As janelas estão fechadas, mas sinto o vento. O braço até arrepia.
Está frio, mesmo que esteja debaixo de vários cobertores. Penso se
colocar a cabeça debaixo deles me deixaria sem ar. Tenho asma. Quase
morri por conta disso, umas três ou quatro vezes. Rio da idéia. Morrer
sufocado por me esconder do frio e de um vento imaginário. Paro de rir.
Curioso, como sempre paro de rir abruptamente, como se um pai severo me
observasse em frente às visitas. Às vezes coço as pernas com muita
força. Pedaços de pele se acumulam debaixo das unhas. Quase nunca
sangra, mas dói. Pergunto-me se no mundo existem pessoas como eu: que
coçam as pernas até que sangrem, que cessam o riso por medo de fantasmas
ou lembranças. Acho que não. Para dizer a verdade, penso que tudo no
mundo é uma mentira; que eu sou o deus da minha própria mente e que
enlouqueci para cobrir do meu cérebro alguma coisa que eu não lembro,
por ter enlouquecido. Talvez eu tenha matado minha própria mãe, embora a
desta realidade me convença com suas palavras e gestos que é bem real a
dor que minha existência a causa. Ou talvez eu tenha sido vítima de
algum tipo de violência física ou emocional que tornasse os meus olhos
estrábicos enquanto eu me retorcia numa convulsão. Ou talvez não. Talvez
a vida seja mesmo assim. Assim patética. Mas não descarto as
possibilidades. Penso que sou grande, e que meus dedos só não escrevem
coisas mais belas porque as coisas mais lindas do mundo devem ser
guardadas. Penso que sou indestrutível, e que, por mais que meu sangue
escorra, o sopro de vida que carrego é levado no peito. É mais bonito
assim. É também mais triste. Tentar sempre sobrepor uma realidade alheia
à que tenho para não desapontar Deus. Sei que Deus nos colocou aqui.
Sinto. Acho que, de onde Ele está, deve chorar. Por minha causa, apenas.
E isso porque duvido que existam outros iguais a mim. Sonâmbulos.
Pessoas que precisam de café e de lavar o rosto a cada quinze minutos
para não acordar. Eu queria acordar, mas num lugar diferente. Abrir os
olhos, ver que estou numa praia de areia branca e água límpida. O sol
refrescaria minha pele gelada. Meus pés aquecendo-se na areia, meus
olhos fechados deixando tudo à frente das minhas pálpebras alaranjado.
Depois sorriria. Acabaria assim. Como num filme. O final de um filme.
Tinha de ser assim, o final logo depois do começo. De outro modo, tudo
desandaria de novo, eu perderia o controle das mãos, o chão me
engoliria. Ai ai ai, meu Deus, minhas pernas. Sangrou, desta vez. Bosta!
Não gosto de cheiro de sangue. Até acho a cor bonita. Penso se existem
pessoas que sangram até a morte por causa alguma. Sorrio. Paro de
sorrir. Alguém me vê. Alguém me escuta. Melhor entrar debaixo dos
cobertores. Talvez morrer em posição fetal, abraçando a asma, e acordar
na praia que narrei mais cedo, lembra? Claro que lembra! E deixar que se
repita minha chegada ao novo sonho várias e várias vezes, até que eu me
esqueça de onde vim, qual nome tenho, e que minha mãe chora quando me
vê. Seria melhor assim. Um sonho dentro de um sonho. Como a vida que
cabe em mim. Que se encaixa. Está frio. Minhas mãos estão geladas. Entro
debaixo dos cobertores. Encolho-me. Sinto sono. Sempre sinto sono.
Durmo. Não acordo. Pelo menos, não por enquanto. Não há pressa para
acordar. Fico quieto. Espero. Abro os olhos para ver se vejo sinal de
areia no meu colchão, ou algo que representasse a minha passagem para um
outro lado. Nada. Repito três vezes. Nada. Estico-me. Parado fico.
Decepcionado. Estou louco, tenho certeza. Não há pessoas como eu no meu
mundo. Há apenas eu. Um menino e uma camada grossa de cobertores. Apenas
eu.
Neemias Melo
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