terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções. "Nunca termina nada, o menino. Faz qualquer um acreditar na sorte quando começa alguma coisa, mas logo empurra descrença goela abaixo nessas pessoas, que não mais fizeram do que estender as mãos, e vai embora", eu ouvi ela contando à minha avó. Não mentiu. Das coisas, sempre quis o pior, a parte podre, o desequilíbrio pendente para o desastre. A vida tem seu preço e eu me atrevo a cobra-lo de quem se esquece de correr o risco. Faço questão de que as coisas sejam, de todo, desajustadas. Acostumem-se os antebraços com as marcas deixadas pelas unhas de outrem enterradas na pele, implorando para que a partida não chegue cedo. Adormeçam os cotovelos para que o frio não fustigue com tanto fervor a carne, quando o vento contrário parece a ponto de açoite. E que dar as costas não custe tão caro - fecham-se os olhos, espremem-se os lábios, tornam os pés à porta e, depois de atravessá-la, cerra-se tudo, o tempo se cala. Ando sobre as coisas sem medo de cortar os pés - minha cor é quente, como quente é a chama da vela que me demoro a enamorar, bailando a ponta dos dedos rapidamente em volta do pavio enegrecido. Caem as coisas à medida que passo e não torno a calcular o tamanho do estrago. Cresceu a vida à minha volta como um empilhamento de caixas de papelão, cheias de livros amarelados e de cheiro forte e áspero; sinto sempre a insegurança de ser pego de surpresa pela chuva, diluindo-se os papéis, cobrindo-me de uma massa espessa de histórias esquecidas e verdades ainda guardadas. Mas eu, sobretudo, caminho. Não que seja necessário, ou por questão de culpa ou erro; caminho porque as pernas ainda funcionam e porque há qualquer pedaço de caminho pronto a receber a mim e a essa atração de desgraças que me acompanha. Culpa dos homens por haverem se corrompido com essa fraqueza tosca e essa fé bruta no impossível. Eu parto, mas parto de olhos abertos, a sentir todas as lacunas que deixo em fundas pegadas por onde passo. Eu aperto no peito o casaco que me isola dos perigos do vento; busco, num bolso, um isqueiro prateado, noutro, puxo um cigarro, ponho-o seguro entre os lábios secos, contraio-os em volta do objeto, protejo o fogo com uma concha feita de mãos, acendo-o, trago; o gosto é, inicialmente, amargo - como todas as coisas são amargas, de início - e prossigo.

Mamãe tinha a mania de me perguntar o porquê de tantas interrupções, e eu dizia a ela que é porque o cigarro tem um gosto mais agradável ao palato depois de algumas tragadas, e que eu era uma espécie de cigarro; que um dia as ruas me espremeriam entre as esquinas, me prenderiam entre alguns muros, sugariam de mim todo gosto forte e droga letal - eu seria qualquer coisa que a vida guarda no bolso e espera a hora mais fria da madrugada para acender e sorver. Eu era qualquer coisa que deveria evitar findar-se, porque eu evitava o fim de tudo. Eu só espero um clique num isqueiro prateado para, então, ser sugado até desaparecer.

Neemias Melo

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Praça da Liberdade

Pois cantava aquele pássaro como se piasse abruptamente
Mas bem sei que me chamava às pressas
Porque punha a goela a exalar uma sinfonia aguda
e fitava-me, usando as asas como um leque
Produzindo vento pra que eu também balançasse as minhas
[asas que nunca vi]
“Piá, piá, aqui, aqui, que é?, que é?, sobe cá”
E, retumbante, saltava de galho em galho
Abria o bico descontente, brandia golpes de altivez
“Aqui, aqui! É aqui, piá. É aqui!”
Repetia, impaciente, encarando as minhas pernas desajeitadas
Meus longos braços descomunais e irregulares
E, sem entender, prossegui transeunte
Deixando, ali, às sombras d’um Jacarandá
O pequenino que ajuntava estímulos, jeitos e cordas
Pra puxar um menino-pássaro para a vida que o sustentaria
Tal que as pernas não fraquejassem e as penas, enfim, crescessem
Mas ouvi que me chamava, o companheiro,
Como se já fosse eu moço engravatado
Que, daquilo, não fiz eu sequer menção - e muito menos esforcei-me 
Em impulsionar o corpo, expulsar a queda, aceitar o canto
Que me fazia ser igual ao sabiá

