sábado, 7 de janeiro de 2012

Confissão

E eu, por vezes, tocava aquelas fotografias como que pelo ínfimo entrelaço mantido de que ele, um dia, também as tocara. E me esparramava no carpete felpudo, afundava os dedos nas cerdas macias, só por saber que, um dia, ele ali também se deitara. E observava a cozinha, os tantos copos, os talheres não mais em seu esplendor prateado, e beijava-os todos, esfregando a boca decididamente nos objetos que ele, um dia, também beijara. E mirava o espelho trincado, com alguns respingos aqui e ali de pasta de dente - os que ele, apressadamente fazendo os movimentos de vai e vem com a escova, espalhara pelo vidro - e não reconhecia posse alguma minha no reflexo. E eu, por ora, despia-me e me posicionava nu em algum canto em que tivéssemos transado; apalpava cada parte de mim; alisava minuciosamente cada porção contaminada, cada ponto doído, sentindo o corpo que, um dia, ele lambera, cheirara, roçara o peito que chamuscava grossos pelos, deitara as mãos que também partiram. E eu, por instantes, silenciava a casa toda, apagava as luzes, sentava-me ainda despido no chão frio, fechava os olhos, repousava os braços, controlava a respiração e escutava aquele coração que, um dia, ele arrebatara. Eu era o templo vivo do amor que sobrara - e ele era a minha indagação.

Neemias Melo

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