A festa era uma maravilha. Um lustre pomposo, do qual supostas gotas de vidro e cristal pendiam por fios invisíveis, iluminava o centro do salão tumultuado de homens e mulheres bem-vestidos, que seguravam com destreza taças cheias de champanhe e copos com gelo e conhaque. A música orquestrada banhava o chão de ondas espessas de riso embriagado e toques leves em ombros e barbas; a dança prosseguia solta e compassada; os pés, com calçados lustrosos e caríssimos, acompanhavam o ritmo da bateria preguiçosa e farfalhada. A festa era maravilhosa, assim como ela - a moça que acabara de chegar.
O vestido vermelho-vinho deixava os ombros chamativos à mostra e descia, rente às curvas, até os calcanhares, que apoiavam as sandálias prateadas e enfeitadas por pedras que reluziam um brilho esgazeado. O cabelo era de um negro-vivo inebriante e estava absurdamente liso e preso por dois prendedores envolvidos por diamantes, que se uniam na nuca. Ela era linda. Todos pararam para vê-la, quando a música cessou gradativamente e foi dando lugar a uma nova melodia mais suave. Com graça, ela descia os degraus da imensa escadaria enfeitada para a noite. O sorriso exalando uma essência que condizia com os acordes dos instrumentos, a mão que segurava com cuidado um pedaço do vestido, o braço esquerdo solto que se movia com destreza. Serviu-se logo de uma das tantas taças de uma bandeja de prata, e se juntou à multidão que retomava o bailar. Havia apenas um problema.
Os olhos. Ela não se demorava olhando a ninguém, porque não conseguia. A beleza estampada nos movimentos calmos se restringia a mãos, pés, braços, cabelo, boca, mas jamais aos olhos. Ela os mantinha abertos, mas deixava que eles fitassem apenas o chão ou divagassem pela sala enorme e abarrotada de nobres. Faltava alguma coisa. Observava, esperançosa, os espaçamentos entre as colunas da parede anterior, as fitas, as cores, a janela... A janela! Foi ali que ela se demorou. Um moço já a tirara para dançar, mas era lá que os seus olhos se cravavam. As árvores se balançavam lá fora, ela via. Alguns galhos ricocheteavam no vidro, mas o som era quase inaudível, comparado ao da banda posta na plataforma. As folhas iam se soltando, embora arrancadas, e ela fechava os olhos imaginando como seria se tivesse a sorte daquelas pequenas e voláteis estruturas mal iluminadas pela luz que emanava do ambiente. As narinas se abriam buscando um cheiro que estava em outro lugar. A cintura era envolvida pelas mãos do rapaz que ela não reconhecia, mas ela sentia dançar com outra coisa, algo que também tirava as árvores para dançar e, sem nenhum pudor, também as despia. Começou a assoviar a música que tocava, pois a conhecia de cor. De olhos fechados, narinas curiosas e lábios articulados num pequeno círculo, ela assoviava atinadamente. Quando percebeu, empurrava com o próprio corpo, o homem que a acompanhava em direção à janela. Foi chegando cada vez mais perto, as pálpebras ainda espremidas, o sonho ainda florido, e foi percebendo que, pelas frestas da janela, alguém também assoviava. Abriu os olhos. Havia algo que ela queria lá fora. As íris escuras moviam-se freneticamente à procura do que quer fosse e ela não sabia que era. Foi se aproximando mais, os dedos quase encostando no vidro frio, o moço quase pedinte de pausa porque ela já o empurrava com força, e, enfim, ela soube o que era. O nome dele era vento. E ela o sentia fugidio entre os dedos arreganhados que buscavam uma resposta inalcançada. Ela pestanejava, confusa, sem saber o que fazer. Quando, de repente, a música já tinha acabado novamente e ela só ouvia o assovio do seu amante invisível que parecia enamora-la pelos batuques ocos dos galhos que se atritavam contra a barreira transparente que os separava. Não foi preciso sair. Ela o sentiu por dentro, como se ele a amarrasse, com cordas novas e grossas, as entranhas. Era a dor mais agradável que ela já sentia. Entendia que o cabelo liso era uma mentira, e o sapato caro era um disfarce, os braços colados ao flanco, uma afronta. Ela era uma menina, não uma donzela. Mas ninguém precisava saber disso.
Deu uma piscadela para o vidro que, não nitidamente, mostrava o seu reflexo meio apagado. Sorriu, como que pela primeira vez, de verdade, e enrubesceu-se de uma maneira que só ela e as folhas entenderiam. A partir daquela noite, e para toda a vida, ela era enrubescida como a mulher do vento.
De: Neemias Melo para Carolina F.
Eu te amo.
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