Os olhos espremidos observavam atentamente as crianças descalças jogando futebol lá fora. As mãos enrugadas cediam aos movimentos repetitivos dos tremores constantes enquanto repousavam na janela. O pano gasto do vestido florido deixava o contorno dos seios caídos mais delineado e cobria cuidadosamente os ombros pendidos para o chão. A pele flácida se balançava com facilidade nos braços e abaixo do queixo quando ela alisava o vestido com a palma da mão ou mudava a inclinação da cintura em relação às pernas, encontrando uma posição mais confortável para contemplar o céu e o contorno rarefeito das nuvens. Os lábios secos e miúdos se contraíam quando a gengiva sem dentes coçava, e logo depois se arqueavam num sorriso tímido diante de uma nuvem com um formato engraçado ou quando um passarinho vinha lembrá-la dos tempos já passados. As tardes na fazenda do avô. A cachoeira logo atrás da campina, os patos que por ali nadavam. O corpo bem disposto aos mergulhos, o refresco dos sorrisos brancos, dos seios rijos, dos cabelos cacheados embalados ao vento. E agora: os membros que pediam descanso, a sede que rejeitava o copo d’água, a coragem que se contentava em acompanhar de longe as aventuras já vividas. Os beijos roubados, o pudor desavergonhado no final da adolescência: o fruto amadurecido, suculento, pedindo para ser abocanhado. A primeira vez, o primeiro amor, o espartilho rasgado pelo atrito com a parede, as pernas brancas cedendo passagem, a carne quente implorando prazer. Tudo era vaidade. Já não havia mais espaço para os prazeres. A senilidade havia se apoderado dos ossos, abraçado as pernas. Mas não havia pesar na incapacidade. A vida havia sido vivida. Sobrara a saudade. A saudade, que agora era amiga, confidente, irmã mais velha que aconselha. A saudade que gritava, inicialmente, dos retratos e do lado do guarda-roupa vazio, pertencente ao marido já falecido, mas que, agora, cantava baixinho, a mesma canção que cantavam os canários que se aninhavam na laranjeira do quintal. E a casa, com a pintura descascada, era apenas a estampa das íris esbranquiçadas, que traziam consigo a cegueira gradativa. Os móveis, de estofado surrado, combinavam com os vestidos ásperos e esfolados. Estes, emolduravam dona Lúcia, que ainda namorava os mesmos rapazes, corria pelos mesmos bosques, trepava nas velhas mangueiras, comia mexericas e maçãs com os dentes preservados, cheirava as flores e a grama enquanto fingia ser coelho, rolando feito menina. E era menina, de fato. Sorria por nada, se apaixonada por tudo, não perguntava demais porque queria descobrir, sozinha, o significado das dores. Nem chorava quando uma farpa entrava no dedo. Em vez disso, contraía os músculos da face toda e arrancava-a de uma vez só. Por ser estéril, não tivera filhos. Por ser filha única, não tinha também nenhuma irmã. Casara-se cedo, com o amor de sua vida: Augusto, que era uma flor de moço. Viveram felizes até sua morte, e deixara ao menos uma pensão para Lucinha – como sempre a chamava. E, por ser viúva, não repartia os devaneios à toa das tardes macias. Nem se importava. Guardava para si as risadas emudecidas, já que os pensamentos não falam – só na cabeça da gente. Guardava para si também o cansaço. Não o distribuía, não cansava a mais ninguém. Mostrava-se uma árvore frondosa quando se punha na janela: dessas que balançam mas não perdem uma folha sequer quando vem uma ventania, mas murchava quando se recolhia em sua cama, sem reclamar das dores. Eram uma etapa de crescimento. E ela sabia que uma das últimas. Sorria mesmo assim, orava todas as noites mesmo assim, penteava os cabelos mesmo que ninguém a visitasse; chorava quando ouvia um poema bonito e cantarolava quando uma música grudava na cabeça. Só não deixava que nada confundisse saudade com tristeza. A saudade era de casa. Saudade fazia companhia, contava segredos, repartia o pão. Tristeza é outra coisa. É sentir muito pelo que aconteceu. E ela não sentia muito. Sentia demais, o que é bem diferente. Sentia aquela sensação de missão cumprida, de ter a leitura de um livro finalizada, de bolo quentinho no forno. E, com a saudade, ela trazia uma caneca de leite gelado para acompanhar o bolo recém-assado. E gargalhava quando sobrava um último pedaço para as duas dividirem.
Neemias Melo

De onde você busca tanto material? Como sabe tantos detalhes daquilo que ainda não viveu? Será voando por esse mundo afora e observando as mais lindas coisas da vida? Será pousando nos ombros das pessoas e ver cada marca em rostos já embrutecidos pelas experiências? Ah, pássaro lindo... que encanto de ser é você!
ResponderExcluirEu ia comentar, mas a Leca roubou-me as palavras... És tão iluminado, menino, Deus do céu.
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