Não tenho mais roupas que me sirvam, não tenho mais tempo reservado aos estudos, não tenho mais tempo para nada. O engraçado é que me falta tempo também para comer, para tomar um banho decente, para ler um livro inteiro. O engraçado é que não tenho pressa. Falta-me tempo para retomar a pressa. Falta-me o desespero por ser completamente inútil. Na maior parte do dia, sento-me sobre o piso frio da varanda e fumo. Tenho tempo para ver a fumaça dançando à minha frente. Divirto-me. Depois me levanto. E não tenho tempo para corrigir a postura, para trancar a porta, fechar a torneira, arrumar os lençóis que joguei na sala para deitar sobre e dormir. Não é justo. Não me parece justo. Tenho dez dedos nas mãos, posso escrever com eles, catar borboletas, lavar a louça. Não entendo como não tenho tempo. Meu dia passa corrido com pequenas pausas de nicotina. Como se eu fosse aquela fumaça que dança. Um passo feito no vento não pode ser refeito, o jeito é continuar subindo, subindo, até se espalhar no céu. Imagino sempre como deve ser cair para cima, como se o mundo virasse e eu despencasse no infinito. Há tempo no infinito? Talvez ele me espere por lá para uma prosa ligeira. "Tenho andado atrás de você, mas não lhe encontro", ele diria. "Tentasse descer um pouco, acharia", eu brincaria. Senhor tempo, senhor tempo, você viu onde eu deixei minha última lágrima? Estou seco. Esprema-me um pouco e vê, não escorre nada, nem uma gota. Quando um cisco cai no meu olho eu arranco com as unhas. Não choro mais, senhor tempo. Não tenho tempo para choro. O senhor me deixou, como todos os outros me deixaram. Tropeço nos cadarços por não ter tempo de amarrá-los, caio e não tenho tempo de me levantar. O senhor vê a falta que me faz um abraço? O senhor foi o último, o último amigo que eu esperava me estender as mãos e dizer que tudo ia dar certo. Mas eu estou saindo agora, meu ex-amigo. Estou voltando à minha queda inversa, ao meu paralelismo encabulado. Nos encontramos em outra galáxia, ou talvez eu caia num mundo que só caiba eu. Eu, minhas roupas que não me servem, minha pressa fugidia, meu banho mau-tomado, minhas preces ecoantes. Não tenho mais tempo para falar de amor.
Neemias Melo
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