vê-las. E meu quarto... Ah, o meu quarto! Tem as mesmas coisas, o mesmo cheiro e clima quente. Paredes azuis, guarda-roupas marrom, a tv que não ligo. Mas esses olhos... Não são meus. Não sei lhe explicar como seriam os meus, só sei que estes não são. Ardem, às vezes, e por seguidos minutos. Choram por conta própria e deixam de enxergar as cores. Isso é doença? Tenho tias que sempre dizem que existem doenças que ninguém explica. Alguém saberia o que tenho se eu dissesse o que sinto? Sinto, acima de tudo, agonia. Procuro cicatrizes nas têmporas, riscos nas pálpebras, e nunca acho nada. Nasci com esses olhos? Não é possível! Não me lembro de tê-los tido antes. Há algum tempo. Dois meses? Não, não. Mais que isso. Três anos, talvez. Não me lembro muito bem de como eu era naquela época, mas era quase igual. Quase. O motivo são esses... Por que repetir? Não são e ponto. Ponto. Ponho óculos escuros e saio para a rua, vejo a cidade quase igual, as pessoas quase iguais. Passo em frente a uma pequena loja de roupas, vejo minha imagem no vidro. Ando um pouco torto, ombros baixos. Resolvo tirar os óculos e lá estão eles, olhando-me com a bravura que nunca tive, encarando-me como eu jamais ousaria fazer. São tão audaciosos e fixos que não me atrevo a piscar. A atendente pergunta se eu preciso de ajuda. "Preciso, moça, mas a senhora não poderia me ajudar". Saio dali. Não me pertencem e não gosto do jeito como me olham, me fazem parecer alguém de verdade, alguém que mudou e não avisou a ninguém, alguém que viu muitas coisas e esqueceu poucas - as que não deveriam ser esquecidas. Alguém que uma vez eu quase me tornei, e que acabei não me tornando por pouco. Muito pouco.

Neemias Melo

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Todas as noites em que sinto que não vou conseguir, em que a garganta sufoca qualquer coisa que me arranha querendo sair, livro-me das minhas roupas e, de cueca, vou para a varanda. Observo atentamente minhas mãos finas, o acúmulo de gordura nos quadris que eu sempre odiei, a mancha de nascença que trago no peito; dobro os braços sobre os joelhos, como se os cotovelos fossem o alicerce do mundo, e me ponho a chorar. Geralmente, quando tomo banho finjo que choro. Espremo os olhos, delineio a boca numa expressão triste e, ofegante, abro a boca em descontentamento. Nunca tenho certeza se choro de verdade no banho ou quando saio na chuva. Mas nessas noites, em que eu me abraço cansado, deposito apenas uma lágrima no topo de uma reação em cadeia, e um castelo de tristezas se desmorona sobre mim. Numa posição de fraqueza, cada gota é um agradecimento e cada suspiro um pedido de desculpas. Em todas essas noites, o céu se deita sobre as minhas costas, faz um carinho com as estrelas e me arrepia, diz que fica tudo bem, que tudo tem de ficar bem alguma hora. Sou uma pessoa tão só. Meus melhores amigos são os meus cachorros, e minha zona de conforto é lugar algum. Trago sempre uma máscara para sobrepor o rosto vago que tenho, por sentir nojo da pena que os outros oferecem. E em todas essas noites me levanto depois de mais ou menos meia hora, deixo as pernas molhadas de vergonha e solidão, entro de novo em casa, visto novamente as roupas, escolho uma nova máscara e sorrio como todo mundo sorri. Receio um dia descobrir que não sou apenas eu que minto, e que todo mundo leva máscaras no bolso e deixa as pernas salgadas em certas noites. Tenho medo de um dia conseguir levantar o véu, recortar a pele das pessoas, deixá-las todas iguais, e lançar uma porção de céu nas costas de cada uma, e faze-las abraçar o próprio corpo, e chorar por ser muito pequena uma vida toda, e sentir que é sempre muito o que a gente tem de carregar calado.

Neemias Melo

domingo, 9 de setembro de 2012

Quem sabe

Um dia eu vou encontrar alguém que gosta das músicas que eu gosto; que se afasta quando eu peço distância e se achega quando eu penso em fugir. Um dia eu vou achar esse alguém parado numa esquina fumando um cigarro e segurando um para me dar. "Você demorou um pouco", sem pesar na fala, sem calcular tom ou gestos. Eu estaria um pouco molhado, um bocado sujo, mas o cabelo estaria legal, ele é legal de qualquer jeito. "Demorei, não é?", e esse alguém sorriria. Eu sentiria vontade de chorar mas em vez disso acenderia o cigarro. 
Um dia eu vou conhecer alguém que faça sempre café para dois e joga minha porção fora quando esfria; que revira a casa para encontrar a carteira que eu perdi na noite anterior e ri dos meus defeitos, os ama. E esse alguém vai me abraçar quando eu tiver um sonho ruim; vai deixar sempre um último biscoito no pote e dizer bom dia quando o dia começar ruim. E depois de termos nos encontrado na esquina, esse alguém me levaria para um cais e colocaria um som legal para tocar no celular. Os celulares iriam servir apenas como despertadores e reprodutores de som. Minha cabeça em seu ombro, nossos pés balançando no céu. 
Um dia eu vou reconhecer alguém no meu sorriso, e retribuir o amor tão bom que tenho gerado, e repetir as mesmas frases que escrevi em pranto, felicidade em só o ver andando. E mesmo que esse alguém não venha ou que, por circunstância qualquer, se demore, vou agradecer à vida todos os dias por ter me dado a chance de, amando, ter me reencontrado.

Neemias Melo

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Contas-me quem sou mas não sabes meu nome. Quem sou eu, amor? Quem sou eu? Costurei um de meus átrios num de teus ventrículos, minhas impurezas desaguam em ti. Tens os meus excessos mas não conheces minhas delícias, não recebes minha vida, não sacias tua fome. Arranquei a pele para que com ela te cobristes no frio, dei-te o corpo para que encontrasses desejo, dei-te palavras como estrelas - não se podem contar, não se pode alcançá-las. Teu pescoço rijo, teus ombros virados. Percebes que nunca me olhaste no olho? Via em ti um espelho, reconhecia minha feiura, meus detalhes falhos. Que viste em mim, senão meus próprios erros? Alguma vez olhaste para mim como alguém que merecia algo melhor? Eu, por ti, melhorei. Não tenho amigos, não trago sorrisos, escondi minhas lembranças. Trago no peito apenas lamentos e cheiro de chuva. Não tenho tua facilidade, tua confiança. Mas eu tinha belezas, e eu as entreguei-te. Todas elas. Como é que elas perderam o valor para mim? Não valem nada, a minha beleza, nem a beleza do mundo. Tu não as vês, de qualquer forma. Ninguém as vê. Sou outro, tenho mudado. Tenho calado tantos medos, que eles se solidificam como estátuas e me vigiam constantemente. Ando devagar. Devagar penso, devagar me reconstruo. Hoje, és mais uma lembrança escondida, e eu apenas certeza. Não sou o único que me desconhece. Tu nunca soubeste quem sou e jamais amou, como eu amei, o outro alguém que já fui.

Neemias Melo