quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Quando minha mãe foi ao médico

- Aqui está o resultado do ultrassom do bebê que você está esperando
- Mas doutor, o que é aquela mancha perto do coraçãozinho dele?
- Ah, aquilo é o que a gente costuma chamar de tristeza encardida no peito
- E ele vai conseguir sobreviver a isso, doutor?
- Pior que isso, dona Rosa. Seu filho vai nascer poeta.

Neemias Melo

terça-feira, 23 de agosto de 2011

E havia perdido com o tempo a vontade de prosseguir. Trancava-se dentro do quarto, fechava as janelas, a cortina, trancava a porta, apagava a luz, colocava algum filme ou outra coisa que não o obrigasse a exercitar a mente, a reorganizar os sentidos, pôr de volta o trem nos trilhos. Deixava que a vida lá fora continuasse sem ele, enquanto o tempo lá dentro dormia, sonhava. Fingia-se de morto sempre que alguém batia na porta ou se via uma sombra pela fresta de luz rasteira que revelava brilhantes partículas de poeira. Ficava a maior parte do tempo nu, e acariciava com cuidado as cicatrizes nos punhos, o pescoço, sentindo a movimentação precisa do pomo-de-adão durante a deglutição, as pálpebras delgadas e molengas, as costas quebradas e que se arrepiavam quando os dedos passeavam procurando um pedaço intruso que pudesse ser arrancado. Mas não havia nada ali que fosse estrangeiro, pois tudo aquilo era seu, mesmo que a dor viesse de dentro, sorrateira, decidida em adormecer algum canto que sustentava o fôlego. Tinha aquilo como uma oração, um ritual sagrado e um sacrifício posto em um altar vazio. Tinha sempre o maior cuidado possível ao sair de sua toca, quando ninguém estava em casa, e o fazia nu, como de costume. Deitava-se no chão da sala, esparramava os dedos no carpete fundo e macio, respirava devagar. Abria o guarda-roupa da mãe, das irmãs, abraçava aquelas roupas como quem abraça um defunto num caixão a ser fechado, e sugava fortemente o cheiro que um dia poderia desaparecer como aquela coisa que ele procurava nas costas – teriam sido asas que caíram? E sua alma tão triste, tão só, agarrava com as unhas a saudade estampada nos retratos e a liberdade oblíqua dos quadros, e despejava em troca uma lágrima para cada lembrança. E havia perdido com o tempo a facilidade de arrastar uma vida que vem amarrada nos tornozelos, arrastando-a consigo para a escuridão, deixando-a queimar debaixo da pele, sem que ninguém visse. Devia ser colocado numa redoma, certa vez pensou, pois, além de frágil, era belo e, assim como todas as coisas que já chegam a esse mundo trincadas, deveria viver apenas para se manter inteiro. Bebia um pouco de água, comia uma sobra que deixavam na geladeira, lavava-se com pressa e, quando ouvia alguém abrindo o portão , olhava-se no espelho depressa e pedia desculpas para o homem morto do outro lado, voltando para o relicário que o esperava debaixo dos cobertores. Um pássaro que nasceu com as asas para cima, e sempre que tentava voar se afogava – ou seria apenas uma criança brincando de pique-esconde com o medo?

Neemias Melo

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A melancolia – cômica, como sempre - veio de novo em minha janela, dia desses, para me dizer que eu tinha de voltar para casa. Acho que ela e o vento fizeram esse acordo, de me tirarem para dançar toda vez que eu alcanço um ninho ou um galho que sustente o meu pesado pouso. Mas eu não quero rasgar o meu coração outra vez, fazendo ele se desprender desses arames farpados, eu me aconcheguei aqui, no meu desespero, na minha desistência, no meu fracasso. Deixa esses amantes desvairados para amanhã, que eu não quero mais contribuir na construção de sonhos que deixei de acreditar. Eu deveria voltar para casa, decerto, mas nem sei onde ela está – se está mesmo em algum lugar. “Está bem, está tudo bem”, eu fico repetindo enquanto limpo a sujeira que vai grudando nas minhas pernas feridas enquanto eu corro de olhos fechados. “Amanhã ela vai embora”, eu digo, fitando o espelho enquanto raspo a cabeça e arranco com as unhas as novas penas que nascem nos meus braços. Tenho chorado todas as noites, receoso de que chegasse cedo a hora de partir, temeroso de que com o amanhã viesse a incerteza da calma, ansioso pelo dia que você traria a chave da torre. Você fica linda nesse traje de nuvem, criança, eu gosto de lhe ver brincando de fugitiva, invertendo os papéis comigo, me permito sorrir quando você cerra as pestanas procurando um lugar para se esconder que eu não conheça, mas eu sinto o seu cheiro de longe. Em minhas lembranças mora um pedaço seu, e eu me permito afaga-lo no meu rosto quando estivermos separados pelos rabiscos das escolhas não planejadas. Eu lamento pelo vidro que tive de quebrar para roubar uma pétala da flor que crescia na sua cômoda, mas me contento em saber que dos nossos pesadelos nasceram sua alma, que é sábia e sabe se recompor, e meu coração que, se remendando com retalhos, aprendeu a se manter inteiro.

