quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Ps: esquecer de ler

O que eu faço para tentar fazer isso desgrudar é escrever, criança, e é um erro teu achar que de algum modo adianta. Eu sinto tanto nojo de quem olha para isso aqui e enxerga alguma coisa bonita, de quem pede "escreve, escreve, escreve". Manda-me morrer, afogar, atrofiar os membros. Manda-me arregaçar as mangas e escancarar o peito às unhas, que fica mais educado da tua parte.
Eu não quero melhorar. Não quero. Quero é desaparecer com aquele último suspiro que eu solto quando desligo o chuveiro. Quero é derreter com aquela última lágrima que eu deixo cair quando termino de retocar a máscara. Eu quero me despir dos meus anseios e regressar para a vida que eu tinha antes de chegar a esse mundo pra morrer.
Tem sempre uma história atrás das reticências que eu deixo pra preencher o que não coube no papel. É que sempre acho que é cedo demais para dizer que é o fim. Ontem mesmo era tarde demais para me despedir, mas hoje o meu terno preto me serviu pela primeira vez. Vou ao meu enterro. Àquele que começou há muito tempo, mas me esperavam para começar a cerimônia. Deitei, criança. O que eu faço agora é fechar os olhos. Tu te esqueceste da pergunta de sempre: "Tá tudo bem?". Sei que nunca é pra valer mas, se queres saber, eu não tô nada bem.
Tem bolo na geladeira, e estamos na época dos morangos. Pega o que quiser no meu guarda-roupa, passa no mercado e compra leite condensado e depois planeja um novo rumo. Não sobrou nada aqui.

2 comentários:

  1. Meu bem, escrever é veneno demais pra gente viva, não é? Mas ainda é aos poucos que se suspira, que se derrete, que se despe. Também ainda é aos poucos que se come o bolo da geladeira, que se arruma as malas. De repente, o troço não vai embora, nem a gente morre. Acha que é fraco, mas não é, só por vestir terno preto já se vê que não é. Só por escrever, enfrentar a correnteza fica mais fácil, estamos treinando direito.

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  2. Meu pássaro destemido,

    quanta coragem em escrever isso... quanta dor!

    Me senti ao teu lado, pensando em você escrevendo tudo isso, como esse dia deve ter sido difícil permanecer seco e leve. Te abracei...

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