No fundo, bem escondido das influências sorrateiras da evolução, ele sentia falta de colocar os pés na terra. Sempre que chovia, sentia a energia da água, que percorria asfalto para encontrar saída, unindo-se aos seus fluidos corporais que se exaltavam e ebuliam nos vasos estreitamente comprimidos. Quando captava de longe o cheiro de folha, sua alma estendia galhos, produzia folhas, conduzia seiva, para que houvesse movimento de dança e cura, para que o paletó não fosse maior que o limo das pedras. O mundo estava cheio de concreto, e não de pedras. O concreto entupira átrios e ventrículos, fazendo o coração bater parado. O concreto fizera das pálpebras escamas pegajosas e espessas, cuja densidade impedia a fotossíntese dos sonhos. O concreto paralisara vias, entulhara poços. O cinza paletó não poderia ser maior que o limo das pedras - a escorregadia propagação de verde. Lá, bem atrás dos pulmões, onde ele sempre sentiu morar a alma, residia o gosto da lama, a textura das cascas, o desemaranhar dos casulos. Ali morava a extensão que o mundo não pudera jamais conhecer. Dali brotavam as asas amarelas e a tintura esverdeada que tingia os olhos diante do chamado de liberdade. E os montes o evocavam de volta para o equilíbrio, pois faltava um pedaço na maternidade natural: o bicho homem havia se esquecido de que também possuía patas, pelos e instinto. O bicho-ele se esquecera de apagar as lâmpadas para olhar as estrelas, de quebrar a garrafa e beber da uva. E no fundo - na parte onde nada seria capaz de tocar - um animal uivava, latia, grunhia, miava, pedia, para ser cuspido para fora da jaula e voar para onde seu barulho fosse entendido como louvor.
Neemias Melo

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