Neemias Melo
Eu queria poder dizer que meu olhar não é assim perdido, minha boca não é assim caída, e meus sonhos não são assim pedaços. Essas fraquezas consumadas enfiam estacas no meu coração e – Deus sabe o quanto – me fazem querer estar longe para não presenciar meus movimentos de agonia. Eu queria poder recolher do chão essas palavras de esperança que me gritam, mas que se transformam em inaudíveis sussurros atravessando esse abismo de descrença que eu construí para esconder o meu fracasso. Quero banho, quero colo, quero afago, quero abraço, para ver se passa essa morte encardida nos ossos, para ver se desenterra o baú onde guardei minhas promessas. Esse céu foi sempre assim cinza, e essa rua sempre assim molhada e fria. Onde o amor soprou na minha vida, há um santuário empoeirado que serve de ninho para corujas adormecidas e pombas sujas. Há uma vela dentro de um jarro no fim da rua principal, para iluminar o bilhete que a menina deixou quando começou a correr atrás do balão vermelho. “É tarde”, diziam os ecos do silencio daquele papel amarelado e áspero. É tarde, ecoavam os sinos da igreja que distribuía pecados. É tarde, gemiam os cravos ao serem amassados pela carruagem que levava meu corpo morto ao meu enterro. É tarde, diziam as viúvas chorosas ao lado do caixão e as virgens trancafiadas nas altas torres. É tarde, dizia um monge que recebeu revelações sobre tempos vindouros. É tarde, dizia eu, acariciando o rosto pálido da menina que um dia saiu em busca de um balão colorido e acabou se afogando no riacho ao fim da campina. Os rouxinóis cantaram um hino de amizade quando cessou o último urro. Caiu o homem quando foi dado o último murro e o sangue que escorreu do nariz quebrado e da mandíbula triturada deixou um gosto salgado no vestido da justiça. No monte com forma de tartaruga havia uma cabana. Lá vivia um homem que aprendeu a caçar lobos e um menino que aprendeu a cortar os pulsos. Ao longe, naquele monte, o tom alaranjado tomava a liberdade de invadir o céu aos fins de tarde e se encarregar de fazer as linhas horizontais no punho do menino abrirem espaço para o vermelho. “Há um velho morto e um menino com uma faca enferrujada na mão”, gritava a senhorita com chapéu florido que levava uma torta de maçã. “Há um menino que aprendeu a deixar os cortes dos braços voarem e encontrar pescoços, coxas, peitos”, dizia o poeta da cidade mais próxima ao delatar o que o pequeno assassino faria. Perguntava sempre a ele: “Por que é a morte um vício insaciável para ti, menino?”. Não havia resposta, havia? “É para deixar passar o azul da noite em que nasci”, certa vez ele disse. Ele disse. E dizia com tanta convicção de que a maldição de seu nascimento havia de ser propagada, que ajuntou as sujeiras das mãos encharcadas de culpa e espalhou no coração do menino que carregava um nome na testa. “Seu nome será...”. Disse, e não terminou a frase ao cair morto em frente ao menino agora portador da escuridão.
Essa é a história que aconteceu numa tarde de terça-feira no único mundo que coube os demônios de um príncipe opaco. O mundo da desistência. Um brinde ao batuque do coração posto na bandeja de prata. Um salve aos podres de uma fruta doce inalcançável. Um beijo na boca da morte e uma canção de ninar para afastar o calor do seio materno. Acabou, criança, volta para a nudez de frio.

