sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Alma irmã diz:
- Será que eu estou começando a acreditar que é disso que eu fujo? Dessa depressão... Dessa vida que a sociedade me impõe, dessa coisa de a gente viver o que já está escrito. Estudar. Faculdade. Trabalho. Família. Filhos
Pássaro Pesado diz:
- Mais ou menos assim... Mas acho que não tem como fugir. Se a gente não faz isso por obrigação, faz por amor, faz por ódio, por preguiça. Faz por não dar para anular aquilo que é óbvio. Cada um tem seus motivos para ser igual ao resto. Mas ninguém vê.
Alma irmã diz:
- Acredito nisso. E a gente disfarça tanto... Eu sempre estou bem, rindo pra todos, mas por dentro eu tô... nem sei explicar!
Pássaro Pesado diz:
- Tem a parte do livro em que uma aventura acontece, depois vem aquela outra parte em que o narrador diz: "algum tempo depois". E depois a aventura continua... Todo mundo crescido, mudado, maduro, inteiro. O tempo fez alguma coisa com eles. Estamos na parte em que a vida fala: "algum tempo depois". Não estamos nem antes, nem depois. Não somos nada formado, ainda. Estamos vivendo na parte que ninguém quer ler. Nem mesmo a gente, oras!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quando olhou para os lados, viu que não queria estar ali com aquelas pessoas, com a música absurdamente alta, com o nó na garganta, com aquele cisco que sempre caía no olho. Via corpos dançando, a vulgaridade exposta nas nucas, nas mãos. Via sexo nas pupilas, pecado nas línguas, sensualidade animal nas silhuetas. Via gente triste querendo esquecer do tempo e gente vazia o bastante para não entender que aquilo era tristeza. Via crianças que haviam sido violadas buscando na noite uma resposta, mulheres que haviam desacreditado no amor e o substituíam pelo álcool, homens submetidos ao nada, caídos sobre o próprio vômito, deitados no pó, no doce abraço do fracasso. Os ouvidos doíam, os dedos estavam gelados, os pés acompanhando timidamente o compasso histérico das luzes inquietas. Quando não conseguiu mais olhar para direção alguma sem que uma lágrima ameaçasse sair e as narinas começassem a umedecer, fechou os olhos.
E, como alguém que se despe de uma camisola de seda, levantou os braços, acariciando com as unhas o ar denso, levou as mãos acima da cabeça e posicionou-as como a receber os primeiros pingos de uma tempestade, concentrou-se na respiração e na contração rítmica do abdômen. Levantou a cabeça como se tivesse ouvido um passarinho cantar e sorriu para as cicatrizes do punho esquerdo. Quando uma nova música começou, pôs-se a dançar como um menino tomando banho, e arqueava os cotovelos num movimento de reverência. Deixava os pés varrerem o chão, e os braços se confundirem com os galhos de uma árvore que por pouco não é derrubada pelo vento.
Dançava como se não houvesse pressa para tentar achar as partes do espírito que se perderam na estrada, como se não houvesse culpa na contemplação daquilo que é profano. Dançava para celebrar a morte que há muito havia se instalado na retina, nos dentes, nos calcanhares, e para não se esquecer de que não existe julgamento quando se trata de uma vida: todos valemos o mesmo inferno. Dançava porque queria, e porque podia, e porque precisava entender que amanhã era tarde para errar uma outra vez. "Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei", ele havia lido em algum lugar. Mas qual era o preço para a paz? Que remorso era aquele que sempre nos puxou para a terra desde que éramos pequenos? Qual era a nossa dívida?
Ele queria apenas atuar, porque, na verdade, era o que todos sempre faziam. Acenava para desconhecidos, gargalhava para o bêbado que o ofereceu um gole de vodca, mandava beijos para a prostituta que não havia reparado que a roupa tinha um rasgo nas costas, piscava para os travestis que tinham rostos deformados por cirurgias mal sucedidas, sorria para o mundo, e um mundo sorria de volta. Eram todos perdidos. Todos cansados e sobrecarregados que não acharam o caminho de volta para casa. Eram todos uma comédia sem graça, um romance decadente, e ele - que antes assistia de longe o silêncio mórbido das almas que choram - misturava-se em meio àquela gente trincada, esperando apenas um sopro para se decompor. Gente que havia sido esquecida, que havia acreditado nos insultos. Gente rotulada, moldada. Gente distraída.
Dançou até o suor aderir a roupa à pele, até os pés incharem, até o nó na garganta desatar, até o sol raiar, até os passos se tornarem desajeitados por causa do cansaço. Dançou até se esgotar, até sentir o sangue sendo bombeado para todas as extensões do corpo, sentindo todas as partes latejarem. E, pela primeira vez, sentiu-se inteiro. Deixou o lado de fora no mesmo estado de emergência que o lado de dentro e sentiu que era preciso deitar. Mas que fosse num colo amigo, para chorar até que as lágrimas secassem, até que sumissem os recomeços nunca vindos, até que retornassem as antigas certezas. Sentiu que precisava de um abraço, ou de um beijo na testa mas, em vez disso, aquietou-se, juntando os braços à cintura, cessando o movimento dos pés. Respirou fundo e saiu correndo daquela boate para um lugar onde não houvesse ninguém que o ouvisse gritar que sentia muito por ter crescido e se tornado apenas mais um no amontoado de sonhadores calados.

