quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Absconditus

Naquela noite, em vez de ver a lua, a lua me viu. Como se se escondesse atrás do muro numa brincadeira, ela espiou quando fechei a porta do quarto. Notei que alguma coisa havia se movido atrás de mim, e um brilho perolado abrandou-se quando me virei. Caminhei até a janela, afastei o pano que a cobria. Com calma, subi o olhar até encontra-la. Entre as grades, eu a descobri, olhando-me como uma menina que encontra um tesouro enterrado. O céu, pintado de nuvens rarefeitas e muitas, dava a impressão de ser infértil e rachado como solo sertanejo. Uma só estrela brilhava pomposamente entre o anil escuro da noite e o cinza empalidecido das nuvens banhadas de lua – o astro que não era meu porque me encontrou primeiro, escondida atrás de um par de grossas cortinas que deixaram escapar, por fisgas discretas, um fulgor diamantino que me avisou: “és assistida”. Mirando-a, sorri, mas ela não me retribuiu o sorriso; fitou-me. Ventou e, como se duas mãos me abraçassem pela cintura, acheguei-me à parede, entrelacei os dedos nas grades, exalei um hálito apaixonado e quente - típico de alguém que não sabe dançar, mas é chamado pela lua a fazê-lo. Eu disse a ela: “Não sei dançar, não, dona Lua”, mas ela não ouviu; fez ventar mais forte e a alça direita da minha camisola escorreu pelo meu ombro esquerdo. Fui ajeitá-la, mas o vento tornou-se ainda mais impulsivo, fazendo escorregar também a alça direita. Abracei os seios a evitar a nudez e olhei-a novamente, curiosa. Uma faixa de nuvem passava-lhe pela base, como se sorrisse e calasse o riso timidamente com a mão - uma fresca brisa substituiu o anterior ar agitado que, sem perceber, desprendeu-me os cabelos, agora soltos e bailarinos em minhas costas.

Demorei a observá-la até que a nuvem se retirasse e ela voltasse a fitar-me silenciosa. Um palpite absurdo passou-me pela mente e sacudi a cabeça, recusando-o. Não poderia ser. A brisa continuava; balançava levemente o breve acúmulo de seda caído sobre meus antebraços postos num abraço individual de cotovelos. Ela, ainda misteriosa, permanecia impassível, quase séria. O mesmo palpite voltou a me transpassar e, dessa vez, não o expulsei com a veemência anterior. Mas seria possível? Pensei, e, de imediato, a brisa intensificou-se, balançando minhas vestes mantidas pelos meus braços, como se me lesse os pensamentos. Mas será? E intensificou-se um pouco mais. Então, entendi. Não era dança, o que a lua queria. Mas como? E, sem argumentos plausíveis, reconheci que eu não podia trair a sequência dos fatos. Ela havia me descoberto, e não eu a ela. Mas e se... E se eu a tentasse persuadir através de sopros? E se eu a tivesse achado primeiro? “Não achou”, ela me disse. Não achei, consenti. Eu a pertencia. Vagarosamente, afrouxei o abraço, o tecido, agora em queda, fazia cócegas nos pelos abaixo de meu umbigo. Peguei espessas mechas louras que se desprendiam de minha cabeça e usei-as para tapar-me os seios. Prontamente, o vento voltou – afastando-as. Olhei os meus seios à mostra, os mamilos rijos, uma pinta escura acima da auréola direita. Voltei a ver a lua, que parecia estar num cenário diferente do de minutos atrás. Percebi que havia deixado passar algo. As nuvens - as tantas de antes - imitando o meu despojo, haviam passado. Também estava nua, a lua. Dali, eu não via do mundo mais do que minha visão alcançava da janela, mas senti como se nada mais precisasse ser visto e nenhum segredo houvesse maior do que aquele. Ouvi, de algum modo, a lua me dizer que eu e ela tínhamos uma coisa em comum, e eu, instigada, procurei o que era. Num céu todo limpo, apenas uma pinta brilhava perto do seio da lua. Uma pinta? Olhei de novo meu seio direito e ali havia uma estrela, num corpo todo nu. Sorri. Voltei os olhos e, dessa vez, ela sorria de volta - toda aberta e convidativa a mim e minha nudez. Todo aquele esplendor anil cobria-me e eu percebi que, em vez de infinito, o céu era apenas um espelho que refletia a minha imagem clara, loura, crua, imersa em frescor e despida de sono. Prossegui de olhos abertos, ao máximo, para entender o que a lua continuava a me dizer, mas já não dizia nada. Toquei a pequenina e negra mancha no meu seio e a estrela, no céu, piscou. Tudo compreendi – num tipo de entendimento que eu não ousaria escrever e certamente falharia se tentasse.