Neemias Melo

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

E este gosto de sangue novamente em minha boca. Esta sensação adocicada que ele deixa na língua faz-me lembrar do som abafado da sua risada, enquanto eu passeava com o nariz nas suas clavículas, tentando guardar para sempre o seu cheiro, lhe fazendo arquear os ombros. Esta textura espessa que escorre no canto dos meus lábios me lembra das cantigas de roda que você cantarolava enquanto penteava os cabelos, deixando seus fios lhe desfiarem e tecerem um carpete de ternura cor-de-marfim ao som dos bem-te-vis. Esta respiração ofegante me remete às suas danças compassadas e aos seus vestidos rodados, que vestia sempre que queria me fazer sorrir, dançando para espantar os males do mundo, os demônios de mim. O peso das minhas pálpebras desenterram os versos mal articulados e de caligrafia quase ilegível que lhe escrevi e, aparentemente, ateiam fogo em meus olhos, que transbordam tentando conter as chamas. Meu peito escancarado e a minha garganta seca revelam que a dúvida que pairava sobre os meus sonhos enfim pousou e estendeu suas raízes a ponto de não poderem ser retiradas sem levar consigo uma parte grande da dignidade que me restou. Esse queixo trêmulo é a recompensa da minha fraqueza e o despejar das agonias no pedaço destinado às minhas verdades absolutas. E por se falar em verdades absolutas, você era uma das poucas que me restaram, uma das únicas causas que ainda defendia e das guerras que mantive travadas. Nunca fiz muita questão de mudar, e você bem sabe disso, mas o tempo o fez sem ao menos pedir permissão. Eu também não me reconheço, se isso lhe serve de consolo, venho evitando até mesmo me olhar no espelho, que é para poupar o desgosto. Eu bem me lembro das nossas promessas, e do preço que cada uma tinha, mas perdi a paixão pelas crenças e perdi também a fé em mim mesmo, que dizem ser o pior. Fiz o meu espaço ficar apertado para nós dois, você foi expulsa pelo meu descaso e hoje até eu estou sendo regurgitado pelos meus extremos tão distantes. E eu sangro, sofro e morro, me convencendo de que é sempre tarde para recuperar meus papéis queimados, minhas pegadas apagadas, meus caminhos divididos e meu canto, que foi selado com o cerume da sua prece. Deixo o vento frio que me trouxe até aqui me ordenar um novo caminho a ser seguido, porque eu não me pertenço. Meus tornozelos estão cobertos por essa camada superficialmente congelada, minha cabeça dói, meus joelhos tremem, meu sangue escorre sem nenhuma pressa pelo meu rosto e meu pescoço, e eu tento apenas me lembrar de cada detalhe seu, cada momento em que mergulhei em seus olhos, seus lábios, seus cachos. Esse gosto em minha boca faz-me lembrar de tanta coisa, e eu gosto de me ver assim caído, assim inalcançável ao ponto de não te machucar algum dia. Você foi um pedaço de céu nesse meu inferno embaraçado, mas eu... talvez eu seja um caso perdido.

Neemias Melo
Ontem mesmo haviam sido construídas as nossas estátuas - nada mais nos aguarda, nada mais nos aguenta. Nessa coisa de se fazer de vítima e vilão numa história desnecessariamente inventada eu já fiz mestrado, e me debruço sobre minha escrivaninha e me despeço dos meus papéis amassados. Onde é que foi parar meu cobertor? Faz frio aqui, venta demais, e meu corpo já não aguenta tantas partidas. Em meu coração jaz uma fábula mal contada e a promessa que o vento me fez, de não pertencer a lugar nenhum, pois somos compostos da mesma matéria: o tudo – ou seria o nada?, se é que há diferença. O passado me pertence, e o presente foge de mim como as palavras que eu adorno para lançar nos abismos secretos.
Ontem mesmo estavam ali as nossas posturas eretas e eternizadas pelo bronze, e os olhares ao longe, sempre perdidos, sempre vagando, e uma marcha fúnebre deixava o tom lúgubre do cinza, que tomava conta do céu, mais nítido. No mar não coube tanta tristeza, escorreu pelo rosto essas agonias, transbordou o vinho da taça, mas o paladar já estava desgastado. Um ponto a mais nunca faz mal, um novo parágrafo talvez, só me preocupo se o final chega e nos pega de surpresa – mas existe mesmo um final? Das minhas lembranças surge uma menina que sai correndo descalça e eu sei que ela não volta. Resta a nós um desfecho amargurado, como o denso fluido das nossas essências. Agarra minha mão, fecha os teus dedos dos pés junto à terra e olha pro lado, nossa despedida não tem lugar nenhum para morar. Deixa o braço caído, o ombro pendendo pra frente, o cabelo escondendo as marcas estampadas na fronte, faz um último pedido e assopra nosso mundo, apaga os meus pecados e morre devagarzinho, para que possamos voltar para a vida, que nunca esperou nosso retorno para poder prosseguir.