Neemias Melo

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sustentava com dificuldade os ombros arqueados e os olhos esvaecidos. Desconhecendo-se no reflexo nu, encontrava no olhar estrangeiro uma tristeza irmã. Uma cumplicidade silenciosa. Admirava as pernas eretas e de poucos pelos e o contorno da panturrilha. Pernas jovens. O cabelo ainda molhado do banho cobria algumas partes da testa e alguns fios chegavam a tocar os cílios, que pestanejavam com o contato. A barriga confusa, o peito forte acompanhando a respiração ofegante, os braços pendendo para o chão. As mãos pesadas, a pélvis delineada. O pênis calado. As coxas firmes, os joelhos precisamente ajustados, os tornozelos protuberantes, a pisada torta, indecisa. Os dedos dos pés que se fechavam num pedido de desculpas. O endurecer da cerviz que renunciava um adeus que deveria ser dito a alguém que não se conhece, alguém que não se viu. A tremulação que vinha com o choque da lembrança da violação, da vulnerabilidade, da entrega ainda não madura, do roubo, da dor. O cintilar das formas turvas que perdiam sentido quando as pálpebras não continham o transbordar que nascia na alma. O fôlego que se perdia quando a despedida era feita, sem que ao menos se soubesse quem partia. A certeza de ter sido derrubada a última parede do castelo de areia, e a desolação da ficção. O estalar da língua no céu da boca como uma negação ao mal-estar que vinha do estômago, da saliva que engrossava para que o vômito que ameaçava vir não corroesse o esôfago. As lágrimas inúteis. A espera inútil. A pureza apagada. As gotas medíocres que caíam no chão e ali ficavam misteriosas. O fruto arrancado da árvore antes do tempo. O soprar das velas, o fechar da cortina e o aplaudir mudo das poltronas vazias. Apagada a luz do quarto, a aproximação do corpo ao espelho era revelada pelas luzes de fora, que entravam pela janela cujas grades impediam os cotovelos de encontrar apoio para contemplação do cinza nos dias nublados. A córnea que brilhava com desgosto, os lábios que se contraíam secos, o coração que batia assustado, e os ouvidos que não queriam escutar o segredo. Uma criança havia morrido. E era isso que fazia doer quando os tímpanos tiniam em meio ao farfalhar das folhas secas que caíam no umbigo.

Neemias Melo 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Você


Você acha que escreve, mas rabisca. Você sente que abraça, mas se despede. Você vê uma borboleta e um girassol onde o tempo colocou uma rosa despetalada e um amontoado de espinhos sem cor. Você aposta na amizade, mas chama pela solidão quando se perde. Você jura que é livre, e vê nas grades apenas linhas a serem preenchidas. Você tem azar no jogo e mais ainda no amor, e tem a impressão de que isso daria uma música bonita, algum dia. Mas você consegue compor, menina? Você sequer sabe fazer uma nota num instrumento? Você consegue abrir a boca e dizer alguma coisa antes que uma espada atravesse o seu ventre? Você consegue deixar de sonhar, criança?
Você dança na vida, mas não há melodia a ser acompanhada. Você chora nos cantos, mas não há lugar para que essas lágrimas caiam. Você pisa em cacos de vidros nas pontas dos pés, e acha que por isso é bailarina. Você sabe que é tudo verdade, e é aí que você se engana.Você tem medo de ser mal interpretada, mas sabe que se alguém lhe interpretasse corretamente, de nada adiantaria. 
Você nasce e se desfaz
Você urra e acaricia a alma solenemente
Você cria e não se lembra
Você espalha e tropeça no próprio lixo
Você é igual a mim, criança. E o que resta a nós, que somos imperfeitos? Eu lhe digo, minha cara. O que nos resta é dar uma piscadela para o espelho, esperar que ele entenda a nossa trama e, enfim, apertemos as mãos dos nossos companheiros de farsa expostos na camada de vidro que recobre a película prateada dos nossos palcos. Às favas quem me diz que são reflexos esses palhaços que sapateiam sempre que viramos as costas! Prossigamos sem imitações, sem rastros, sem identidade a ser revelada. Com o coração na mão e a antiética nos dedos, refaçamos nossas estruturas jamais finalizadas.
E que rufem os tambores. De novo.

