domingo, 15 de janeiro de 2012

Fênix

Abriu os braços a receber os flocos que caíam levemente ao seu redor, se acumulando na calçada, em cima dos muros, nas extremidades das árvores. Sorria abertamente, mostrando os dentes; olhava para cima, imaginando-se sobrepondo as calçadas, alçando um tipo de voo incomum - mas permanecia ali, presa ao chão, numa cena tão triste quanto poderia ser. As pessoas passavam e se demoravam olhando o devaneio que, durando alguns minutos, deixava a impressão de ser eterno. Era uma menina posta a abrigar partículas acinzentadas que vinham do céu, e que gargalhava ao perceber que tocavam a sua face empalidecida de frio e timidez. Mas não percebia... Não percebia que os cabelos se incendiavam. Sim, pegavam fogo. Os fios, outrora negros, flamejavam e se acendiam como uma fogueira. Labaredas se desprendiam de sua cabeça e ela sequer notava, sequer via. Debaixo de um carvalho de alguns metros de altura, a chama que irradiava dos seus cabelos alcançava alguma folhas que, queimando, soltavam-se dos galhos e, ainda fumegantes, deitavam-se em objetos que também tornavam-se avermelhados e quentes. Casas, caixas de papelão, jornais dispersos, papéis. Ao seu redor, tudo era banhado de fogo e desmoronava. Gente ainda passava e via que a menina se confundia, mas não conseguiam se aproximar dela - uma onda de calor indomável os impedia. E as coisas iam se decompondo, o vento as espalhando, o frio não condizente com a destruição calorosa que se alastrava. E ela ainda sorria, olhando para o céu, sem sentir que o calor que emanava de si acabava com tudo à sua volta. Era uma cena horrível. Ela via as estruturas minúsculas se assentando nas bochechas claras e pensava ser neve aquilo que eram cinzas iniciadas pelo desespero que ela nunca soube arrefecer.

Neemias Melo

sábado, 7 de janeiro de 2012

Confissão

E eu, por vezes, tocava aquelas fotografias como que pelo ínfimo entrelaço mantido de que ele, um dia, também as tocara. E me esparramava no carpete felpudo, afundava os dedos nas cerdas macias, só por saber que, um dia, ele ali também se deitara. E observava a cozinha, os tantos copos, os talheres não mais em seu esplendor prateado, e beijava-os todos, esfregando a boca decididamente nos objetos que ele, um dia, também beijara. E mirava o espelho trincado, com alguns respingos aqui e ali de pasta de dente - os que ele, apressadamente fazendo os movimentos de vai e vem com a escova, espalhara pelo vidro - e não reconhecia posse alguma minha no reflexo. E eu, por ora, despia-me e me posicionava nu em algum canto em que tivéssemos transado; apalpava cada parte de mim; alisava minuciosamente cada porção contaminada, cada ponto doído, sentindo o corpo que, um dia, ele lambera, cheirara, roçara o peito que chamuscava grossos pelos, deitara as mãos que também partiram. E eu, por instantes, silenciava a casa toda, apagava as luzes, sentava-me ainda despido no chão frio, fechava os olhos, repousava os braços, controlava a respiração e escutava aquele coração que, um dia, ele arrebatara. Eu era o templo vivo do amor que sobrara - e ele era a minha indagação.