Neemias Melo

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Carta a uma amiga

Mas eu te quero aqui comigo, passarinho, e lembrar-me daquele tempo em que éramos apenas nós dois no País das Maravilhas. Eu quero estar em sintonia completa com o teu coração e derramar as minhas lágrimas nas tuas mãos, pois o nosso voo é tão solitário. Vem cá, suja um pouco mais os pés na lama e vamos andar por aí em silêncio, sendo atingidos vez ou outra pelos raios de sol que atravessam a densa folhagem do alto. Eu sempre senti tanta saudade de mim, da minha integridade aprumada no peito, dos meus cacos ajuntados, mas sinto tua falta mais que ontem, e isso dói em um lugar que eu não consigo encontrar. Eu me lembro de uma vez ter prometido jamais partir, mas fiz pior, muito pior, me escondendo de ti no nosso próprio mundo, o fazendo desmoronar, agora que tu te vias desamparada. Eu sou a parte mais egoísta do meu orgulho, e sempre moldei nossos encontros à tua entrega, soprando essas verdades achadas no lixo que todo mundo se esqueceu de acreditar. Tu foste a minha mais doce mentira, e não porque o que vivemos não foi real, mas porque tu és a parte agora cantada no coro da minha canção mais emotiva: a parte que fica no peito para sempre com um gosto de pôr-do-sol. E por se falar em pôr-do-sol, há tempos que o nosso já chegou, e eu não estou aqui para me despedir. Uma vez que nossos nomes foram embaralhados, esse mundo que nasceu permanece ali, mesmo que morramos, mesmo que cresçamos – e olha só como isso veio a acontecer tão rapidamente – mesmo que percamos nossa fé, essa parte eterna, que brotou dos nossos tornozelos como galhos e guerras, agora compõe a última parte da nossa sentença: o abraço. E por não saber se estamos ou não distantes ao ponto de não ligarmos a dor ao descaso ou o retorno à promessa, digo-te que meus caminhos desconhecem os teus, mas minha alma conhece o teu canto, canta pra mim de noite e eu venho correndo, mesmo que fique escondido enquanto tu morres. Fico de longe vendo a parte bonita de mim que tu guardaste com cuidado, receoso de que me descubras em meio aos meus pedaços. Como já dizia a canção que tu tanto amas: “Take a sad song and make it better”, porque, seja lá o que tu encontrarás daqui para frente, passarinho, tua estrada é apenas tu quem enxerga e, mesmo que eu não esteja ao teu lado durante a trajetória, estarei atrás, gritando, preso às minhas amarras, que tu prossigas sem pensar no dom que não chegou ontem. Eu confio em ti, muito mais do que já confiei em mim. Então é isso, Austrália é apenas o teu quintal nessa alma infinita que tens, alcança o mundo com o teu legado e segue com uma só certeza: teu sonho é puro.

De: Neemias Melo Para: Passarinho

sexta-feira, 12 de agosto de 2011


E eu que não imaginava a existência de um futuro em que você não estivesse ao meu lado. Ai como foi tolo! Sempre me apanhava sonhando com nós dois dançando debaixo da chuva, rindo da moça que não tinha um guarda-chuva e do cachorro que latia para o gato dentro da lata de lixo. Sempre me peguei pensando: Que é que ela irá querer para o jantar após chegar de viagem? Fazia bolo de laranja, pavê de chocolate, frango com batatas, arroz com bife e suco de pêssego, para que não faltasse nada que pudesse lhe agradar. Mas você sequer chegou. Pegava aquele violão todos os dias e ia para a rede que eu havia colocado na varanda, cantava na esperança de lhe receber com uma das músicas que escrevi nas noites insones, mas não, o último acorde ia se propagando sem a esperança de uma porta se abrindo ou uma mala sendo posta no chão. Eu antes de lhe encontrar era passarinho voando livre, despreocupado em estabelecer morada, era música de bar sujo no fim da esquina, era café preto e amargo. Hoje eu sou um gato que lhe implora por uma coleira e uma noite na mesma cama, uma flauta melodiosa que atrai donas de casas às janelas, chá morno que acalma os nervos. Eu, que não acreditava que a felicidade pudesse ser um dueto, fui pego de surpresa cantando, sozinho, a parte da canção que era feita para dois. E agora, me diga: que é que eu faço dessa parte que só cabe você? Que é que eu faço desse monte de carinho acumulado, desses beijos poupados, desses sorrisos guardados? Eu, que era feito de partes descascadas de uma parede pintada de amarelo, me fiz metade do portão que está aberto a lhe esperar. A outra metade? É a parte já arrancada pela súplica que fiz ao tempo: ou a traz para mim ou me entrega as palavras necessárias para transformar meu pranto em poesia.

