domingo, 25 de março de 2012
Eu começaria falando dos olhos ou das mãos. É sempre assim. Depois, diria como eles se tornaram ásperos, embora úmidos, inteiros. Descreveria os dedos irregulares, as pupilas dilatadas demais para um dia de muito sol. Viriam, também, os tremores por falta de qualquer coisa que suprisse o vazio torto dos dedos outrora descritos, o sussurro do vento, o pestanejar da tevê - como se meu quarto abafado falasse as coisas que eu não conseguia dizer por cansaço ou preguiça. Eu falaria sobre o espelho, o cabelo, a cozinha, as partes do meu corpo que as roupas escondem, do céu que nunca mudava quando eu me atrevia a desviar o olhar do chão, da perca de sentido quando eu falo dessas coisas. Escrito isto, eu exploraria algum sentido quebrado dos que nascem em alguns homens - cegueira, surdez, esquizofrenia - e acreditaria que eu mesmo sou cego, surdo e louco. Algum elemento natural ou fala esquecida me diria que é hora de fazer alguma coisa que eu não entenderia ou não faria questão de entender. Não ousaria tocar em uma palavra. Nenhuma só. Visitariam as linhas a morte, o tempo, o descaso. Eu fecharia a porta por não querer corrigir a postura que uso quando escrevo, e para que ninguém me visse chorar se eu perdesse o controle. Eu contaria os meus segredos em pilhas de metáforas, bordaria os meus medos com flores e cobriria os meus demônios com pedras limosas. Confesso que sempre achei lindo retomar o mesmo processo de sempre e ainda parecer imprevisível. Sempre adorei a ideia de escrever, ser alguém que doma as palavras com a mesma sagacidade com que o faz com os sentimentos. No final, eu sorriria, porque apenas eu sabia das coisas que não escrevi - embora tudo estivesse ali disfarçado. Aquele covarde que se escondia atrás de duas palavras de fé; aquele moço triste que jogava papéis picados para o alto e se convencia de que via neve; aquela coisa previsível que perdeu a identidade de menino ou homem, pássaro ou gigante, mas que voltava ao canto para rabiscar o ladrilho gasto com um prego enferrujado. Aí mais uma coisa. As coisas sempre viriam com um adjetivo que as fizessem mortas, fracas ou velhas. Porque as coisas por aqui são assim. Porque eu as deixo trancadas tempo demais, apertadas demais, confusas demais e, sendo domado por aquilo que sinto, acabo por nunca saber quem sou.
Neemias Melo
Neemias Melo
sábado, 24 de março de 2012
Os olhos fechados queriam mudança repentina de cenário quando abrissem. O aviso prosseguia preto. A promessa tatuada sempre. Nos lábios, a fala repetida: "Estou partindo". Geralmente seguida de atrasados pedidos de desculpas ou chorosos silêncios de consentimento, a frase neblinosa perdia a textura de sal, ganhava cor de chão; e, por uma vez - uma só - tragou-se por si só aos pulmões, dando a si mesma vida, isolando as pontas soltas dentro do peito.
Uma só vez não houve resposta; os ouvidos não reconheceram ameaça, o tamanho do estrago era idêntico ao da possibilidade de cura. "Estou partindo". E, partido, permaneceu exatamente onde estava - onde os olhos alcançavam uma porção vazia o bastante para não apresentar risco ao corpo que tornou-se volátil para não se diluir. Partido ficou até que o sol nascesse e alguém acordasse no outro lado da cama. Depois abriu os olhos, soube ser também cenário, abraçar a tatuagem, suspender o aviso. Pediu ao sol apenas que a noite outra vez voltasse, e, com ela, toda a incerteza de se acordar com a falta que se pretendeu dormir.
Neemias Melo
Assinar:
Postagens (Atom)