Neemias Melo

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

No dia em que de Romeu se desprender uma costela

Se um dia você quiser partir, diga pra mim que vai buscar a roupa na lavanderia, ou vai ao mercado comprar café, ou que vai cuidar do pomar, meu amor. Diga pra mim que vai, mesmo que na nossa cidade nem tenha lavanderia, mesmo que nenhum de nós tome café, mesmo que moremos em um apartamento. Diga pra mim, meu amor, as besteiras menos convincentes e as mentiras mais escrachadas, pra que permaneça em minha mente a imagem intacta da sua cabeça sobre o meu peito nu entre o lençol que recobria nossas coxas e a paixão que recolhia nossas vergonhas. Diga pra mim que vai, mas volta, mesmo que demore, para que eu não me esqueça do nosso retrato no espelho, e do nosso reflexo na fotografia. Dois criminosos trapaceando no amor, amando além da conta, além do peito, além do humanamente aceitável. Dois anjos caídos, dois exemplares de uma raça extinta dos céus e do inferno, se entregando aos socos na alma, às suplicas ao tempo. Diga para mim verdades fugazes e certezas incabíveis quando estiver de saída, que eu preciso acreditar que decerto estaria louco se um dia acordasse e não visse seu lado da cama bagunçado, e chamasse seu nome e o eco esbofeteasse a minha face, e procurasse forças para levantar, mas houvesse estruturas de vidro quebradiças nos meus cotovelos toda vez que eu tentasse sustentar meu peito vertido em chumbo, e eu caísse num mar de fantasia, e conversasse com as paredes, e contasse os meus segredos para o abajur, e tomasse chá com a geladeira, e dançasse forró com a vassoura. Diga pra mim que um dia volta ou que talvez nem vá, para que eu mantenha o equilíbrio da estrela que fumega em minha garganta, para que ela não morra e se torne um buraco negro que não se farta de agonias, de suicídios não concretizados, de salgadas lágrimas mornas, de canções em que amor só rime com dor. Diga, amor meu, para que, ao invés de tentar arrancar de uma vez o punhal que você ornamentou nas minhas entranhas, eu me curve diante dele e encontre um outro caminho pra escapar do final. Diga, meu bem, e eu não morro de uma vez só quando lembrar que lhe perdi no meu medo.

Neemias Melo

sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Amo-te com o calor de dois sóis. Desejo-te como a corsa à procura de fontes para saciar sua sede. Espero-te como os fiéis o fim dos tempos e como as corujas o entardecer para que enxerguem a presa. Procuro-te diante do resplandecer de uma nova manhã quente, macia e incompleta. Vejo-te em meus devaneios durante as tardes de primavera, em que as flores me trazem o teu nome e os bem-te-vis levam até os teus ouvidos meu canto de saudade. Toco-te em minhas preces, para que um dia retornes, para que um dia regresses ao destino que nossas paixões traçaram aos nossos corações angustiados. Olho-te ao longe, aos poucos, às pressas, para que não notes essa dependência mórbida que tenho de ti e fujas com medo. Sinto-te ausente, mesmo que tão perto, quando teus olhos encaram os meus e não respondem ao meu sorriso de entrega. Aguardo-te aqui, como os passarinhos esperam o inverno para que voem para o sul, como os poemas anseiam o inverso, para que sejam mistério. Espero-te às oito, às nove, às dez, às onze, com pausa à meia noite pro café e pro cigarro. Assim te quero todos os dias, como última sentença declarada a um coração despedaçado, que busca nas agonias dos ais e améns o aconchego de uma chegada nunca vinda.