Neemias Melo

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Assovia meu nome no dialeto secreto da nossa tribo, arranca meus olhos e cospe tua alma em mim, crava um punhal no meu peito e retira esse coração miserável. Escreve com uma agulha um poema na minha pele, faz meu sangue escorrer. Esvazia a sala e acende velas para um ritual secreto, me coloca de joelhos, abre um livro, abaixa minha cabeça, espalha sal grosso no chão, desenha uma estrela na minha testa, corta a minha jugular, ata meus braços para trás, me chicoteia, me arranha, me chuta, me mata, me enfia num escafandro pesado. Belisca minha fronte, põe ferro quente no meu cenho, lambe a porção de compaixão que escorreu com a última lágrima, me desnuda, me expõe, me machuca, me prende, corta meus pulsos, me afoga na noite com tuas vãs promessas, me queima, deita meu corpo exausto num lago e me deixa engolir aos poucos tua esperança distorcida. Não me esperes na estação, me usa, puxa meu cabelo e bate minha cabeça no chão sujo de um prazer consumado, me despreza, algema meus tornozelos numa árvore, escala o meu cinismo, me vomita, sinta nojo quando eu te olhar, me deixa chorando no escuro, vai e volta com outro. Ri na minha cara, me difama, golpeia meu queixo com teu joelho, quebra meus dedos com teu salto alto, desenha meu retrato na escória. Descarta-me, estraga-me, entorta-me, macula-me, mutila-me, faz-me um meio poeta incompreendido, meio orgulho ferido, meio mãos calejadas, meio pés esfolados, meio lábios rachados e boca seca, meio braços caídos e dilacerados, que arrastam uma outra metade já definhada.

Neemias Melo
Não quero que saibam meu nome
Não quero que repitam minha fala
Serei semente que pássaro apressado come
Serei palavra que sábio monge cala

É devagar que me arrasto na vida
Devagarinho, ajunto os pedaços
E com indiferença vejo minha calma sofrida
Arranjando espaço pra caber mais cansaço

Ponte quebrada, punhal estancado
Essa gente não sabe mais servir compaixão
Já arrumei a bagagem, levo junto o violão
Não me encaixo aqui – vou viver de passado

Nasce asa tecida de sonho, toda vez que canto,
Nos braços de um outro alguém
Algemo meus punhos, me faço refém
Libertando o canário e trazendo o espanto

Eu vou pra longe, que é lá que me cabe
Vou e talvez volte – mas nunca se sabe
Vou buscar um cheiro novo pra essas gavetas mofadas
Achar uma chave pra essa fechadura já enferrujada

Eu vou, e um dia talvez volte
E acabe encontrado uma outra triste alma que note
Que os espinho nascidos nesse coração que já foi meu
Acabam por matar o menino que há muito tempo perdeu

Neemias Melo

Sinto falta de você


Sinto falta de você. Do seu cheiro adocicado, do seu sorriso escapulido, da sua boca trêmula, dos seus dedos assustados, do seu cabelo insistente, das suas sobrancelhas caídas, dos seus olhos cansados, das suas pernas marcadas, das suas costas arqueadas, do seu punho cerrado, do seu coração apertado, da sua voz abafada, do seu joelho esfolado, dos seus pés gelados, da sua risada calada, da sua respiração desistente, dos seus ombros endurecidos, do seu olhar perdido, do seu choro bonito, do seu pescoço enrijecido. Sinto falta de você – mas sempre sinto falta de tanta coisa. E me sinto assim tão triste, porque você me fazia acreditar que o hoje traz a esperança que eu não alcancei ontem, porque você me levantava quando eu rastejava por conta própria, esperando alguém vir me tirar dos buracos que eu mesmo cavava e me enterrava. Eu sinto tanto a sua falta. Dos sonhos que desenhávamos, das músicas bobas que compúnhamos, dos castelos de areia que fazíamos, dos papéis exagerados que interpretávamos, das noites em claro que passávamos, das garrafas de vinho que secávamos, dos olhares dialogantes que trocávamos, das verdades escuras e frias das quais fugíamos, da inocência rara que guardávamos. Sinto falta de você, e não só da sua presença ao meu lado. Sinto falta de você, porque, seja lá o que você arrancou quando foi embora, acabou levando junto o pedaço de mim que me cabia.

Neemias Melo