Neemias Melo

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Janela

Fecham-se as cortinas como se fossem pálpebras e mergulho no mundo que apenas a ti mostrei. Tão fácil seria, se voltasses a ocupar o espaço que adornei para o teu repouso, bem ao lado das dunas que banhei do sal que brotou dos meus olhos, um tanto úmidos. E não vacilariam os meus membros - os pés que rejeitam sapatos, os braços que atraem a frieza da madrugada, as pernas que preferem a nudez - se trouxesses aquela caixa que, não produzindo mais música, guarda as tuas jóias e tua coleção de bilhetes de cinema. Porque eu sabia, desde o início, que eras uma mentira, se igualando às musas que admiravas, por não possuírem elas dono, enquanto tu tinhas um cão a privar-te das noites mas que ao menos lambia-te a perna quando um bocado da tinta que escurecia os teus supercílios a sujava. Morre o sol nas curvas sensuais do horizonte e eu me demoro a perceber que já é tarde e ainda te espero para o café da manhã, com uma xícara de leite frio e dois biscoitos a serem descartados. Deitam-se as nuvens e a lua, lá de cima, roubando apenas para si o altar do céu, olha-me com uma cara de pena, diz para que eu não me engane, que eu não me desgaste, em saber que não voltas mais. Mas eu, mesmo perdido, te espero. Como se adiantasse manter acesa, a chama que grudou teu perfume cítrico nas minhas roupas de lã e se as cortinas fechadas da casa que abriga um sonho bom e desacreditado impedissem a lua de calar suas observações a lembrar-me de que estou só. Louco e só.

Neemias Melo
E ela me segurou firmemente pelos braços com aquelas mãos de quem passa o dia inteiro colhendo jabuticabas e se esquece de limpar os restos das cascas de jabuticabeira que grudam na dobra dos dedos, me sacudiu como a um galho abarrotado de maduros frutos na esperança de que alguma coisa caísse - uma palavra, um resmungo fraco qualquer - e insistia em querer mostrar, com alguma expressão no rosto, no modo com que franzia o cenho e enrugava a testa, que eu não estava ali. Ora, que absurdo! É claro que eu estava ali – perto da árvore cujas camadas desfolhavam-se, deixando-a brutamente adornada, enquanto uma chuva de pequenas verdes e amareladas folhas em chamas, refletoras da luz do sol diretamente nas minhas pupilas, secava-nos as bocas que voltavam a molhar-se com saliva quando a língua, carreada de água, sais e enzimas lustrava os lábios num movimento de sede. E é claro que eu estava ali, mesmo que não conseguisse ajustar o foco no seu rosto moreno, e apenas os seus cabelos castanhos, trançados de lampejos de sol, se balançassem no cenário que, jurando eu estar acontecendo, fiava.

Ela me disse com aquela voz de quem bebeu a noite inteira com os amigos e depois foi para casa a pé se encharcando de uma garoa fria de outono quase em fim que eu não estava ali. Ora, como não estava? Eu estava ali atrás de algum carro parado, de alguma caixa de papelão a ponto de desmanche, na forma de uma moeda jogada a um mendigo cego que apontou a abertura da caneca de lata para o lado errado. Eu estava ali, mesmo que só visse vultos de cabelos escuros ensopados se espalhando num espaço estático de gotas que não se moviam, como se a negrura empapada manchasse o próprio ar.

 E ela beijou-me a testa com aquela boca de quem fica horas abocanhando os beiços e arrancando as securas ásperas e sobressalentes vindouras dos períodos que a língua se esquece de encher-se e regar a vermelhidão das dentadas e disse “adeus”, como se eu não estivesse ali sendo chacoalhado - por aquelas mãos ossudas que eu não distinguia no meio dos fios castanhos que se alastravam por tudo que respirasse ou não. Disse adeus como se eu não estivesse ali, nas horas em que ela comia pedaços dos lábios até que sangrassem, ou como se eu não reparasse que ela nem via que eu não estava ali.

E ela me olhos com aqueles olhos de quem...
Os olhos de...
Olhos daquela que...
Olhou com aquelas armas que ela carregava onde deveriam caber dois globos marejados, com íris de cor semelhante à dos cabelos. Mas ela me olhou. Com aqueles, só dela, e não de outros, olhos. Não como quem recebia uma rajada de vento, ou como quem chorava - apenas como quem olha um homem acovardado e de mente anuviada em cenas sobrepostas e amontoadas umas em cima das outras. Olhou-me, imagino eu, uma vez que não a encarei em momento algum, como um cometa que, de última hora, muda sua rota de colisão. Olhou com aqueles únicos pares de olhos que eu nunca fitei por desaforo ou descuido.