De: Neemias Melo para Meia-poeta

quinta-feira, 15 de setembro de 2011


E então, entrei no quarto, onde as persianas estavam sempre fechadas. Dei uma olhada rápida na bagunça que era o reflexo do meu lado de dentro. Tudo igual. Numa das réstias de sol que entravam sorrateiras pelas frestas feitas pelo vento que vinha da janela aberta, notei que uma borboleta branco-amarelada jazia no chão, imóvel. Aproximei-me, me agachei e, sustentando meu corpo na ponta dos pés, me sentei sobre os calcanhares. A apanhei com o polegar e o indicador da mão direita. Estava inerte, e o barulho que suas asas fizeram quando eu a levantei à altura dos olhos era áspero, seco - estaria morta, decerto. Com o indicador da mão esquerda eu acariciava as pequenas pernas, que se aderiam á minha pele, e depois se soltavam, quando não conseguiam acompanhar os movimentos, me fazendo recomeçar o ciclo de carícias às estruturas sem vida. Com os dedos das duas mãos, abri-lhe as asas, como um cristo, um filho morto do deus das borboletas. Haviam pintinhas pretas em meio às manchas amareladas e brancas. "Que o peso dos pecados de todas as borboletas pecaminosas desse jardim que há lá fora seja despejado na sua morte, borboletinha", pensei, enquanto imaginava uma porção de insetos chorando pela perda da imaculada que veio se refugiar no quarto de um pecador como eu para morrer. "Eu te entendo, borboletinha cansada. Sei também que você nunca fez chocolate para madrinha nenhuma, devia era ser só tristeza por ela ter te deixado trancada no casulo por mais tempo. Preciso ir, madrinha, é hora de voar, você deve ter pensado. Mas a madrinha gostava de chocolate, e você sabia chorar. Alguém só soube ver uma música besta nessa agonia toda". Éramos dois caídos num quarto sem luz, com manchas pretas no corpo, na alma. Dois perdidos. Mas um era o filho de deus, o outro, um descrente de força divina alguma.
Quando, de repente, como num ímpeto de força e bravura, senti um puxão que tinha a origem nas raízes das minúsculas asas que, compostas de duas camadas, começavam a querer se libertar dos prendedores do varal. A roupa já estava seca. A morte não havia chegado e sim o descanso. Olhei-a indignado, enquanto as pequenas pernas retomavam um movimento que havia sido esquecido com o assentamento da inércia sobre a leveza. Me coloquei de pé, deixei-a dependurada pela asa numa só mão, com a outra abri uma fresta maior que as feitas pelo vento, e a atirei na grama do jardim que dava de frente para a minha janela, mas que eu nem me lembrava.
"Sai daqui, salvadora fajuta. Quem tem o direito de morrer e renascer das cinzas aqui sou apenas eu."
E fechei dessa vez a janela.

Neemias Melo

terça-feira, 13 de setembro de 2011


Eu sei que você não entende esses momentos de devaneios em que eu me perco nos seus cabelos, no infinito dos seus cachos, e me esqueço de dizer-lhe o que espera de mim. Mas você tem de entender que eu preciso me retirar, às vezes, para me recompor, para juntar os pedaços da minha armadura que se desmonta quando você chega, quando você passa. E você tem que entender, menino, que essa ironia e esse sarcasmo têm mais base no medo que na arrogância. Isso mesmo, no medo. Porque eu tenho medo de ser verdade o que os seus olhos me contam: de que eu estou destinado a lhe amar perdidamente. Eu tenho medo de um dia me enroscar nos seus braços e não conseguir achar o caminho de volta, de nem sequer querer encontrá-lo. Eu tenho medo de que essa represa que eu sustento com dificuldade um dia se rompa e inunde o seu mundo, e você nem fuja e, em vez disso, fique para limpar a bagunça, fique para entender as minhas agonias, fique para sempre, para mim.
Você tem que entender que, para não ficar com um pé atrás, eu tive de dar um pulo. Me segura, ou eu me arrebento. Mas acho que me arrebento se você me segurar também. Me arrebento, me devoro e me desfaço, abrindo as portas para que você entre e roube de mim o que quiser. Você tem que entender que eu levo muito a sério quando alguém segura a minha mão e diz que não vai soltar. Então, não solta. Não parta. Não fale. Não questione. Que o meu silêncio é apenas a tomada de fôlego que eu preciso para morrer no seu  abraço e me despir do que me impede de verter-me em amor e fogo a cada beijo seu.

