sábado, 24 de março de 2012

Os olhos fechados queriam mudança repentina de cenário quando abrissem. O aviso prosseguia preto. A promessa tatuada sempre. Nos lábios, a fala repetida: "Estou partindo". Geralmente seguida de atrasados pedidos de desculpas ou chorosos silêncios de consentimento, a frase neblinosa perdia a textura de sal, ganhava cor de chão; e, por uma vez - uma só - tragou-se por si só aos pulmões, dando a si mesma vida, isolando as pontas soltas dentro do peito.

Uma só vez não houve resposta; os ouvidos não reconheceram ameaça, o tamanho do estrago era idêntico ao da possibilidade de cura. "Estou partindo". E, partido, permaneceu exatamente onde estava - onde os olhos alcançavam uma porção vazia o bastante para não apresentar risco ao corpo que tornou-se volátil para não se diluir. Partido ficou até que o sol nascesse e alguém acordasse no outro lado da cama. Depois abriu os olhos, soube ser também cenário, abraçar a tatuagem, suspender o aviso. Pediu ao sol apenas que a noite outra vez voltasse, e, com ela, toda a incerteza de se acordar com a falta que se pretendeu dormir.

Neemias Melo

Um comentário:

  1. Não permita que esse mundo injusto te parta.. Lindo demais aqui.. E ah, muito profundo todos os textos aqui, me tocaram muito!..

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