Ontem mesmo haviam sido construídas as nossas estátuas - nada mais nos aguarda, nada mais nos aguenta. Nessa coisa de se fazer de vítima e vilão numa história desnecessariamente inventada eu já fiz mestrado, e me debruço sobre minha escrivaninha e me despeço dos meus papéis amassados. Onde é que foi parar meu cobertor? Faz frio aqui, venta demais, e meu corpo já não aguenta tantas partidas. Em meu coração jaz uma fábula mal contada e a promessa que o vento me fez, de não pertencer a lugar nenhum, pois somos compostos da mesma matéria: o tudo – ou seria o nada?, se é que há diferença. O passado me pertence, e o presente foge de mim como as palavras que eu adorno para lançar nos abismos secretos.
Ontem mesmo estavam ali as nossas posturas eretas e eternizadas pelo bronze, e os olhares ao longe, sempre perdidos, sempre vagando, e uma marcha fúnebre deixava o tom lúgubre do cinza, que tomava conta do céu, mais nítido. No mar não coube tanta tristeza, escorreu pelo rosto essas agonias, transbordou o vinho da taça, mas o paladar já estava desgastado. Um ponto a mais nunca faz mal, um novo parágrafo talvez, só me preocupo se o final chega e nos pega de surpresa – mas existe mesmo um final? Das minhas lembranças surge uma menina que sai correndo descalça e eu sei que ela não volta. Resta a nós um desfecho amargurado, como o denso fluido das nossas essências. Agarra minha mão, fecha os teus dedos dos pés junto à terra e olha pro lado, nossa despedida não tem lugar nenhum para morar. Deixa o braço caído, o ombro pendendo pra frente, o cabelo escondendo as marcas estampadas na fronte, faz um último pedido e assopra nosso mundo, apaga os meus pecados e morre devagarzinho, para que possamos voltar para a vida, que nunca esperou nosso retorno para poder prosseguir.
Neemias Melo

Nenhum comentário:
Postar um comentário