quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Bendito Fruto

Eu não espero de ti, Romeu, uma carruagem abarrotada de flores, nem uma promessa que nos amarre até a morte ou uma poesia mui bela que me faça apenas teu.
Eu não espero de ti, Romeu, que reconheças minha voz em meio a tantas, nem o meu corpo imerso em mentiras ou meu perfume diluído nos suspiros das madrugadas insones.
Eu não espero de ti, Romeu, que lutes contra minha família por me querer demais, nem que compre do diabo o meu passado ou que arranque dos espinhos minha alma.
Mas se queres envolver-me, e fazer-me perdido em tuas encenações, ama-me baixinho, pra que eu te tenha como um segredo a ser guardado,
pra que eu esqueça aquilo que eu já havia apagado,
pra que eu enlouqueça, me permitindo tirar  pra dançar um coração que tanto esperou para ser amado.
Eu espero de ti, Romeu, um lençol amarrotado no pedaço da cama que te aninhou por pouco tempo
ou um abraço que se esqueceu de esfriar e um lamento
de uma lucidez que não havia de durar pois era vã.
E vãos os meus pedidos entregues àquela estrela que aparece às quintas-feiras antes do amanhecer.
E vãos são os meus movimentos fluidos durante a chuva, e o intento de regar-me em teus olhos,
escorrer pelos teus lábios, teu corpo,
teu nada.
E vãs são as minhas preces, pois hei de te esquecer quando partires,
pois hei de fechar os olhos e desejar nunca ter tido tuas coxas envoltas em minha cintura,
pois hei de enlouquecer de agonia, por querer-te dentro dos ossos, me arranhando a alma.
A menos que me ames em silêncio, e me minhas paredes descasquem para os teus azulejos,
e meu choro se cale diante da tua presença,
e o meu pecado fuja ante a tua pureza,
que sussurrará em meus ouvidos a cada manhã repartida:
"Não te amo pra sempre, mas te quero pra mim enquanto teu peito aguentar doer".

Neemias Melo

Um comentário:

  1. Que medo e glória são esses que encontro traçados em mim quando leio você, hein? Única coisa vã é tentar encaixar suas palavras sem chegar no coração.

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