sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Meus olhos não são os meus olhos

Não são os meus olhos, meus olhos. Alguém passou aqui, lhe digo, e arrancou os que me pertenciam e deixou estes que tanto me incomodam. Digo... Ainda sou eu. Sim, sou. O mundo continua o mesmo... Sabe quando se tem a impressão de ver um vulto passando quando se olha para o outro lado? Às vezes acho que uma velha árvore me persegue e deixa folhas ásperas caírem sempre que me viro. E elas brilham. Sabe quando se deita olhando para o céu e pequenas partículas semitransparentes são vistas vagando? Tem-se passado dias sem que elas sumam. Hoje durmo com minhas amigas leves. E costumava pensar que precisava do sol para vê-las. E meu quarto... Ah, o meu quarto! Tem as mesmas coisas, o mesmo cheiro e clima quente. Paredes azuis, guarda-roupas marrom, a tv que não ligo. Mas esses olhos... Não são meus. Não sei lhe explicar como seriam os meus, só sei que estes não são. Ardem, às vezes, e por seguidos minutos. Choram por conta própria e deixam de enxergar as cores. Isso é doença? Tenho tias que sempre dizem que existem doenças que ninguém explica. Alguém saberia o que tenho se eu dissesse o que sinto? Sinto, acima de tudo, agonia. Procuro cicatrizes nas têmporas, riscos nas pálpebras, e nunca acho nada. Nasci com esses olhos? Não é possível! Não me lembro de tê-los tido antes. Há algum tempo. Dois meses? Não, não. Mais que isso. Três anos, talvez. Não me lembro muito bem de como eu era naquela época, mas era quase igual. Quase. O motivo são esses... Por que repetir? Não são e ponto. Ponto. Ponho óculos escuros e saio para a rua, vejo a cidade quase igual, as pessoas quase iguais. Passo em frente a uma pequena loja de roupas, vejo minha imagem no vidro. Ando um pouco torto, ombros baixos. Resolvo tirar os óculos e lá estão eles, olhando-me com a bravura que nunca tive, encarando-me como eu jamais ousaria fazer. São tão audaciosos e fixos que não me atrevo a piscar. A atendente pergunta se eu preciso de ajuda. "Preciso, moça, mas a senhora não poderia me ajudar". Saio dali. Não me pertencem e não gosto do jeito como me olham, me fazem parecer alguém de verdade, alguém que mudou e não avisou a ninguém, alguém que viu muitas coisas e esqueceu poucas - as que não deveriam ser esquecidas. Alguém que uma vez eu quase me tornei, e que acabei não me tornando por pouco. Muito pouco.

Neemias Melo

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