Trabalhou na fábrica de tijolos durante todo o tempo em que morou ali. Não entendeu a saída de Vargas da presidência em 45, mas reanimou-se quando, em 1950, viu o seu ideal de prosperidade voltando ao poder. Conseguiu aumento de salário por ter conseguido permanecer no emprego quando o patrão despediu outros tantos. Mudou-se para um cortiço mais ajeitado, e onde conseguia pagar um quarto só seu. Teve algumas namoradas, saiu com várias prostitutas. Fez amigos demais, principalmente quando bebia e levava a viola. Estas eram noites de festa.
Quando, em 1954, Vargas, o pai da oportunidade, num ímpeto de bravura e desistência se matou, ficou desnorteado. Ouvia no rádio a leitura de uma carta deixada por Vargas, mas só tinha a impressão de ter ouvido: “Deixo a vida para entrar na história”. E ele, mesmo sem estudo, sem uma educação bem formada, sabia que isso era ruim. Não só para ele, mas para toda a terra de esperanças. Para sua terra sofrida, deixada há tempos. Não. Não haveria de ser assim. Não era justo que a esperança se matasse.
Pegou a viola, saiu descalço de casa e foi até o centro da cidade. Lá, pôs-se a cantar como nunca havia cantado. Entoava a canção como se não houvesse emoção que parasse a sua cantoria; dedilhava as notas como se os dedos dançassem. Fazia amor com a viola e dava vida a lindos acordes que faziam as mesmas lágrimas que caíam dos seus olhos no dia de sua partida, brotarem dos olhos de quem passava e parava para ouvi-lo.
Então era isso? A oportunidade era aquela? Ter visto o pai trabalhando, ter visto a mãe morrer tão jovem, ter conquistado amigos e mulheres e nem sequer ter calçado um sapato daqueles pretos? Será que nos pés só cabiam aquelas chinelas feitas de tiras de couro marrom?
Cantava e chorava, mas a voz não tremia com o escorrer das lágrimas. Cantava e orava, pedindo a Deus que mandasse uma chuva que lavasse aquela cidade, aquele asfalto, e que trouxesse a esperança exposta no panfleto já esquecido no mundo, mas que jamais se apagara da memória. Cantava e pranteava por lembrar-se dos amigos que saíam da fábrica, que morriam nas ruas, que sofriam de fome. Chorava porque a esperança ainda não havia alcançado a todos. E como havia de alcançar agora, se o próspero havia morrido? Como é que havia de alcançar aqueles que ainda não haviam juntado dinheiro para subir num pau-de-arara e arriscar a sorte?
Chorou tanto, tanto, que não percebeu quando um homem viu que ele estava descalço e tirou os próprios sapatos para lhe dar. Percebeu apenas minutos depois, após mais uma música triste tocada, após mais um pedido de desculpa às mãos que seguraram tão firmes o papel gasto ao peito e que agora tocavam uma música para todos aqueles que sentiam muito pela morte do homem que prometeu a melhora. Percebeu quando cessou os acordes, quando baixou o olhar e viu aqueles sapatos negros e engraxados ao seu lado. Engoliu as palavras, fitou todos os rostos ao redor, arregaçou as calças até os joelhos e saiu andando, deixando para trás os sapatos – que jamais serviriam para aqueles pés.

