
E, desde que você se foi, a cafeteira tem tido mais utilidade que o computador, a televisão, meus olhos apagados. Como se, desde que você se foi, meu peito precisasse pedir uma carona para um lugar longe do sol, que só faz-me lembrar dos seus olhos, que em meus sonhos sempre estão em chamas. Porque, desde que você se foi, saudade deixou de ser sentimento e passou a ser estadia. Não sinto mais saudade. Vivo saudade. Sou saudade. É que, desde que você se foi, eu fico andando em círculos à espera de um milagre, e tenho de me lembrar a cada três segundos que respirar não é nada mais do que inspirar e expirar. Força, menino. Mas se, desde que você se foi, não posso mais dormir sem chorar e comer sem sentir meu estômago dar uma cambalhota e lavar a louça sem namorar a faca em busca de refúgio, como é que arrumo as malas se você levou as roupas me deixando nu? Como é que deito no chão se os cacos dos pratos que quebrei revestem o piso que só repete os sussurros dos seus passos leves? Como é que largo a bebida tendo um dia me embriagado pela sua saliva? Eu me despeço dos bilhetes de ameaças de fuga que deixei nas paredes mas não vou a lugar algum. Porque, para mim, desde que você se foi, a ponta dos meus dedos são o outro lado do mundo, e minhas veias são inimigas, e meus joelhos não são confiáveis, e as palavras que eu urro quando me lembro dos seus braços protegendo a minha pureza só me apontam uma espada rumo ao pescoço, sempre que exalto à solidão da sala sem móveis: "me desculpa!", e os ecos retrucam: "culpa!". E culpado me permito sofrer por um dia ter sido livre e me prendido por conta própria nas suas pernas. E culpado me contento em encontrar alegria por poder lembrar da vida que tão rapidamente quanto veio com as suas carícias, foi embora com a sua tatuagem. E culpado me ajoelho e entrelaço os dedos numa redenção incerta.
Deus há de perdoar a minha dívida, pois tenho pecado de amor.
Neemias Melo
Esse sempre será meu texto preferido! Consigo sentir cada palavra dele! =(
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