segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A melancolia – cômica, como sempre - veio de novo em minha janela, dia desses, para me dizer que eu tinha de voltar para casa. Acho que ela e o vento fizeram esse acordo, de me tirarem para dançar toda vez que eu alcanço um ninho ou um galho que sustente o meu pesado pouso. Mas eu não quero rasgar o meu coração outra vez, fazendo ele se desprender desses arames farpados, eu me aconcheguei aqui, no meu desespero, na minha desistência, no meu fracasso. Deixa esses amantes desvairados para amanhã, que eu não quero mais contribuir na construção de sonhos que deixei de acreditar. Eu deveria voltar para casa, decerto, mas nem sei onde ela está – se está mesmo em algum lugar. “Está bem, está tudo bem”, eu fico repetindo enquanto limpo a sujeira que vai grudando nas minhas pernas feridas enquanto eu corro de olhos fechados. “Amanhã ela vai embora”, eu digo, fitando o espelho enquanto raspo a cabeça e arranco com as unhas as novas penas que nascem nos meus braços. Tenho chorado todas as noites, receoso de que chegasse cedo a hora de partir, temeroso de que com o amanhã viesse a incerteza da calma, ansioso pelo dia que você traria a chave da torre. Você fica linda nesse traje de nuvem, criança, eu gosto de lhe ver brincando de fugitiva, invertendo os papéis comigo, me permito sorrir quando você cerra as pestanas procurando um lugar para se esconder que eu não conheça, mas eu sinto o seu cheiro de longe. Em minhas lembranças mora um pedaço seu, e eu me permito afaga-lo no meu rosto quando estivermos separados pelos rabiscos das escolhas não planejadas. Eu lamento pelo vidro que tive de quebrar para roubar uma pétala da flor que crescia na sua cômoda, mas me contento em saber que dos nossos pesadelos nasceram sua alma, que é sábia e sabe se recompor, e meu coração que, se remendando com retalhos, aprendeu a se manter inteiro.

Neemias Melo

Um comentário:

  1. Que alívio, gigante. Pessoas que saem caindo por aí também aprendem a cicatrizar depressa.

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