Neemias Melo

domingo, 15 de janeiro de 2012

Fênix

Abriu os braços a receber os flocos que caíam levemente ao seu redor, se acumulando na calçada, em cima dos muros, nas extremidades das árvores. Sorria abertamente, mostrando os dentes; olhava para cima, imaginando-se sobrepondo as calçadas, alçando um tipo de voo incomum - mas permanecia ali, presa ao chão, numa cena tão triste quanto poderia ser. As pessoas passavam e se demoravam olhando o devaneio que, durando alguns minutos, deixava a impressão de ser eterno. Era uma menina posta a abrigar partículas acinzentadas que vinham do céu, e que gargalhava ao perceber que tocavam a sua face empalidecida de frio e timidez. Mas não percebia... Não percebia que os cabelos se incendiavam. Sim, pegavam fogo. Os fios, outrora negros, flamejavam e se acendiam como uma fogueira. Labaredas se desprendiam de sua cabeça e ela sequer notava, sequer via. Debaixo de um carvalho de alguns metros de altura, a chama que irradiava dos seus cabelos alcançava alguma folhas que, queimando, soltavam-se dos galhos e, ainda fumegantes, deitavam-se em objetos que também tornavam-se avermelhados e quentes. Casas, caixas de papelão, jornais dispersos, papéis. Ao seu redor, tudo era banhado de fogo e desmoronava. Gente ainda passava e via que a menina se confundia, mas não conseguiam se aproximar dela - uma onda de calor indomável os impedia. E as coisas iam se decompondo, o vento as espalhando, o frio não condizente com a destruição calorosa que se alastrava. E ela ainda sorria, olhando para o céu, sem sentir que o calor que emanava de si acabava com tudo à sua volta. Era uma cena horrível. Ela via as estruturas minúsculas se assentando nas bochechas claras e pensava ser neve aquilo que eram cinzas iniciadas pelo desespero que ela nunca soube arrefecer.

Neemias Melo

sábado, 7 de janeiro de 2012

Confissão

E eu, por vezes, tocava aquelas fotografias como que pelo ínfimo entrelaço mantido de que ele, um dia, também as tocara. E me esparramava no carpete felpudo, afundava os dedos nas cerdas macias, só por saber que, um dia, ele ali também se deitara. E observava a cozinha, os tantos copos, os talheres não mais em seu esplendor prateado, e beijava-os todos, esfregando a boca decididamente nos objetos que ele, um dia, também beijara. E mirava o espelho trincado, com alguns respingos aqui e ali de pasta de dente - os que ele, apressadamente fazendo os movimentos de vai e vem com a escova, espalhara pelo vidro - e não reconhecia posse alguma minha no reflexo. E eu, por ora, despia-me e me posicionava nu em algum canto em que tivéssemos transado; apalpava cada parte de mim; alisava minuciosamente cada porção contaminada, cada ponto doído, sentindo o corpo que, um dia, ele lambera, cheirara, roçara o peito que chamuscava grossos pelos, deitara as mãos que também partiram. E eu, por instantes, silenciava a casa toda, apagava as luzes, sentava-me ainda despido no chão frio, fechava os olhos, repousava os braços, controlava a respiração e escutava aquele coração que, um dia, ele arrebatara. Eu era o templo vivo do amor que sobrara - e ele era a minha indagação.

