E eu que não imaginava a existência de um futuro em que você não estivesse ao meu lado. Ai como foi tolo! Sempre me apanhava sonhando com nós dois dançando debaixo da chuva, rindo da moça que não tinha um guarda-chuva e do cachorro que latia para o gato dentro da lata de lixo. Sempre me peguei pensando: Que é que ela irá querer para o jantar após chegar de viagem? Fazia bolo de laranja, pavê de chocolate, frango com batatas, arroz com bife e suco de pêssego, para que não faltasse nada que pudesse lhe agradar. Mas você sequer chegou. Pegava aquele violão todos os dias e ia para a rede que eu havia colocado na varanda, cantava na esperança de lhe receber com uma das músicas que escrevi nas noites insones, mas não, o último acorde ia se propagando sem a esperança de uma porta se abrindo ou uma mala sendo posta no chão. Eu antes de lhe encontrar era passarinho voando livre, despreocupado em estabelecer morada, era música de bar sujo no fim da esquina, era café preto e amargo. Hoje eu sou um gato que lhe implora por uma coleira e uma noite na mesma cama, uma flauta melodiosa que atrai donas de casas às janelas, chá morno que acalma os nervos. Eu, que não acreditava que a felicidade pudesse ser um dueto, fui pego de surpresa cantando, sozinho, a parte da canção que era feita para dois. E agora, me diga: que é que eu faço dessa parte que só cabe você? Que é que eu faço desse monte de carinho acumulado, desses beijos poupados, desses sorrisos guardados? Eu, que era feito de partes descascadas de uma parede pintada de amarelo, me fiz metade do portão que está aberto a lhe esperar. A outra metade? É a parte já arrancada pela súplica que fiz ao tempo: ou a traz para mim ou me entrega as palavras necessárias para transformar meu pranto em poesia.
Neemias Melo

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