Pelo que os olhos continuarão abertos, mesmo após o tapa, e as mãos permanecerão cruzadas depois de todas as chicotadas. Pelo que as escamas cairão com os suaves toques e as cores escorrerão para os dedos de outrem. Porque o corpo já não sente mais o tato e, em vez disso, sente uma outra alma que suspira angustiada uma chuva que não vem, um rio que não molha, um abraço que não sustenta, uma vida que definha. Pelo que os cortes latejarão até a morte, porque a vida consiste na dor. A dor é a chave, é a estante, é o amontoado de engrenagens que nos soca com força o rosto e nos faz aguentar, calados, o bruto fardo. E a boca permanecerá calada enquanto as pedras são atiradas por mãos amigas. E a sobrancelha não arqueará e não se levantarão as súplicas, as misericórdias, as benevolências. Pelo que amor não se manifestará, porque as coisas tornaram-se valiosas - mais do que os próprios homens. Não valemos mais o próprio cuspe. Nadamos. Morremos. Adormecemos pisoteados.
Neemias Melo
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