Neemias Melo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Janela

Fecham-se as cortinas como se fossem pálpebras e mergulho no mundo que apenas a ti mostrei. Tão fácil seria, se voltasses a ocupar o espaço que adornei para o teu repouso, bem ao lado das dunas que banhei do sal que brotou dos meus olhos, um tanto úmidos. E não vacilariam os meus membros - os pés que rejeitam sapatos, os braços que atraem a frieza da madrugada, as pernas que preferem a nudez - se trouxesses aquela caixa que, não produzindo mais música, guarda as tuas jóias e tua coleção de bilhetes de cinema. Porque eu sabia, desde o início, que eras uma mentira, se igualando às musas que admiravas, por não possuírem elas dono, enquanto tu tinhas um cão a privar-te das noites mas que ao menos lambia-te a perna quando um bocado da tinta que escurecia os teus supercílios a sujava. Morre o sol nas curvas sensuais do horizonte e eu me demoro a perceber que já é tarde e ainda te espero para o café da manhã, com uma xícara de leite frio e dois biscoitos a serem descartados. Deitam-se as nuvens e a lua, lá de cima, roubando apenas para si o altar do céu, olha-me com uma cara de pena, diz para que eu não me engane, que eu não me desgaste, em saber que não voltas mais. Mas eu, mesmo perdido, te espero. Como se adiantasse manter acesa, a chama que grudou teu perfume cítrico nas minhas roupas de lã e se as cortinas fechadas da casa que abriga um sonho bom e desacreditado impedissem a lua de calar suas observações a lembrar-me de que estou só. Louco e só.

Neemias Melo
E ela me segurou firmemente pelos braços com aquelas mãos de quem passa o dia inteiro colhendo jabuticabas e se esquece de limpar os restos das cascas de jabuticabeira que grudam na dobra dos dedos, me sacudiu como a um galho abarrotado de maduros frutos na esperança de que alguma coisa caísse - uma palavra, um resmungo fraco qualquer - e insistia em querer mostrar, com alguma expressão no rosto, no modo com que franzia o cenho e enrugava a testa, que eu não estava ali. Ora, que absurdo! É claro que eu estava ali – perto da árvore cujas camadas desfolhavam-se, deixando-a brutamente adornada, enquanto uma chuva de pequenas verdes e amareladas folhas em chamas, refletoras da luz do sol diretamente nas minhas pupilas, secava-nos as bocas que voltavam a molhar-se com saliva quando a língua, carreada de água, sais e enzimas lustrava os lábios num movimento de sede. E é claro que eu estava ali, mesmo que não conseguisse ajustar o foco no seu rosto moreno, e apenas os seus cabelos castanhos, trançados de lampejos de sol, se balançassem no cenário que, jurando eu estar acontecendo, fiava.

Ela me disse com aquela voz de quem bebeu a noite inteira com os amigos e depois foi para casa a pé se encharcando de uma garoa fria de outono quase em fim que eu não estava ali. Ora, como não estava? Eu estava ali atrás de algum carro parado, de alguma caixa de papelão a ponto de desmanche, na forma de uma moeda jogada a um mendigo cego que apontou a abertura da caneca de lata para o lado errado. Eu estava ali, mesmo que só visse vultos de cabelos escuros ensopados se espalhando num espaço estático de gotas que não se moviam, como se a negrura empapada manchasse o próprio ar.

 E ela beijou-me a testa com aquela boca de quem fica horas abocanhando os beiços e arrancando as securas ásperas e sobressalentes vindouras dos períodos que a língua se esquece de encher-se e regar a vermelhidão das dentadas e disse “adeus”, como se eu não estivesse ali sendo chacoalhado - por aquelas mãos ossudas que eu não distinguia no meio dos fios castanhos que se alastravam por tudo que respirasse ou não. Disse adeus como se eu não estivesse ali, nas horas em que ela comia pedaços dos lábios até que sangrassem, ou como se eu não reparasse que ela nem via que eu não estava ali.

