segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sustentava com dificuldade os ombros arqueados e os olhos esvaecidos. Desconhecendo-se no reflexo nu, encontrava no olhar estrangeiro uma tristeza irmã. Uma cumplicidade silenciosa. Admirava as pernas eretas e de poucos pelos e o contorno da panturrilha. Pernas jovens. O cabelo ainda molhado do banho cobria algumas partes da testa e alguns fios chegavam a tocar os cílios, que pestanejavam com o contato. A barriga confusa, o peito forte acompanhando a respiração ofegante, os braços pendendo para o chão. As mãos pesadas, a pélvis delineada. O pênis calado. As coxas firmes, os joelhos precisamente ajustados, os tornozelos protuberantes, a pisada torta, indecisa. Os dedos dos pés que se fechavam num pedido de desculpas. O endurecer da cerviz que renunciava um adeus que deveria ser dito a alguém que não se conhece, alguém que não se viu. A tremulação que vinha com o choque da lembrança da violação, da vulnerabilidade, da entrega ainda não madura, do roubo, da dor. O cintilar das formas turvas que perdiam sentido quando as pálpebras não continham o transbordar que nascia na alma. O fôlego que se perdia quando a despedida era feita, sem que ao menos se soubesse quem partia. A certeza de ter sido derrubada a última parede do castelo de areia, e a desolação da ficção. O estalar da língua no céu da boca como uma negação ao mal-estar que vinha do estômago, da saliva que engrossava para que o vômito que ameaçava vir não corroesse o esôfago. As lágrimas inúteis. A espera inútil. A pureza apagada. As gotas medíocres que caíam no chão e ali ficavam misteriosas. O fruto arrancado da árvore antes do tempo. O soprar das velas, o fechar da cortina e o aplaudir mudo das poltronas vazias. Apagada a luz do quarto, a aproximação do corpo ao espelho era revelada pelas luzes de fora, que entravam pela janela cujas grades impediam os cotovelos de encontrar apoio para contemplação do cinza nos dias nublados. A córnea que brilhava com desgosto, os lábios que se contraíam secos, o coração que batia assustado, e os ouvidos que não queriam escutar o segredo. Uma criança havia morrido. E era isso que fazia doer quando os tímpanos tiniam em meio ao farfalhar das folhas secas que caíam no umbigo.

Neemias Melo 

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