Eu não vi tua pélvis ígnea procrastinando o alçar dos pelos - os arrepios desfolharam-se mudos. Quando os trejeitos emborcados de volúpia alçaram voo, não conferi tua contorção maculada. Das tuas poses, tua entrega, tua súplica, eu nada bebi. Mirei-te posta à fuga, implorando envolvimento e carne - mas não a minha. Quiseste fartura e eu sequei, buscaste gemido e eu calei, pediste paixão e eu neguei. Quando as suspensas gotas de suor se assentaram no teu colo, meus dedos já estavam prontos a recolher tua - nunca antes vista - fragura, pois roubei de ti apenas a parte que nunca enxergaste: a vergonha, e o cansaço. Arranquei de ti a ameaça de sono, para que não acreditaste nos outros, assim como deveras desconfiam de ti. Enrubesceram-se os lábios fendidos, expôs-se no vestido aberto as coxas, mostrou-se nos teus injuriosos ombros fogo, e na tua saliva um recado: murchar-se-ão e dispersar-se-ão das frontes o véu de misericórdia, pois do provar da minha língua nasce o erro. Não desistimos nunca, e ali jazeram nossos pulmões mirrados e puídos. Decerto nadávamos quando amanheceu o dia, e -tamanho o descontentamento - afundamos de mãos dadas, prontos para o mar, fugidios da praia. Não nos despedimos por desconhecimento, e poupados fomos de dor. Eu não sei o que será de ti, cabelos ruivos, mas eu nunca vou morrer de amor. Eu não vi fluindo de ti vida, nem em tuas veias sangue correndo, nem nos teus olhos o contrair das pupilas, mas nos meus nunca houve tão grande estagnação - fracassamos antes mesmo de acordarmos.
Neemias Melo

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