E ela me olhos com aqueles olhos de quem...
Os olhos de...
Olhos daquela que...
Olhou com aquelas armas que ela carregava onde deveriam caber dois globos marejados, com íris de cor semelhante à dos cabelos. Mas ela me olhou. Com aqueles, só dela, e não de outros, olhos. Não como quem recebia uma rajada de vento, ou como quem chorava - apenas como quem olha um homem acovardado e de mente anuviada em cenas sobrepostas e amontoadas umas em cima das outras. Olhou-me, imagino eu, uma vez que não a encarei em momento algum, como um cometa que, de última hora, muda sua rota de colisão. Olhou com aqueles únicos pares de olhos que eu nunca fitei por desaforo ou descuido.

E me deixou como quem sacode um tapete e vê a poeira flutuar no infinito mundo do pó. Deixou-me voando com as outras partículas comuns a mim, de igual insignificância, que se restringiam a disformes e microscópicas formas de cristais. Deixou-me como quem abre a geladeira à procura de uma resposta e se lembra de dormir, minutos depois. Foi dormir. E a lâmpada de cor alaranjada da geladeira permaneceu acesa – como a cabeça de qualquer homem distraído que nunca soube se apaixonar por cabelos castanhos da maneira correta.

Neemias Melo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Segregação

Aponta a faca ao coração, torna-a para o rumo da abertura da camisa justa, corta os botões da gola à base, assanha a virilha, deixa o abdômen contraído de aflição à mostra.

Volta a faca ao coração.

Finca apenas a ponta, vê o sangue manchar o metal frio e aquecer as entranhas do objeto empunhado por ti. Tu, o bom moço vestido de negro, ansioso por mais um desastre, encabulado do silêncio da vítima.

A faca. Voltemos à faca.

Desenha um símbolo simétrico, faz escorrer o que tiver de escorrer, banha o dedo na língua e toca a carne ferida e estranha do teu holocausto. Sussurra as palavras secretas da tua língua nefasta, espalha, no peito do fraco, o rubro néctar que os ventos te imploram, arregala os teus olhos e observa que o receptáculo está selado com a marca.

A faca. Joga-a fora.

Tens o cordeiro, a posição correta, o ambiente terreno ligado às pedras. Tens de agir agora. Carimba o polegar encharcado na testa do homem, silaba o teu desconhecido canto, vira os olhos de excitação, treme os ossos de agonia, encosta os outros dedos nos cabelos que agora suam, fecha-os rapidamente, olha pra cima, sente o pescoço enrijecido, sente a nuca queimando, sente o peso subindo, cala. Cessa a tremedeira, retira o dedo, afasta-te do moço. Tens agora uma jornada. Despe-te na frente da oferenda, toca-te, masturba-te, acelera os movimentos das mãos fechadas num círculo de horror. Ejacula. Espalha, com os teus dedos dos pés, o sêmen no chão, mira tua semente jogada. Olha o moço, temente, retraído, assustado. Alcança o sêmen com o dorso da tua mão, suja-o, suja os lábios do impurificado, também. Liberta-o. Deixa-o correr, deixa-o tropeçar ao se lembrar das forças que te uniram a ele naquela hora. Sente as suas lágrimas escorrerem pelos teus olhos anuviados, o vacilar dos joelhos hesitantes das pernas que buscam socorro. As dele. Acolhe-te, guarda-te, retrai-te. Teu espírito foi selado no corpo do menino que agora sustenta o dele e o teu peso. O menino chora as tuas dores, busca os teus abismos, se farta dos teus desejos. O menino agora é o corpo que abriga os teus medos, que aquieta o teu chacoalhar de trapézios, que afogueia teus cotovelos enregelados de inverno e noite. Tens a saída: o menino selado. Tens a ele para depositar as tuas mentiras, e atormentar os pensamentos para que escreva os teus vocabulários macabros, teus rituais de podridão, tuas vaidades de quem foge. Foge ele por ti, agora. Aguenta ele por ti, sente ele por ti, morre ele por ti. Descansa, orador da cerimônia. Tens, depositado na criança, os teus mais sombrios pesares. Tens um escritor. Usa-o.