E me deixou como quem sacode um tapete e vê a poeira flutuar no infinito mundo do pó. Deixou-me voando com as outras partículas comuns a mim, de igual insignificância, que se restringiam a disformes e microscópicas formas de cristais. Deixou-me como quem abre a geladeira à procura de uma resposta e se lembra de dormir, minutos depois. Foi dormir. E a lâmpada de cor alaranjada da geladeira permaneceu acesa – como a cabeça de qualquer homem distraído que nunca soube se apaixonar por cabelos castanhos da maneira correta.

Neemias Melo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Segregação

Aponta a faca ao coração, torna-a para o rumo da abertura da camisa justa, corta os botões da gola à base, assanha a virilha, deixa o abdômen contraído de aflição à mostra.

Volta a faca ao coração.

Finca apenas a ponta, vê o sangue manchar o metal frio e aquecer as entranhas do objeto empunhado por ti. Tu, o bom moço vestido de negro, ansioso por mais um desastre, encabulado do silêncio da vítima.

A faca. Voltemos à faca.

Desenha um símbolo simétrico, faz escorrer o que tiver de escorrer, banha o dedo na língua e toca a carne ferida e estranha do teu holocausto. Sussurra as palavras secretas da tua língua nefasta, espalha, no peito do fraco, o rubro néctar que os ventos te imploram, arregala os teus olhos e observa que o receptáculo está selado com a marca.

A faca. Joga-a fora.

Tens o cordeiro, a posição correta, o ambiente terreno ligado às pedras. Tens de agir agora. Carimba o polegar encharcado na testa do homem, silaba o teu desconhecido canto, vira os olhos de excitação, treme os ossos de agonia, encosta os outros dedos nos cabelos que agora suam, fecha-os rapidamente, olha pra cima, sente o pescoço enrijecido, sente a nuca queimando, sente o peso subindo, cala. Cessa a tremedeira, retira o dedo, afasta-te do moço. Tens agora uma jornada. Despe-te na frente da oferenda, toca-te, masturba-te, acelera os movimentos das mãos fechadas num círculo de horror. Ejacula. Espalha, com os teus dedos dos pés, o sêmen no chão, mira tua semente jogada. Olha o moço, temente, retraído, assustado. Alcança o sêmen com o dorso da tua mão, suja-o, suja os lábios do impurificado, também. Liberta-o. Deixa-o correr, deixa-o tropeçar ao se lembrar das forças que te uniram a ele naquela hora. Sente as suas lágrimas escorrerem pelos teus olhos anuviados, o vacilar dos joelhos hesitantes das pernas que buscam socorro. As dele. Acolhe-te, guarda-te, retrai-te. Teu espírito foi selado no corpo do menino que agora sustenta o dele e o teu peso. O menino chora as tuas dores, busca os teus abismos, se farta dos teus desejos. O menino agora é o corpo que abriga os teus medos, que aquieta o teu chacoalhar de trapézios, que afogueia teus cotovelos enregelados de inverno e noite. Tens a saída: o menino selado. Tens a ele para depositar as tuas mentiras, e atormentar os pensamentos para que escreva os teus vocabulários macabros, teus rituais de podridão, tuas vaidades de quem foge. Foge ele por ti, agora. Aguenta ele por ti, sente ele por ti, morre ele por ti. Descansa, orador da cerimônia. Tens, depositado na criança, os teus mais sombrios pesares. Tens um escritor. Usa-o.

