sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Conto - PARTE III

Trabalhou na fábrica de tijolos durante todo o tempo em que morou ali. Não entendeu a saída de Vargas da presidência em 45, mas reanimou-se quando, em 1950, viu o seu ideal de prosperidade voltando ao poder. Conseguiu aumento de salário por ter conseguido permanecer no emprego quando o patrão despediu outros tantos. Mudou-se para um cortiço mais ajeitado, e onde conseguia pagar um quarto só seu. Teve algumas namoradas, saiu com várias prostitutas. Fez amigos demais, principalmente quando bebia e levava a viola. Estas eram noites de festa.
Quando, em 1954, Vargas, o pai da oportunidade, num ímpeto de bravura e desistência se matou, ficou desnorteado. Ouvia no rádio a leitura de uma carta deixada por Vargas, mas só tinha a impressão de ter ouvido: “Deixo a vida para entrar na história”. E ele, mesmo sem estudo, sem uma educação bem formada, sabia que isso era ruim. Não só para ele, mas para toda a terra de esperanças. Para sua terra sofrida, deixada há tempos. Não. Não haveria de ser assim. Não era justo que a esperança se matasse.
Pegou a viola, saiu descalço de casa e foi até o centro da cidade. Lá, pôs-se a cantar como nunca havia cantado. Entoava a canção como se não houvesse emoção que parasse a sua cantoria; dedilhava as notas como se os dedos dançassem. Fazia amor com a viola e dava vida a lindos acordes que faziam as mesmas lágrimas que caíam dos seus olhos no dia de sua partida, brotarem dos olhos de quem passava e parava para ouvi-lo.
Então era isso? A oportunidade era aquela? Ter visto o pai trabalhando, ter visto a mãe morrer tão jovem, ter conquistado amigos e mulheres e nem sequer ter calçado um sapato daqueles pretos? Será que nos pés só cabiam aquelas chinelas feitas de tiras de couro marrom?
Cantava e chorava, mas a voz não tremia com o escorrer das lágrimas. Cantava e orava, pedindo a Deus que mandasse uma chuva que lavasse aquela cidade, aquele asfalto, e que trouxesse a esperança exposta no panfleto já esquecido no mundo, mas que jamais se apagara da memória. Cantava e pranteava por lembrar-se dos amigos que saíam da fábrica, que morriam nas ruas, que sofriam de fome. Chorava porque a esperança ainda não havia alcançado a todos. E como havia de alcançar agora, se o próspero havia morrido? Como é que havia de alcançar aqueles que ainda não haviam juntado dinheiro para subir num pau-de-arara e arriscar a sorte?
Chorou tanto, tanto, que não percebeu quando um homem viu que ele estava descalço e tirou os próprios sapatos para lhe dar. Percebeu apenas minutos depois, após mais uma música triste tocada, após mais um pedido de desculpa às mãos que seguraram tão firmes o papel gasto ao peito e que agora tocavam uma música para todos aqueles que sentiam muito pela morte do homem que prometeu a melhora. Percebeu quando cessou os acordes, quando baixou o olhar e viu aqueles sapatos negros e engraxados ao seu lado. Engoliu as palavras, fitou todos os rostos ao redor, arregaçou as calças até os joelhos e saiu andando, deixando para trás os sapatos – que jamais serviriam para aqueles pés.

