sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Conto - PARTE I

Amontoou as poucas roupas que tinha num lençol e depois embrulhou. Pegou a viola que era do pai, colocou as cordas que faltava, afinou-a. Deu uma boa olhada na mesa de madeira que o pai e ele haviam construído quando menino, nas bacias que usavam para os banhos de cuia, para a telha quebrada que ele sempre deixava para consertar num outro dia. Deixou aberta a porta que fechava a casa de pau a pique quando saiu. Entrou no pau-de-arara às 5:27 da manhã, e sabia que dessa vez ia por um caminho sem volta.
“A terra da oportunidade”, estava escrito no papel desgastado com a foto do atual presidente do lado de duas crianças sorridentes, bem vestidas e penteadas. Mesmo que a leitura não fosse fácil, por causa do raro acesso à escola, conseguia silabar a frase abaixo do título em negrito. “Vargas: o homem que trouxera para o Brasil a esperança da prosperidade”. E repetia: pros-pe-ri-da-de, sem saber ao certo que diabos era aquilo. Mas se lembrava bem de uma vez ter visto Dom Carlo, um coronel espanhol que sondava as vilas da região para cobrar os impostos, dizer a palavra enquanto se referia àquela terra seca e poeirenta. “Isso aqui é uma riqueza sem tamanho, dona Mariquita. Hás de ver a prosperidade que desse lugar vai brotar”, dizia, quase se gabando, exagerando na pronuncia do r: “rrriqueza”. Sabia que a tal prosperidade devia ser algo relacionado com água para se lavar todos os dias ou carne no almoço ao menos três vezes por semana, porque a cara que a mãe, dona Mariquita, fazia ao ouvir o diplomata era a mesma de quando tinha frango caipira na panela. E – ah! – como sentia falta daquela mulher. Sentia falta daquela senhora encostada na beirada da entrada de casa, com a mão na cintura. Sentia falta da mãe, que parecia ser composta de pele e osso, com aqueles braços finos e secos e que morrera tão jovem, tão quente, ainda. Morrera dessas doenças que pegam a gente num dia, levam para a cama no outro e daqui umas quarenta e oito horas nos colocam debaixo da terra num terreno atrás da igreja, com uma cruz branca, feita de tábuas de madeira, escrito a tinta preta: “Maria Cecília”.
Ficara sozinho com o pai, desde os nove anos. Começou a ajudar no trabalho de faz-tudo com dez. Capinava roça; matava porco e limpava as tripas; fazia mesas, cadeiras, camas, armamento de telhado e colocava até as palhas, vingasse o salário pago. O pai também cozinhava, mas acabava comendo por falta de opção.  Aprendeu também a tocar viola. Ah! Nisso sim aprendera a ser mestre. Tocava com o pai os sertanejos conhecidos todas as tardes depois do serviço, enquanto o pai dava uns goles na cachaça e umas pitadas no cigarro. Cantava que nem um galo, dizia o pai. E cantava mesmo. Fazia segunda voz, quando o pai já ficava dormente com a bebida e inventava de cantar também. Sorria quando isso acontecia. Sorria agora, também, enquanto os olhos se enchiam de lágrimas ao mergulhar nas lembranças, embaçando a imagem do panfleto sobre a calça meio desfiada, no colo do menino que deixava tudo para trás, sentado naquele espaço apertado. O pai morrera da mesma doença que a mãe. Acabou no leito e, pouco tempo depois, ganhou também uma cruz branca no terreno da igreja. “Sebastião Pereira”, dizia a cruz ao lado da de dona Mariquinha. Não chorou em nenhuma das mortes, o menino. Sabia que o pai havia lhe educado um cabra-homem e que agora já estava com dezessete, a idade em que um homem tem juízo para honrar o membro entre as pernas. Resolveu ir para São Paulo, e o fez na manhã seguinte à morte do pai. Guardara o panfleto que havia visto cair certa vez do bolso de dom Carlo, quatro meses atrás. Era o mesmo que agora recolhia as lágrimas que caíam do rapaz. “A terra da oportunidade”. Apertou o papel ao peito, aspirou bem fundo o ar da manhã que acabava de nascer, enxugou as últimas lágrimas que não caíam dos cílios e fez uma promessa dentro de si mesmo. “A minha oportunidade chegou”. 

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