Neemias Melo

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Bendito Fruto

Eu não espero de ti, Romeu, uma carruagem abarrotada de flores, nem uma promessa que nos amarre até a morte ou uma poesia mui bela que me faça apenas teu.
Eu não espero de ti, Romeu, que reconheças minha voz em meio a tantas, nem o meu corpo imerso em mentiras ou meu perfume diluído nos suspiros das madrugadas insones.
Eu não espero de ti, Romeu, que lutes contra minha família por me querer demais, nem que compre do diabo o meu passado ou que arranque dos espinhos minha alma.
Mas se queres envolver-me, e fazer-me perdido em tuas encenações, ama-me baixinho, pra que eu te tenha como um segredo a ser guardado,
pra que eu esqueça aquilo que eu já havia apagado,
pra que eu enlouqueça, me permitindo tirar  pra dançar um coração que tanto esperou para ser amado.
Eu espero de ti, Romeu, um lençol amarrotado no pedaço da cama que te aninhou por pouco tempo
ou um abraço que se esqueceu de esfriar e um lamento
de uma lucidez que não havia de durar pois era vã.
E vãos os meus pedidos entregues àquela estrela que aparece às quintas-feiras antes do amanhecer.
E vãos são os meus movimentos fluidos durante a chuva, e o intento de regar-me em teus olhos,
escorrer pelos teus lábios, teu corpo,
teu nada.
E vãs são as minhas preces, pois hei de te esquecer quando partires,
pois hei de fechar os olhos e desejar nunca ter tido tuas coxas envoltas em minha cintura,
pois hei de enlouquecer de agonia, por querer-te dentro dos ossos, me arranhando a alma.
A menos que me ames em silêncio, e me minhas paredes descasquem para os teus azulejos,
e meu choro se cale diante da tua presença,
e o meu pecado fuja ante a tua pureza,
que sussurrará em meus ouvidos a cada manhã repartida:
"Não te amo pra sempre, mas te quero pra mim enquanto teu peito aguentar doer".

Neemias Melo

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O filme já acabou mas a gente gosta de ficar vendo os nomes de quem tanto se esforçou para nos dar uma ou duas horas de distração. Comigo não precisa de tanto. Leva o coração e o que mais conseguir arrancar de mim. Nome eu nunca tive, assovia e eu voo pra perto. Casa eu não encontro, escreve "menino" e eu assopro os teus cabelos. O presente é a minha prisão, poetisa. Corre ou fica, fica ou passa: vou pra onde desatino me guiar.

Ps: esquecer de ler

O que eu faço para tentar fazer isso desgrudar é escrever, criança, e é um erro teu achar que de algum modo adianta. Eu sinto tanto nojo de quem olha para isso aqui e enxerga alguma coisa bonita, de quem pede "escreve, escreve, escreve". Manda-me morrer, afogar, atrofiar os membros. Manda-me arregaçar as mangas e escancarar o peito às unhas, que fica mais educado da tua parte.
Eu não quero melhorar. Não quero. Quero é desaparecer com aquele último suspiro que eu solto quando desligo o chuveiro. Quero é derreter com aquela última lágrima que eu deixo cair quando termino de retocar a máscara. Eu quero me despir dos meus anseios e regressar para a vida que eu tinha antes de chegar a esse mundo pra morrer.
Tem sempre uma história atrás das reticências que eu deixo pra preencher o que não coube no papel. É que sempre acho que é cedo demais para dizer que é o fim. Ontem mesmo era tarde demais para me despedir, mas hoje o meu terno preto me serviu pela primeira vez. Vou ao meu enterro. Àquele que começou há muito tempo, mas me esperavam para começar a cerimônia. Deitei, criança. O que eu faço agora é fechar os olhos. Tu te esqueceste da pergunta de sempre: "Tá tudo bem?". Sei que nunca é pra valer mas, se queres saber, eu não tô nada bem.
Tem bolo na geladeira, e estamos na época dos morangos. Pega o que quiser no meu guarda-roupa, passa no mercado e compra leite condensado e depois planeja um novo rumo. Não sobrou nada aqui.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

