Após três dias e meio de viagem e tendo como únicas refeições feitas: um pão que ganhou numa cidadela duma moça que passava, um abocanhado na marmita que Zé, o companheiro ao lado, o oferecera e quatro mangas que apanhou do pé, quando o automóvel parou, chegou à tão esperada São Paulo. Ao todo, eram dezenove, os homens que haviam vindo se acotovelando espremidos no pau-de-arara e que, debaixo de sol e chuva, concluíram o trajeto para sua nova casa.
De início, não soube muito bem para onde ir. Talvez porque não tivesse lugar nenhum para se alojar. “Se quiser, pode vir comigo a uma pensão que arranjamos, eu e Tião, aquele de verde ali, logo três ruas acima. Aproveita e já sai com a gente amanhã cedo para ver se arranja um trabalho pra pagar a dona do lugar”, disse Zé, quando notou que o rapaz já estava para desatar a chorar no meio do grupo de homens que se dissipava aos poucos, e ainda acrescentou: “Tem que se cuidar, menino. Quantos anos cê tem? Não, precisa nem falar. Te dou dezessete. Dá pra notar pelo bigode e pelas mãos ossudas. Fica com a gente que cê vai dar um jeito também, menino. Afinal, tá tudo mundo aqui pra isso”. Suspirou aliviado, pôs nas costas o lençol amarrado, segurou firme a viola numa das mãos e foi.
Demorou a se acostumar com o novo ambiente. Tinha ouvido falar que as ruas lá eram negras e sólidas, ao contrário do chão de terra batida, que fazia uma poeira danada. Só acreditou quando viu. Havia, também, postes, longos cabos cilíndricos com uma espécie de lampião nas pontas. “Um lampião que não pega fogo. Esse precisa é de eletricidade”, havia explicado Zé, que também não sabia o que era a tal da eletricidade. Demorou a se acostumar também com o aperto do cortiço no qual se instalaram. Os três: ele, Zé e Tião, dividiam um só quarto. Um ficava na cama, um numa poltrona rasgada e o outro no chão. Revezavam todas as noites para que a dor nas costas desse trégua por ora. Só se acostumou rapidamente com o emprego, que era numa fábrica de tijolos. Carregava quilos e quilos de barro formado e saído do forno o dia todo, mas o braço já estava acostumado ao trabalho puxado. Não reclamava do salário porque nunca tinha tido o próprio dinheiro, e aquele dava para pagar a dona do cortiço, dona Sirlei, e ainda deixada uns trocados para sair uma ou duas vezes no mês com os colegas. Tinha era sorte. Ouvia falar de gente que nem comia direito. Isso ele fazia. E ainda dormia numa cama, vez ou outra, quando era sua vez no revezamento - coisa que não fazia nem quando morava com o pai.
Das coisas marcaram sua estadia na grande São Paulo, a maior delas foi o carinho que conquistou de todos com a intimidade com a viola. Tocava sempre. No cortiço, depois dos puxados turnos na fábrica, nas vezes que saía para tomar cachaça e pitar um cigarro com os companheiros. Tocava e encantava a todos que ouviam a voz do galo que havia se aprumado na cidade grande. Algumas vezes até arranjava um trocado na volta do trabalho, quando se escorava em algum canto, estendia no chão um lenço e tocava as mesmas canções sertanejas que tocava com o pai.
Chegou em São Paulo em 1942. Tinha na imagem de Vargas, o homem do panfleto que cumprimentava as crianças sorridentes e penteadas, o ideal de gente próspera, como dizia dom Carlo. Mas ele estava longe daquilo. Percebeu quando via a diferença da roupa que vestia, do lugar em que morava e dos calçados baratos que contrastavam com os homens e mulheres bem parecidos com as crianças do panfleto. Tinham roupas escuras e bem costuras, cabelos lustrosos e rentes à cabeça. Eram a prosperidade em pessoa. A prosperidade que ele nunca vira na sua terra. Nem ali mesmo, nos próprios amigos, com as roupas que ambos usavam, com a esperança desfalcada que nutriam. Mas ele já estava ali. E não havia outra terra de oportunidade que não fosse aquela. E ele tinha uma viola, uma voz de galo, braços fortes. Haveria de deixar a esperança desnutrida a troco de que? Não. Ele sonhava e sonhava alto. Um dia calçaria um sapato daqueles.
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