Sinto falta de você. Do seu cheiro adocicado, do seu sorriso escapulido, da sua boca trêmula, dos seus dedos assustados, do seu cabelo insistente, das suas sobrancelhas caídas, dos seus olhos cansados, das suas pernas marcadas, das suas costas arqueadas, do seu punho cerrado, do seu coração apertado, da sua voz abafada, do seu joelho esfolado, dos seus pés gelados, da sua risada calada, da sua respiração desistente, dos seus ombros endurecidos, do seu olhar perdido, do seu choro bonito, do seu pescoço enrijecido. Sinto falta de você – mas sempre sinto falta de tanta coisa. E me sinto assim tão triste, porque você me fazia acreditar que o hoje traz a esperança que eu não alcancei ontem, porque você me levantava quando eu rastejava por conta própria, esperando alguém vir me tirar dos buracos que eu mesmo cavava e me enterrava. Eu sinto tanto a sua falta. Dos sonhos que desenhávamos, das músicas bobas que compúnhamos, dos castelos de areia que fazíamos, dos papéis exagerados que interpretávamos, das noites em claro que passávamos, das garrafas de vinho que secávamos, dos olhares dialogantes que trocávamos, das verdades escuras e frias das quais fugíamos, da inocência rara que guardávamos. Sinto falta de você, e não só da sua presença ao meu lado. Sinto falta de você, porque, seja lá o que você arrancou quando foi embora, acabou levando junto o pedaço de mim que me cabia.
Neemias Melo
Quanto detalhe, minha ave... Você é muito atencioso e observador... gosto muito disso! Bjim
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