Tempo depois – e não tenho certeza de quanto – fui visitar meus avós no interior do Estado. Lá havia um lindo lago – escuro, profundo e gelado, como uma ponta de dedo salivada que alcança uma faísca de carvão ainda viva. Devo dizer que, depois do meu encontro com a lua, passei a dormir sem roupas, como se elas me parecessem mais pesadas do que de costume.  Quase tudo me parecia desnecessariamente pesado. O céu, num dos dias em que lá estive, chamou-me às pressas, enquanto dormia. Levantei-me, fui até o lado de fora da choupana. Talvez fosse tarde, mas o tempo não se é contado numa noite em que o infinito pede companhia. O céu me chamava para o lago e eu não via razões para não obedecê-lo. Caminhei sem receio algum de me perder. Meus pés sentiam a grama roçar no espaço entre os dedos e um calor amigável brotava das minhas panturrilhas. O terreno plano das terras de meus avós deixava a impressão de que o ajuntamento de águas sombrias e o céu sem estrelas eram apenas um, e apenas uma parede fluida separasse o mundo dos sonhos. “Entre”, o céu ordenou. Entrei. A água estava demasiadamente fria, mas o fogo de minhas pernas parecia se estender por todos os lados. “Deite-se”, prosseguiu em ordenar, sem nenhuma pressa em sua fala. Deitei-me. Com todo o corpo coberto de água, apenas a face mantinha-se exposta à serenidade da brisa. Pequenas folhas imersas bailavam em minhas nádegas, meus ouvidos ouviam um ritmo bonito e desconexo de pedras a rolar e sinos abafados. “Venha”, ele falou, como se estivesse dentro da minha cabeça e eu o pudesse sentir pressionando-me o cérebro. Logo a face também imergiu.

No momento seguinte, sem que houvesse aviso prévio, senti que era engolida pelo frio, meu corpo era imerso em escuridão e, então, sob uma curta sobreposição do sentimento de desespero ao de perda, mergulhei numa imensidão azul marinha, senti que caía, mas comecei a levitar, a perder as formas do meu corpo. Ultrapassei as nuvens, as massas oscilantes de ar, e, antes que digerisse o que acontecia, estava no topo – mesmo que me parecesse improvável - do céu. Observei atentamente o território embaixo de mim e pude ver que estava sobre a minha casa, mas que podia abraçar o mundo inteiro. Uma sensação estranhíssima. As casas pareciam pequenas peças de encaixe, mas tudo me era conhecido. Senti que podia espiar a minha janela. Impulsionei minha massa para frente. Notei que podia. Sorrateira, pus-me logo a explorar o espaço cedido. As cortinas estavam fechadas, mas uma fresta aberta revelava-me que alguém estava no meu quarto. Seja quem quer que fosse, notou que era visto. Apressei-me em voltar ao meu posto, receosa. Vi duas mãos brancas afastando as cortinas, aproximando-se da janela. Notei que as mãos eram tão pálidas quanto a lua, mas, ao ver o reflexo dos olhos do ser que se revelava entre as grades, percebi que tão pálida quanto as mãos da menina de camisola era o meu esplendor esbranquiçado. Eu era a lua, e, percebendo que via a mim mesma dias atrás, pensei em chorar ou desabar dali, de encontro a mim mesma, mas, em vez disso, o que produzi foi apenas vento. Um místico e atrevido vento.

Neemias Melo 

Nenhum comentário:

Postar um comentário