Mas eu te quero aqui comigo, passarinho, e lembrar-me daquele tempo em que éramos apenas nós dois no País das Maravilhas. Eu quero estar em sintonia completa com o teu coração e derramar as minhas lágrimas nas tuas mãos, pois o nosso voo é tão solitário. Vem cá, suja um pouco mais os pés na lama e vamos andar por aí em silêncio, sendo atingidos vez ou outra pelos raios de sol que atravessam a densa folhagem do alto. Eu sempre senti tanta saudade de mim, da minha integridade aprumada no peito, dos meus cacos ajuntados, mas sinto tua falta mais que ontem, e isso dói em um lugar que eu não consigo encontrar. Eu me lembro de uma vez ter prometido jamais partir, mas fiz pior, muito pior, me escondendo de ti no nosso próprio mundo, o fazendo desmoronar, agora que tu te vias desamparada. Eu sou a parte mais egoísta do meu orgulho, e sempre moldei nossos encontros à tua entrega, soprando essas verdades achadas no lixo que todo mundo se esqueceu de acreditar. Tu foste a minha mais doce mentira, e não porque o que vivemos não foi real, mas porque tu és a parte agora cantada no coro da minha canção mais emotiva: a parte que fica no peito para sempre com um gosto de pôr-do-sol. E por se falar em pôr-do-sol, há tempos que o nosso já chegou, e eu não estou aqui para me despedir. Uma vez que nossos nomes foram embaralhados, esse mundo que nasceu permanece ali, mesmo que morramos, mesmo que cresçamos – e olha só como isso veio a acontecer tão rapidamente – mesmo que percamos nossa fé, essa parte eterna, que brotou dos nossos tornozelos como galhos e guerras, agora compõe a última parte da nossa sentença: o abraço. E por não saber se estamos ou não distantes ao ponto de não ligarmos a dor ao descaso ou o retorno à promessa, digo-te que meus caminhos desconhecem os teus, mas minha alma conhece o teu canto, canta pra mim de noite e eu venho correndo, mesmo que fique escondido enquanto tu morres. Fico de longe vendo a parte bonita de mim que tu guardaste com cuidado, receoso de que me descubras em meio aos meus pedaços. Como já dizia a canção que tu tanto amas: “Take a sad song and make it better”, porque, seja lá o que tu encontrarás daqui para frente, passarinho, tua estrada é apenas tu quem enxerga e, mesmo que eu não esteja ao teu lado durante a trajetória, estarei atrás, gritando, preso às minhas amarras, que tu prossigas sem pensar no dom que não chegou ontem. Eu confio em ti, muito mais do que já confiei em mim. Então é isso, Austrália é apenas o teu quintal nessa alma infinita que tens, alcança o mundo com o teu legado e segue com uma só certeza: teu sonho é puro.
De: Neemias Melo Para: Passarinho

Passarinho sortudo, este.
ResponderExcluirO se e
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