Neemias Melo

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Enrubescida

A festa era uma maravilha. Um lustre pomposo, do qual supostas gotas de vidro e cristal pendiam por fios invisíveis, iluminava o centro do salão tumultuado de homens e mulheres bem-vestidos, que seguravam com destreza taças cheias de champanhe e copos com gelo e conhaque. A música orquestrada banhava o chão de ondas espessas de riso embriagado e toques leves em ombros e barbas; a dança prosseguia solta e compassada; os pés, com calçados lustrosos e caríssimos, acompanhavam o ritmo da bateria preguiçosa e farfalhada. A festa era maravilhosa, assim como ela - a moça que acabara de chegar.
O vestido vermelho-vinho deixava os ombros chamativos à mostra e descia, rente às curvas, até os calcanhares, que apoiavam as sandálias prateadas e enfeitadas por pedras que reluziam um brilho esgazeado.  O cabelo era de um negro-vivo inebriante e estava absurdamente liso e preso por dois prendedores envolvidos por diamantes, que se uniam na nuca. Ela era linda. Todos pararam para vê-la, quando a música cessou gradativamente e foi dando lugar a uma nova melodia mais suave. Com graça, ela descia os degraus da imensa escadaria enfeitada para a noite. O sorriso exalando uma essência que condizia com os acordes dos instrumentos, a mão que segurava com cuidado um pedaço do vestido, o braço esquerdo solto que se movia com destreza. Serviu-se logo de uma das tantas taças de uma bandeja de prata, e se juntou à multidão que retomava o bailar. Havia apenas um problema.
Os olhos. Ela não se demorava olhando a ninguém, porque não conseguia. A beleza estampada nos movimentos calmos se restringia a mãos, pés, braços, cabelo, boca, mas jamais aos olhos. Ela os mantinha abertos, mas deixava que eles fitassem apenas o chão ou divagassem pela sala enorme e abarrotada de nobres. Faltava alguma coisa. Observava, esperançosa, os espaçamentos entre as colunas da parede anterior, as fitas, as cores, a janela... A janela! Foi ali que ela se demorou. Um moço já a tirara para dançar, mas era lá que os seus olhos se cravavam. As árvores se balançavam lá fora, ela via. Alguns galhos ricocheteavam no vidro, mas o som era quase inaudível, comparado ao da banda posta na plataforma. As folhas iam se soltando, embora arrancadas, e ela fechava os olhos imaginando como seria se tivesse a sorte daquelas pequenas e voláteis estruturas mal iluminadas pela luz que emanava do ambiente. As narinas se abriam buscando um cheiro que estava em outro lugar. A cintura era envolvida pelas mãos do rapaz que ela não reconhecia, mas ela sentia dançar com outra coisa, algo que também tirava as árvores para dançar e, sem nenhum pudor, também as despia. Começou a assoviar a música que tocava, pois a conhecia de cor. De olhos fechados, narinas curiosas e lábios articulados num pequeno círculo, ela assoviava atinadamente. Quando percebeu, empurrava com o próprio corpo, o homem que a acompanhava em direção à janela. Foi chegando cada vez mais perto, as pálpebras ainda espremidas, o sonho ainda florido, e foi percebendo que, pelas frestas da janela, alguém também assoviava. Abriu os olhos. Havia algo que ela queria lá fora. As íris escuras moviam-se freneticamente à procura do que quer fosse e ela não sabia que era. Foi se aproximando mais, os dedos quase encostando no vidro frio, o moço quase pedinte de pausa porque ela já o empurrava com força, e, enfim, ela soube o que era. O nome dele era vento. E ela o sentia fugidio entre os dedos arreganhados que buscavam uma resposta inalcançada. Ela pestanejava, confusa, sem saber o que fazer. Quando, de repente, a música já tinha acabado novamente e ela só ouvia o assovio do seu amante invisível que parecia enamora-la pelos batuques ocos dos galhos que se atritavam contra a barreira transparente que os separava. Não foi preciso sair. Ela o sentiu por dentro, como se ele a amarrasse, com cordas novas e grossas, as entranhas. Era a dor mais agradável que ela já sentia. Entendia que o cabelo liso era uma mentira, e o sapato caro era um disfarce, os braços colados ao flanco, uma afronta. Ela era uma menina, não uma donzela. Mas ninguém precisava saber disso.
Deu uma piscadela para o vidro que, não nitidamente, mostrava o seu reflexo meio apagado. Sorriu, como que pela primeira vez, de verdade, e enrubesceu-se de uma maneira que só ela e as folhas entenderiam. A partir daquela noite, e para toda a vida, ela era enrubescida como a mulher do vento.

