Aponta a faca ao coração, torna-a para o rumo da abertura da camisa justa, corta os botões da gola à base, assanha a virilha, deixa o abdômen contraído de aflição à mostra.
Volta a faca ao coração.
Finca apenas a ponta, vê o sangue manchar o metal frio e aquecer as entranhas do objeto empunhado por ti. Tu, o bom moço vestido de negro, ansioso por mais um desastre, encabulado do silêncio da vítima.
A faca. Voltemos à faca.
Desenha um símbolo simétrico, faz escorrer o que tiver de escorrer, banha o dedo na língua e toca a carne ferida e estranha do teu holocausto. Sussurra as palavras secretas da tua língua nefasta, espalha, no peito do fraco, o rubro néctar que os ventos te imploram, arregala os teus olhos e observa que o receptáculo está selado com a marca.
A faca. Joga-a fora.
Tens o cordeiro, a posição correta, o ambiente terreno ligado às pedras. Tens de agir agora. Carimba o polegar encharcado na testa do homem, silaba o teu desconhecido canto, vira os olhos de excitação, treme os ossos de agonia, encosta os outros dedos nos cabelos que agora suam, fecha-os rapidamente, olha pra cima, sente o pescoço enrijecido, sente a nuca queimando, sente o peso subindo, cala. Cessa a tremedeira, retira o dedo, afasta-te do moço. Tens agora uma jornada. Despe-te na frente da oferenda, toca-te, masturba-te, acelera os movimentos das mãos fechadas num círculo de horror. Ejacula. Espalha, com os teus dedos dos pés, o sêmen no chão, mira tua semente jogada. Olha o moço, temente, retraído, assustado. Alcança o sêmen com o dorso da tua mão, suja-o, suja os lábios do impurificado, também. Liberta-o. Deixa-o correr, deixa-o tropeçar ao se lembrar das forças que te uniram a ele naquela hora. Sente as suas lágrimas escorrerem pelos teus olhos anuviados, o vacilar dos joelhos hesitantes das pernas que buscam socorro. As dele. Acolhe-te, guarda-te, retrai-te. Teu espírito foi selado no corpo do menino que agora sustenta o dele e o teu peso. O menino chora as tuas dores, busca os teus abismos, se farta dos teus desejos. O menino agora é o corpo que abriga os teus medos, que aquieta o teu chacoalhar de trapézios, que afogueia teus cotovelos enregelados de inverno e noite. Tens a saída: o menino selado. Tens a ele para depositar as tuas mentiras, e atormentar os pensamentos para que escreva os teus vocabulários macabros, teus rituais de podridão, tuas vaidades de quem foge. Foge ele por ti, agora. Aguenta ele por ti, sente ele por ti, morre ele por ti. Descansa, orador da cerimônia. Tens, depositado na criança, os teus mais sombrios pesares. Tens um escritor. Usa-o.
Neemias Melo
Mano, você realmente tomou todas as palavras de mim e eu emudeci. Ainda tô boquiaberto, não vou fazer comentários a respeito, nem preciso dizer o queanto ele está foda porque tenho certeza que centenas de outras pessoas já vieram e disseram, mas queria ressaltar que o impacto que esse texto causou em mim foi cruciante. Só dois textos conseguiram fazer o mesmo, Negra flor e O Coração Azul. Mas de uma forma macabra mesmo, as palavras saltaram e saltaram e tocaram minha alma. Com uma faca.
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