sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Janela

Fecham-se as cortinas como se fossem pálpebras e mergulho no mundo que apenas a ti mostrei. Tão fácil seria, se voltasses a ocupar o espaço que adornei para o teu repouso, bem ao lado das dunas que banhei do sal que brotou dos meus olhos, um tanto úmidos. E não vacilariam os meus membros - os pés que rejeitam sapatos, os braços que atraem a frieza da madrugada, as pernas que preferem a nudez - se trouxesses aquela caixa que, não produzindo mais música, guarda as tuas jóias e tua coleção de bilhetes de cinema. Porque eu sabia, desde o início, que eras uma mentira, se igualando às musas que admiravas, por não possuírem elas dono, enquanto tu tinhas um cão a privar-te das noites mas que ao menos lambia-te a perna quando um bocado da tinta que escurecia os teus supercílios a sujava. Morre o sol nas curvas sensuais do horizonte e eu me demoro a perceber que já é tarde e ainda te espero para o café da manhã, com uma xícara de leite frio e dois biscoitos a serem descartados. Deitam-se as nuvens e a lua, lá de cima, roubando apenas para si o altar do céu, olha-me com uma cara de pena, diz para que eu não me engane, que eu não me desgaste, em saber que não voltas mais. Mas eu, mesmo perdido, te espero. Como se adiantasse manter acesa, a chama que grudou teu perfume cítrico nas minhas roupas de lã e se as cortinas fechadas da casa que abriga um sonho bom e desacreditado impedissem a lua de calar suas observações a lembrar-me de que estou só. Louco e só.

Neemias Melo

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