terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Praça da Liberdade

Pois cantava aquele pássaro como se piasse abruptamente
Mas bem sei que me chamava às pressas
Porque punha a goela a exalar uma sinfonia aguda
e fitava-me, usando as asas como um leque
Produzindo vento pra que eu também balançasse as minhas
[asas que nunca vi]
“Piá, piá, aqui, aqui, que é?, que é?, sobe cá”
E, retumbante, saltava de galho em galho
Abria o bico descontente, brandia golpes de altivez
“Aqui, aqui! É aqui, piá. É aqui!”
Repetia, impaciente, encarando as minhas pernas desajeitadas
Meus longos braços descomunais e irregulares
E, sem entender, prossegui transeunte
Deixando, ali, às sombras d’um Jacarandá
O pequenino que ajuntava estímulos, jeitos e cordas
Pra puxar um menino-pássaro para a vida que o sustentaria
Tal que as pernas não fraquejassem e as penas, enfim, crescessem
Mas ouvi que me chamava, o companheiro,
Como se já fosse eu moço engravatado
Que, daquilo, não fiz eu sequer menção - e muito menos esforcei-me 
Em impulsionar o corpo, expulsar a queda, aceitar o canto
Que me fazia ser igual ao sabiá

Neemias Melo

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