Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções. "Nunca termina nada, o menino. Faz qualquer um acreditar na sorte quando começa alguma coisa, mas logo empurra descrença goela abaixo nessas pessoas, que não mais fizeram do que estender as mãos, e vai embora", eu ouvi ela contando à minha avó. Não mentiu. Das coisas, sempre quis o pior, a parte podre, o desequilíbrio pendente para o desastre. A vida tem seu preço e eu me atrevo a cobra-lo de quem se esquece de correr o risco. Faço questão de que as coisas sejam, de todo, desajustadas. Acostumem-se os antebraços com as marcas deixadas pelas unhas de outrem enterradas na pele, implorando para que a partida não chegue cedo. Adormeçam os cotovelos para que o frio não fustigue com tanto fervor a carne, quando o vento contrário parece a ponto de açoite. E que dar as costas não custe tão caro - fecham-se os olhos, espremem-se os lábios, tornam os pés à porta e, depois de atravessá-la, cerra-se tudo, o tempo se cala. Ando sobre as coisas sem medo de cortar os pés - minha cor é quente, como quente é a chama da vela que me demoro a enamorar, bailando a ponta dos dedos rapidamente em volta do pavio enegrecido. Caem as coisas à medida que passo e não torno a calcular o tamanho do estrago. Cresceu a vida à minha volta como um empilhamento de caixas de papelão, cheias de livros amarelados e de cheiro forte e áspero; sinto sempre a insegurança de ser pego de surpresa pela chuva, diluindo-se os papéis, cobrindo-me de uma massa espessa de histórias esquecidas e verdades ainda guardadas. Mas eu, sobretudo, caminho. Não que seja necessário, ou por questão de culpa ou erro; caminho porque as pernas ainda funcionam e porque há qualquer pedaço de caminho pronto a receber a mim e a essa atração de desgraças que me acompanha. Culpa dos homens por haverem se corrompido com essa fraqueza tosca e essa fé bruta no impossível. Eu parto, mas parto de olhos abertos, a sentir todas as lacunas que deixo em fundas pegadas por onde passo. Eu aperto no peito o casaco que me isola dos perigos do vento; busco, num bolso, um isqueiro prateado, noutro, puxo um cigarro, ponho-o seguro entre os lábios secos, contraio-os em volta do objeto, protejo o fogo com uma concha feita de mãos, acendo-o, trago; o gosto é, inicialmente, amargo - como todas as coisas são amargas, de início - e prossigo.
Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções, e eu dizia a ela que é porque o cigarro tem um gosto mais agradável ao palato depois de algumas tragadas, e que eu era uma espécie de cigarro; que um dia as ruas me espremeriam entre as esquinas, me prenderiam entre alguns muros, sugariam de mim todo gosto forte e droga letal - eu seria qualquer coisa que a vida guarda no bolso e espera a hora mais fria da madrugada para acender e sorver. Eu era qualquer coisa que deveria evitar findar-se, porque eu evitava o fim de tudo. Eu só espero um clique num isqueiro prateado para, então, ser sugado até desaparecer.
Neemias Melo