Abriu os braços a receber os flocos que caíam levemente ao seu redor, se acumulando na calçada, em cima dos muros, nas extremidades das árvores. Sorria abertamente, mostrando os dentes; olhava para cima, imaginando-se sobrepondo as calçadas, alçando um tipo de voo incomum - mas permanecia ali, presa ao chão, numa cena tão triste quanto poderia ser. As pessoas passavam e se demoravam olhando o devaneio que, durando alguns minutos, deixava a impressão de ser eterno. Era uma menina posta a abrigar partículas acinzentadas que vinham do céu, e que gargalhava ao perceber que tocavam a sua face empalidecida de frio e timidez. Mas não percebia... Não percebia que os cabelos se incendiavam. Sim, pegavam fogo. Os fios, outrora negros, flamejavam e se acendiam como uma fogueira. Labaredas se desprendiam de sua cabeça e ela sequer notava, sequer via. Debaixo de um carvalho de alguns metros de altura, a chama que irradiava dos seus cabelos alcançava alguma folhas que, queimando, soltavam-se dos galhos e, ainda fumegantes, deitavam-se em objetos que também tornavam-se avermelhados e quentes. Casas, caixas de papelão, jornais dispersos, papéis. Ao seu redor, tudo era banhado de fogo e desmoronava. Gente ainda passava e via que a menina se confundia, mas não conseguiam se aproximar dela - uma onda de calor indomável os impedia. E as coisas iam se decompondo, o vento as espalhando, o frio não condizente com a destruição calorosa que se alastrava. E ela ainda sorria, olhando para o céu, sem sentir que o calor que emanava de si acabava com tudo à sua volta. Era uma cena horrível. Ela via as estruturas minúsculas se assentando nas bochechas claras e pensava ser neve aquilo que eram cinzas iniciadas pelo desespero que ela nunca soube arrefecer.
Neemias Melo
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