De: Neemias Melo para Carolina F.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A janela sempre esteve de bom tamanho, assim como os livros disseram tudo que eu precisava dizer. Ir lá fora sempre pareceu muito difícil. Tão bonito ver as estações cederem à complexidade do equilíbrio que nos sustém, mas, quanto ao retirar de cada folha e tingir de cada ponto de céu e nuvem que se vai, nunca coube a mim mover uma palha. Eu, por assim dizer, sou um cavaleiro acovardado. Histórias demais, sentimentos demais, mas minha armadura ainda está polida, intacta - vejo minha falta de coragem brilhando através dela. Porque é certo que nunca me vestiu essa ideia de balançar os braços, sacudir o orvalho da noite, suspirar o fresco espírito da manhã. Meus cotovelos se acostumaram com a moldura da janela, e os meus olhos já conheciam cada palmo estampado nos extremos do vidro embaçado pela minha respiração. Respirar me bastou até agora, e nada mais. O descompassar das batidas veio antes da adrenalina; os fios brancos e os olhos de quem morre chegaram antes do tempo; a lagarta, ainda no casulo, quis abrir as asas para cair. Um tipo de emoção que cabe na luz que entra pelas frestas irregulares das cortinas fez eu me sentir cuidado, quando tudo que eu mais quis foi ter sentido frio. E as músicas cuidaram de embalar meu ventre fechado e contorcido de romance inalcançado. Se eu sinto muito? Não sei dizer o que sou eu, o que é sentir, nem mesmo sei a medida que serve para muito. Eu sou alguma coisa não conhecida por não ter arriscado rasgar as fotos e sujar as mãos com sangue novo. Eu sou um tipo de animal acuado num pequeno quarto, sem querer cravar as unhas na terra, contente com linhas e quadrados e superfícies ocas. Ou talvez eu seja só mais um que desliga as luzes quando alguém  passa de madrugada e olha para cima, sentindo ser vigiado. Eu sou um segredo que não precisava ser contado. Eu não preciso, eu sou calado, caído, molhado - de que? Lágrimas, talvez. Mas nem imagino se o gosto que elas têm é doce ou ralo, por não ter provado de gotas de outros olhos, outras dores. Aqui, nunca doeu. Eu sou uma parede branca que brinca de trincar, mas nem se mexe. Eu nunca quis fazer a vida acontecer.

Neemias Melo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Deixei nos umbrais desta porta
as marcas de um punho renhido -
vigas das quais se suporta
o peso de um corpo puído

Deixei nos adeuses do tempo
as mãos que, há tanto, calaram
sufocando esse escasso alento
acamando esses nós que restaram

E, esquecido de fragosa vivacidade
me perdi nos becos em que, avulso, caí.
Bebi tamanhas dores, entre os bares da cidade
e, de amor não vindo, desgostoso da vida, enxotado e sem saída, morri.

Neemias Melo