Conto - PARTE II

Após três dias e meio de viagem e tendo como únicas refeições feitas: um pão que ganhou numa cidadela duma moça que passava, um abocanhado na marmita que Zé, o companheiro ao lado, o oferecera e quatro mangas que apanhou do pé, quando o automóvel parou, chegou à tão esperada São Paulo. Ao todo, eram dezenove, os homens que haviam vindo se acotovelando espremidos no pau-de-arara e que, debaixo de sol e chuva, concluíram o trajeto para sua nova casa.
De início, não soube muito bem para onde ir. Talvez porque não tivesse lugar nenhum para se alojar. “Se quiser, pode vir comigo a uma pensão que arranjamos, eu e Tião, aquele de verde ali, logo três ruas acima. Aproveita e já sai com a gente amanhã cedo para ver se arranja um trabalho pra pagar a dona do lugar”, disse Zé, quando notou que o rapaz já estava para desatar a chorar no meio do grupo de homens que se dissipava aos poucos, e ainda acrescentou: “Tem que se cuidar, menino. Quantos anos cê tem? Não, precisa nem falar. Te dou dezessete. Dá pra notar pelo bigode e pelas mãos ossudas. Fica com a gente que cê vai dar um jeito também, menino. Afinal, tá tudo mundo aqui pra isso”. Suspirou aliviado, pôs nas costas o lençol amarrado, segurou firme a viola numa das mãos e foi.
Demorou a se acostumar com o novo ambiente. Tinha ouvido falar que as ruas lá eram negras e sólidas, ao contrário do chão de terra batida, que fazia uma poeira danada. Só acreditou quando viu. Havia, também, postes, longos cabos cilíndricos com uma espécie de lampião nas pontas. “Um lampião que não pega fogo. Esse precisa é de eletricidade”, havia explicado Zé, que também não sabia o que era a tal da eletricidade. Demorou a se acostumar também com o aperto do cortiço no qual se instalaram. Os três: ele, Zé e Tião, dividiam um só quarto. Um ficava na cama, um numa poltrona rasgada e o outro no chão. Revezavam todas as noites para que a dor nas costas desse trégua por ora. Só se acostumou rapidamente com o emprego, que era numa fábrica de tijolos. Carregava quilos e quilos de barro formado e saído do forno o dia todo, mas o braço já estava acostumado ao trabalho puxado. Não reclamava do salário porque nunca tinha tido o próprio dinheiro, e aquele dava para pagar a dona do cortiço, dona Sirlei, e ainda deixada uns trocados para sair uma ou duas vezes no mês com os colegas. Tinha era sorte. Ouvia falar de gente  que nem comia direito. Isso ele fazia. E ainda dormia numa cama, vez ou outra, quando era sua vez no revezamento - coisa que não fazia nem quando morava com o pai.
Das coisas marcaram sua estadia na grande São Paulo, a maior delas foi o carinho que conquistou de todos com a intimidade com a viola. Tocava sempre. No cortiço, depois dos puxados turnos na fábrica, nas vezes que saía para tomar cachaça e pitar um cigarro com os companheiros. Tocava e encantava a todos que ouviam a voz do galo que havia se aprumado na cidade grande. Algumas vezes até arranjava um trocado na volta do trabalho, quando se escorava em algum canto, estendia no chão um lenço e tocava as mesmas canções sertanejas que tocava com o pai.
Chegou em São Paulo em 1942. Tinha na imagem de Vargas, o homem do panfleto que cumprimentava as crianças sorridentes e penteadas, o ideal de gente próspera, como dizia dom Carlo. Mas ele estava longe daquilo. Percebeu quando via a diferença da roupa que vestia, do lugar em que morava e dos calçados baratos que contrastavam com os homens e mulheres bem parecidos com as crianças do panfleto. Tinham roupas escuras e bem costuras, cabelos lustrosos e rentes à cabeça. Eram a prosperidade em pessoa. A prosperidade que ele nunca vira na sua terra. Nem ali mesmo, nos próprios amigos, com as roupas que ambos usavam, com a esperança desfalcada que nutriam. Mas ele já estava ali. E não havia outra terra de oportunidade que não fosse aquela. E ele tinha uma viola, uma voz de galo, braços fortes. Haveria de deixar a esperança desnutrida a troco de que? Não. Ele sonhava e sonhava alto. Um dia calçaria um sapato daqueles.

