quinta-feira, 15 de setembro de 2011


E então, entrei no quarto, onde as persianas estavam sempre fechadas. Dei uma olhada rápida na bagunça que era o reflexo do meu lado de dentro. Tudo igual. Numa das réstias de sol que entravam sorrateiras pelas frestas feitas pelo vento que vinha da janela aberta, notei que uma borboleta branco-amarelada jazia no chão, imóvel. Aproximei-me, me agachei e, sustentando meu corpo na ponta dos pés, me sentei sobre os calcanhares. A apanhei com o polegar e o indicador da mão direita. Estava inerte, e o barulho que suas asas fizeram quando eu a levantei à altura dos olhos era áspero, seco - estaria morta, decerto. Com o indicador da mão esquerda eu acariciava as pequenas pernas, que se aderiam á minha pele, e depois se soltavam, quando não conseguiam acompanhar os movimentos, me fazendo recomeçar o ciclo de carícias às estruturas sem vida. Com os dedos das duas mãos, abri-lhe as asas, como um cristo, um filho morto do deus das borboletas. Haviam pintinhas pretas em meio às manchas amareladas e brancas. "Que o peso dos pecados de todas as borboletas pecaminosas desse jardim que há lá fora seja despejado na sua morte, borboletinha", pensei, enquanto imaginava uma porção de insetos chorando pela perda da imaculada que veio se refugiar no quarto de um pecador como eu para morrer. "Eu te entendo, borboletinha cansada. Sei também que você nunca fez chocolate para madrinha nenhuma, devia era ser só tristeza por ela ter te deixado trancada no casulo por mais tempo. Preciso ir, madrinha, é hora de voar, você deve ter pensado. Mas a madrinha gostava de chocolate, e você sabia chorar. Alguém só soube ver uma música besta nessa agonia toda". Éramos dois caídos num quarto sem luz, com manchas pretas no corpo, na alma. Dois perdidos. Mas um era o filho de deus, o outro, um descrente de força divina alguma.
Quando, de repente, como num ímpeto de força e bravura, senti um puxão que tinha a origem nas raízes das minúsculas asas que, compostas de duas camadas, começavam a querer se libertar dos prendedores do varal. A roupa já estava seca. A morte não havia chegado e sim o descanso. Olhei-a indignado, enquanto as pequenas pernas retomavam um movimento que havia sido esquecido com o assentamento da inércia sobre a leveza. Me coloquei de pé, deixei-a dependurada pela asa numa só mão, com a outra abri uma fresta maior que as feitas pelo vento, e a atirei na grama do jardim que dava de frente para a minha janela, mas que eu nem me lembrava.
"Sai daqui, salvadora fajuta. Quem tem o direito de morrer e renascer das cinzas aqui sou apenas eu."
E fechei dessa vez a janela.

Neemias Melo

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