E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, consenti em deixar-te apenas para o meu Senhor. Fiz eu tuas próprias malas, coloquei eu mesmo o teu ralo cobertor em meio às tantas outras coisas cujos nomes tu não me ensinaste. Deixei, à noite, a porta aberta, jurando ao menos ver teu rastro, sentir teu cheiro, seguir teus passos. Pedi, ao mesmo Deus a quem te entregaste, que velasse, acima de tudo, meu sentimento aceso, mesmo que confuso, brilhante, queimando, tão quente, por ti. Porque disseste "adeus" e eu, tolo, ouvi "A Deus". "Vá com Ele, minha amada, deita o lombo nas costas do mundo que Ele nos entregou, suspirando esse cheiro de laranja que deixaste, impregnado, aqui". Eu era um desses poetas que brincam com as letras, vendo o jogo que, bem colocadas, meio que tímidas, elas davam. Fui me sentindo ator, também, fingindo que aguentava teu salto cravado nos meus olhos. E, nessa, de tirar letras ou fazer pouco caso de boa interpretação, comi do amor que, para ti, era amora; senti da dor que, em tua visão, poeta adora; acelerei quando pediste acerola. E me desencaixei nas palavras que, outrora, me serviam de abrigo e, em poucos casos, demora. Confesso que perdi as estribeiras e os sentidos de um bom escrevedor. Porque falhei quando deixei de ouvir-te, clamando por socorro sem nem mesmo estar caindo. Ou talvez eu já estivesse lá embaixo, acostumado ao limo íntimo das pedras.
E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, voei para longe, como se o bater das minhas asas fosse prece, e achar-me já não fosse mais algum recurso. Fiquei por ali. Ali parado, ali distante, ali inalcançável. Fiquei dali, tecendo um tabernáculo na minha bruta fé de que, o Deus que a levara para um lugar tão longe de mim, traria o bom senso que eu bem reconheço ter perdido. E, então, resgataria o tanto amor que me regia, e a pouca força que me fora levada. Relevaria esses meus esquecimentos de quem acredita saber demais e veria que eu preciso, sim, de piedade por aqui. É que homens feitos não fazem cena. Eu preciso dela, mas nunca fiz questão de pedi-la.
Neemias Melo
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