Conto - PARTE I

Amontoou as poucas roupas que tinha num lençol e depois embrulhou. Pegou a viola que era do pai, colocou as cordas que faltava, afinou-a. Deu uma boa olhada na mesa de madeira que o pai e ele haviam construído quando menino, nas bacias que usavam para os banhos de cuia, para a telha quebrada que ele sempre deixava para consertar num outro dia. Deixou aberta a porta que fechava a casa de pau a pique quando saiu. Entrou no pau-de-arara às 5:27 da manhã, e sabia que dessa vez ia por um caminho sem volta.
“A terra da oportunidade”, estava escrito no papel desgastado com a foto do atual presidente do lado de duas crianças sorridentes, bem vestidas e penteadas. Mesmo que a leitura não fosse fácil, por causa do raro acesso à escola, conseguia silabar a frase abaixo do título em negrito. “Vargas: o homem que trouxera para o Brasil a esperança da prosperidade”. E repetia: pros-pe-ri-da-de, sem saber ao certo que diabos era aquilo. Mas se lembrava bem de uma vez ter visto Dom Carlo, um coronel espanhol que sondava as vilas da região para cobrar os impostos, dizer a palavra enquanto se referia àquela terra seca e poeirenta. “Isso aqui é uma riqueza sem tamanho, dona Mariquita. Hás de ver a prosperidade que desse lugar vai brotar”, dizia, quase se gabando, exagerando na pronuncia do r: “rrriqueza”. Sabia que a tal prosperidade devia ser algo relacionado com água para se lavar todos os dias ou carne no almoço ao menos três vezes por semana, porque a cara que a mãe, dona Mariquita, fazia ao ouvir o diplomata era a mesma de quando tinha frango caipira na panela. E – ah! – como sentia falta daquela mulher. Sentia falta daquela senhora encostada na beirada da entrada de casa, com a mão na cintura. Sentia falta da mãe, que parecia ser composta de pele e osso, com aqueles braços finos e secos e que morrera tão jovem, tão quente, ainda. Morrera dessas doenças que pegam a gente num dia, levam para a cama no outro e daqui umas quarenta e oito horas nos colocam debaixo da terra num terreno atrás da igreja, com uma cruz branca, feita de tábuas de madeira, escrito a tinta preta: “Maria Cecília”.
Ficara sozinho com o pai, desde os nove anos. Começou a ajudar no trabalho de faz-tudo com dez. Capinava roça; matava porco e limpava as tripas; fazia mesas, cadeiras, camas, armamento de telhado e colocava até as palhas, vingasse o salário pago. O pai também cozinhava, mas acabava comendo por falta de opção.  Aprendeu também a tocar viola. Ah! Nisso sim aprendera a ser mestre. Tocava com o pai os sertanejos conhecidos todas as tardes depois do serviço, enquanto o pai dava uns goles na cachaça e umas pitadas no cigarro. Cantava que nem um galo, dizia o pai. E cantava mesmo. Fazia segunda voz, quando o pai já ficava dormente com a bebida e inventava de cantar também. Sorria quando isso acontecia. Sorria agora, também, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas ao mergulhar nas lembranças, embaçando a imagem do panfleto sobre a calça meio desfiada, no colo do menino que deixava tudo para trás, sentado naquele espaço apertado. O pai morrera da mesma doença que a mãe. Acabou no leito e, pouco tempo depois, ganhou também uma cruz branca no terreno da igreja. “Sebastião Pereira”, dizia a cruz ao lado da de dona Mariquinha. Não chorou em nenhuma das mortes, o menino. Sabia que o pai havia lhe educado um cabra-homem e que agora já estava com dezessete, a idade em que um homem tem juízo para honrar o membro entre as pernas. Resolveu ir para São Paulo, e o fez na manhã seguinte à morte do pai. Guardara o panfleto que havia visto cair certa vez do bolso de dom Carlo, quatro meses atrás. Era o mesmo que agora recolhia as lágrimas que caíam do rapaz. “A terra da oportunidade”. Apertou o papel ao peito, aspirou bem fundo o ar da manhã que acabava de nascer, enxugou as últimas lágrimas que não caíam dos cílios e fez uma promessa dentro de si mesmo. “A minha oportunidade chegou”. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Os olhos espremidos observavam atentamente as crianças descalças jogando futebol lá fora. As mãos enrugadas cediam aos movimentos repetitivos dos tremores constantes enquanto repousavam na janela. O pano gasto do vestido florido deixava o contorno dos seios caídos mais delineado e cobria cuidadosamente os ombros pendidos para o chão. A pele flácida se balançava com facilidade nos braços e abaixo do queixo quando ela alisava o vestido com a palma da mão ou mudava a inclinação da cintura em relação às pernas, encontrando uma posição mais confortável para contemplar o céu e o contorno rarefeito das nuvens. Os lábios secos e miúdos se contraíam quando a gengiva sem dentes coçava, e logo depois se arqueavam num sorriso tímido diante de uma nuvem com um formato engraçado ou quando um passarinho vinha lembrá-la dos tempos já passados. As tardes na fazenda do avô. A cachoeira logo atrás da campina, os patos que por ali nadavam. O corpo bem disposto aos mergulhos, o refresco dos sorrisos brancos, dos seios rijos, dos cabelos cacheados embalados ao vento. E agora: os membros que pediam descanso, a sede que rejeitava o copo d’água, a coragem que se contentava em acompanhar de longe as aventuras já vividas. Os beijos roubados, o pudor desavergonhado no final da adolescência: o fruto amadurecido, suculento, pedindo para ser abocanhado. A primeira vez, o primeiro amor, o espartilho rasgado pelo atrito com a parede, as pernas brancas cedendo passagem, a carne quente implorando prazer. Tudo era vaidade. Já não havia mais espaço para os prazeres. A senilidade havia se apoderado dos ossos, abraçado as pernas.  Mas não havia pesar na incapacidade. A vida havia sido vivida. Sobrara a saudade. A saudade, que agora era amiga, confidente, irmã mais velha que aconselha. A saudade que gritava, inicialmente, dos retratos e do lado do guarda-roupa vazio, pertencente ao marido já falecido, mas que, agora, cantava baixinho, a mesma canção que cantavam os canários que se aninhavam na laranjeira do quintal. E a casa, com a pintura descascada, era apenas a estampa das íris esbranquiçadas, que traziam consigo a cegueira gradativa. Os móveis, de estofado surrado, combinavam com os vestidos ásperos e esfolados. Estes, emolduravam dona Lúcia, que ainda namorava os mesmos rapazes, corria pelos mesmos bosques, trepava nas velhas mangueiras,  comia mexericas e maçãs com os dentes preservados, cheirava as flores e a grama enquanto fingia ser coelho, rolando feito menina. E era menina, de fato. Sorria por nada, se apaixonada por tudo, não perguntava demais porque queria descobrir, sozinha, o significado das dores. Nem chorava quando uma farpa entrava no dedo. Em vez disso, contraía os músculos da face toda e arrancava-a de uma vez só. Por ser estéril, não tivera filhos. Por ser filha única, não tinha também nenhuma irmã. Casara-se cedo, com o amor de sua vida: Augusto, que era uma flor de moço. Viveram felizes até sua morte, e deixara ao menos uma pensão para Lucinha – como sempre a chamava. E, por ser viúva, não repartia os devaneios à toa das tardes macias. Nem se importava. Guardava para si as risadas emudecidas, já que os pensamentos não falam – só na cabeça da gente. Guardava para si também o cansaço. Não o distribuía, não cansava a mais ninguém. Mostrava-se uma árvore frondosa quando se punha na janela: dessas que balançam mas não perdem uma folha sequer quando vem uma ventania, mas murchava quando se recolhia em sua cama, sem reclamar das dores. Eram uma etapa de crescimento. E ela sabia que uma das últimas. Sorria mesmo assim, orava todas as noites mesmo assim, penteava os cabelos mesmo que ninguém a visitasse; chorava quando ouvia um poema bonito e cantarolava quando uma música grudava na cabeça. Só não deixava que nada confundisse saudade com tristeza. A saudade era de casa. Saudade fazia companhia, contava segredos, repartia o pão. Tristeza é outra coisa. É sentir muito pelo que aconteceu. E ela não sentia muito. Sentia demais, o que é bem diferente. Sentia aquela sensação de missão cumprida, de ter a leitura de um livro finalizada, de bolo quentinho no forno. E, com a saudade, ela trazia uma caneca de leite gelado para acompanhar o bolo recém-assado. E gargalhava quando sobrava um último pedaço para as duas dividirem.

