quarta-feira, 19 de outubro de 2011


Os olhos espremidos observavam atentamente as crianças descalças jogando futebol lá fora. As mãos enrugadas cediam aos movimentos repetitivos dos tremores constantes enquanto repousavam na janela. O pano gasto do vestido florido deixava o contorno dos seios caídos mais delineado e cobria cuidadosamente os ombros pendidos para o chão. A pele flácida se balançava com facilidade nos braços e abaixo do queixo quando ela alisava o vestido com a palma da mão ou mudava a inclinação da cintura em relação às pernas, encontrando uma posição mais confortável para contemplar o céu e o contorno rarefeito das nuvens. Os lábios secos e miúdos se contraíam quando a gengiva sem dentes coçava, e logo depois se arqueavam num sorriso tímido diante de uma nuvem com um formato engraçado ou quando um passarinho vinha lembrá-la dos tempos já passados. As tardes na fazenda do avô. A cachoeira logo atrás da campina, os patos que por ali nadavam. O corpo bem disposto aos mergulhos, o refresco dos sorrisos brancos, dos seios rijos, dos cabelos cacheados embalados ao vento. E agora: os membros que pediam descanso, a sede que rejeitava o copo d’água, a coragem que se contentava em acompanhar de longe as aventuras já vividas. Os beijos roubados, o pudor desavergonhado no final da adolescência: o fruto amadurecido, suculento, pedindo para ser abocanhado. A primeira vez, o primeiro amor, o espartilho rasgado pelo atrito com a parede, as pernas brancas cedendo passagem, a carne quente implorando prazer. Tudo era vaidade. Já não havia mais espaço para os prazeres. A senilidade havia se apoderado dos ossos, abraçado as pernas.  Mas não havia pesar na incapacidade. A vida havia sido vivida. Sobrara a saudade. A saudade, que agora era amiga, confidente, irmã mais velha que aconselha. A saudade que gritava, inicialmente, dos retratos e do lado do guarda-roupa vazio, pertencente ao marido já falecido, mas que, agora, cantava baixinho, a mesma canção que cantavam os canários que se aninhavam na laranjeira do quintal. E a casa, com a pintura descascada, era apenas a estampa das íris esbranquiçadas, que traziam consigo a cegueira gradativa. Os móveis, de estofado surrado, combinavam com os vestidos ásperos e esfolados. Estes, emolduravam dona Lúcia, que ainda namorava os mesmos rapazes, corria pelos mesmos bosques, trepava nas velhas mangueiras,  comia mexericas e maçãs com os dentes preservados, cheirava as flores e a grama enquanto fingia ser coelho, rolando feito menina. E era menina, de fato. Sorria por nada, se apaixonada por tudo, não perguntava demais porque queria descobrir, sozinha, o significado das dores. Nem chorava quando uma farpa entrava no dedo. Em vez disso, contraía os músculos da face toda e arrancava-a de uma vez só. Por ser estéril, não tivera filhos. Por ser filha única, não tinha também nenhuma irmã. Casara-se cedo, com o amor de sua vida: Augusto, que era uma flor de moço. Viveram felizes até sua morte, e deixara ao menos uma pensão para Lucinha – como sempre a chamava. E, por ser viúva, não repartia os devaneios à toa das tardes macias. Nem se importava. Guardava para si as risadas emudecidas, já que os pensamentos não falam – só na cabeça da gente. Guardava para si também o cansaço. Não o distribuía, não cansava a mais ninguém. Mostrava-se uma árvore frondosa quando se punha na janela: dessas que balançam mas não perdem uma folha sequer quando vem uma ventania, mas murchava quando se recolhia em sua cama, sem reclamar das dores. Eram uma etapa de crescimento. E ela sabia que uma das últimas. Sorria mesmo assim, orava todas as noites mesmo assim, penteava os cabelos mesmo que ninguém a visitasse; chorava quando ouvia um poema bonito e cantarolava quando uma música grudava na cabeça. Só não deixava que nada confundisse saudade com tristeza. A saudade era de casa. Saudade fazia companhia, contava segredos, repartia o pão. Tristeza é outra coisa. É sentir muito pelo que aconteceu. E ela não sentia muito. Sentia demais, o que é bem diferente. Sentia aquela sensação de missão cumprida, de ter a leitura de um livro finalizada, de bolo quentinho no forno. E, com a saudade, ela trazia uma caneca de leite gelado para acompanhar o bolo recém-assado. E gargalhava quando sobrava um último pedaço para as duas dividirem.

Neemias Melo

2 comentários:

  1. De onde você busca tanto material? Como sabe tantos detalhes daquilo que ainda não viveu? Será voando por esse mundo afora e observando as mais lindas coisas da vida? Será pousando nos ombros das pessoas e ver cada marca em rostos já embrutecidos pelas experiências? Ah, pássaro lindo... que encanto de ser é você!

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  2. Eu ia comentar, mas a Leca roubou-me as palavras... És tão iluminado, menino, Deus do céu.

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