E aquela era a grife de noivas mais requintada que se podia encontrar naquela cidade. Vestidos rodados, longos, com franjas, sem mangas, frente única e a relíquia da casa: um vestido que, de tão branco, deixava a visão embaçada depois de um tempo olhando, e que possuía detalhes bordados com diamantes pequeníssimos e bem trabalhados, como pássaros voando com ramos de vides nos bicos, flores perdendo pétalas para o vento, um moinho cercado por espinhos, uma cachoeira, uma cabana escondida, uma árvore desfolhada... Detalhes que não podiam ser vistos sem que se passasse horas a fio namorando aquela perfeição.
Foi o que ela escolheu.
Experimentou-o. Serviu. O cabelo não precisava ser arrumado, ela o queria solto.
- Pago agora e já quero vesti-lo
- Foi uma boa compra, senhorita. Se me permite perguntar, há quanto tempo espera pelo dia do seu casamento?
- Não espero. Não vou me casar
- Mas... Qual a ocasião para o vestido?
- Ah, hoje eu vou me matar – ela disse enquanto passava as mãos no vestido, sentindo o corpete delineando a sua cintura, sem mudar a expressão hora nenhuma, o que fez a atendente perceber que talvez não fosse brincadeira. Mas o dinheiro já estava posto sobre o balcão. Saiu caminhando pela calçada, enquanto a cauda do vestido arrastava no chão úmido pela chuva de minutos atrás e os pequenos diamantes iam fazendo cócegas nos muros com o reflexo quase forçado de um sol que implorava para sair detrás de um céu nublado.
- A senhorita esqueceu os sapatos – a atendente gritou para a mulher, que já dobrava a esquina.
Chegou em casa, escancarou as janelas, abriu a adega, tirou o vinho mais antigo . Foi até o banheiro, encheu a banheira, chutou para o canto a roupa suja espalhada no chão. No quarto, abriu a última gaveta da cômoda e pegou os remédios de tarja preta que ela havia comprado para o avô e dito que tinha sido assaltada enquanto voltava para o carro. Uma pena, o avô pensou, mas amanhã o vô pegava adiantado o dinheiro da aposentadoria e ela comprava de novo, mas dessa vez tomasse cuidado. Tomou.
Levou o som para o banheiro, colocou o CD predileto, deixou nas duas músicas consecutivas mais melancólicas, colocou no chão o vinho, uma taça, as drogas. Entrou devagar com o vestido já imundo nas extremidades, olhou com desdém para as veias azuis sobressalentes nos pés pálidos demais e riu. Sentou-se com calma na água morna, encarou as pontas do cabelo que, mergulhadas, tinham uma leveza muito mais bonita, muito mais morta. Agarrou a garrafa, deixou o vinho escorrer pela superfície interna da taça enquanto ia inclinando de leve a cabeça se perguntando qual o lugar na alma tinha uma cor tão igual àquela. Espremeu das cartelas, um a um, os comprimidos e deixou-os na beirada da banheira. Começou a segunda música. “Porra, mas já?”. Voltou para a música anterior. Começou a assoviar na parte da flauta. Tomou um gole do vinho. “Supimpa”, ela pensou e deu uma gargalhada frouxa. Que tipo de idiota ainda falava supimpa? Catou os comprimidos todos com uma mão e os deglutiu num só gole. Já era o coro, e ela berrava com o violão e o baixo, balançava os joelhos pra ver a água se agitar em volta do vestido que mal cabia naquela banheira. O vestido que se acostumasse com o aperto, ela também ficava desajeitada em qualquer lugar e não reclamava. E a canção já havia terminado novamente. “Porra, de novo? Eu gosto mesmo dessa música”, mas deixou a outra tocar. Muito mais triste - pensou enquanto suspirou - música assim é só pra chorar. E esse remédio que não faz efeito? E cantarolou o coro, pois não sabia a letra. Passou os dedos na boca da taça, a encheu. Tomou numa golada. Encheu de novo. Deixou a taça de lado e entornou a garrafa. A segunda música também havia terminado. Da terceira ela nem gostava, mas depois de se escorar nem se importava, estava era cansada de tudo, mesmo. Dessa gente que não escuta quando a gente grita, desse nó na garganta que não desfaz quando a gente tosse, da vida que não nos costura de volta quando a gente desfia. Queria levantar, mas ali estava confortável demais. Queria coçar o nariz, mas os braços pareciam pesados. Começou a deslizar. Queria trocar o CD, mas os ouvidos clamavam por festa, queria gritar, mas o peito queria descanso, queria fechar os olhos, mas preferiu ver as imagens serem distorcidas vistas debaixo da água, enquanto ela escorregava para mundo de lá. Queria chorar, mas já estava afogada, queria viver, mas já tinha se despedido, queria abraçar, mas já tinha alcançado. E o vestido se desfez em dança, e nos pés nasceram barbatanas, e o teto era só paisagem. E a banheira cheirava a casulo, e as clavículas, que eram feitas de aço, trançavam os cabelos que viraram cortinas, na torre de uma princesa que queria fugir, mas havia esquecido os sapatos.

Neemias Melo