Neemias Melo

quarta-feira, 12 de outubro de 2011


E, desde que você se foi, a cafeteira tem tido mais utilidade que o computador, a televisão, meus olhos apagados. Como se, desde que você se foi, meu peito precisasse pedir uma carona para um lugar longe do sol, que só faz-me lembrar dos seus olhos, que em meus sonhos sempre estão em chamas. Porque, desde que você se foi, saudade deixou de ser sentimento e passou a ser estadia. Não sinto mais saudade. Vivo saudade. Sou saudade. É que, desde que você se foi, eu fico andando em círculos à espera de um milagre, e tenho de me lembrar a cada três segundos que respirar não é nada mais do que inspirar e expirar. Força, menino. Mas se, desde que você se foi, não posso mais dormir sem chorar e comer sem sentir meu estômago dar uma cambalhota e lavar a louça sem namorar a faca em busca de refúgio, como é que arrumo as malas se você levou as roupas me deixando nu? Como é que deito no chão se os cacos dos pratos que quebrei revestem o piso que só repete os sussurros dos seus passos leves? Como é que largo a bebida tendo um dia me embriagado pela sua saliva? Eu me despeço dos bilhetes de ameaças de fuga que deixei nas paredes mas não vou a lugar algum. Porque, para mim, desde que você se foi, a ponta dos meus dedos são o outro lado do mundo, e minhas veias são inimigas, e meus joelhos não são confiáveis, e as palavras que eu urro quando me lembro dos seus braços protegendo a minha pureza só me apontam uma espada rumo ao pescoço, sempre que exalto à solidão da sala sem móveis: "me desculpa!", e os ecos retrucam: "culpa!". E culpado me permito sofrer por um dia ter sido livre e me prendido por conta própria nas suas pernas. E culpado me contento em encontrar alegria por poder lembrar da vida que tão rapidamente quanto veio com as suas carícias, foi embora com a sua tatuagem. E culpado me ajoelho e entrelaço os dedos numa redenção incerta.
Deus há de perdoar a minha dívida, pois tenho pecado de amor.

Neemias Melo

sábado, 1 de outubro de 2011

Eu deixei que o seu amor me inundasse por saber que o seu coração precisava de cuidado, de carinho, de atenção. Mas e o meu, meu benzinho? Quem é que toma conta de mim enquanto eu me afogo, tentando salvar você?