Neemias Melo

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Enrubescida

A festa era uma maravilha. Um lustre pomposo, do qual supostas gotas de vidro e cristal pendiam por fios invisíveis, iluminava o centro do salão tumultuado de homens e mulheres bem-vestidos, que seguravam com destreza taças cheias de champanhe e copos com gelo e conhaque. A música orquestrada banhava o chão de ondas espessas de riso embriagado e toques leves em ombros e barbas; a dança prosseguia solta e compassada; os pés, com calçados lustrosos e caríssimos, acompanhavam o ritmo da bateria preguiçosa e farfalhada. A festa era maravilhosa, assim como ela - a moça que acabara de chegar.
O vestido vermelho-vinho deixava os ombros chamativos à mostra e descia, rente às curvas, até os calcanhares, que apoiavam as sandálias prateadas e enfeitadas por pedras que reluziam um brilho esgazeado.  O cabelo era de um negro-vivo inebriante e estava absurdamente liso e preso por dois prendedores envolvidos por diamantes, que se uniam na nuca. Ela era linda. Todos pararam para vê-la, quando a música cessou gradativamente e foi dando lugar a uma nova melodia mais suave. Com graça, ela descia os degraus da imensa escadaria enfeitada para a noite. O sorriso exalando uma essência que condizia com os acordes dos instrumentos, a mão que segurava com cuidado um pedaço do vestido, o braço esquerdo solto que se movia com destreza. Serviu-se logo de uma das tantas taças de uma bandeja de prata, e se juntou à multidão que retomava o bailar. Havia apenas um problema.
Os olhos. Ela não se demorava olhando a ninguém, porque não conseguia. A beleza estampada nos movimentos calmos se restringia a mãos, pés, braços, cabelo, boca, mas jamais aos olhos. Ela os mantinha abertos, mas deixava que eles fitassem apenas o chão ou divagassem pela sala enorme e abarrotada de nobres. Faltava alguma coisa. Observava, esperançosa, os espaçamentos entre as colunas da parede anterior, as fitas, as cores, a janela... A janela! Foi ali que ela se demorou. Um moço já a tirara para dançar, mas era lá que os seus olhos se cravavam. As árvores se balançavam lá fora, ela via. Alguns galhos ricocheteavam no vidro, mas o som era quase inaudível, comparado ao da banda posta na plataforma. As folhas iam se soltando, embora arrancadas, e ela fechava os olhos imaginando como seria se tivesse a sorte daquelas pequenas e voláteis estruturas mal iluminadas pela luz que emanava do ambiente. As narinas se abriam buscando um cheiro que estava em outro lugar. A cintura era envolvida pelas mãos do rapaz que ela não reconhecia, mas ela sentia dançar com outra coisa, algo que também tirava as árvores para dançar e, sem nenhum pudor, também as despia. Começou a assoviar a música que tocava, pois a conhecia de cor. De olhos fechados, narinas curiosas e lábios articulados num pequeno círculo, ela assoviava atinadamente. Quando percebeu, empurrava com o próprio corpo, o homem que a acompanhava em direção à janela. Foi chegando cada vez mais perto, as pálpebras ainda espremidas, o sonho ainda florido, e foi percebendo que, pelas frestas da janela, alguém também assoviava. Abriu os olhos. Havia algo que ela queria lá fora. As íris escuras moviam-se freneticamente à procura do que quer fosse e ela não sabia que era. Foi se aproximando mais, os dedos quase encostando no vidro frio, o moço quase pedinte de pausa porque ela já o empurrava com força, e, enfim, ela soube o que era. O nome dele era vento. E ela o sentia fugidio entre os dedos arreganhados que buscavam uma resposta inalcançada. Ela pestanejava, confusa, sem saber o que fazer. Quando, de repente, a música já tinha acabado novamente e ela só ouvia o assovio do seu amante invisível que parecia enamora-la pelos batuques ocos dos galhos que se atritavam contra a barreira transparente que os separava. Não foi preciso sair. Ela o sentiu por dentro, como se ele a amarrasse, com cordas novas e grossas, as entranhas. Era a dor mais agradável que ela já sentia. Entendia que o cabelo liso era uma mentira, e o sapato caro era um disfarce, os braços colados ao flanco, uma afronta. Ela era uma menina, não uma donzela. Mas ninguém precisava saber disso.
Deu uma piscadela para o vidro que, não nitidamente, mostrava o seu reflexo meio apagado. Sorriu, como que pela primeira vez, de verdade, e enrubesceu-se de uma maneira que só ela e as folhas entenderiam. A partir daquela noite, e para toda a vida, ela era enrubescida como a mulher do vento.

De: Neemias Melo para Carolina F.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A janela sempre esteve de bom tamanho, assim como os livros disseram tudo que eu precisava dizer. Ir lá fora sempre pareceu muito difícil. Tão bonito ver as estações cederem à complexidade do equilíbrio que nos sustém, mas, quanto ao retirar de cada folha e tingir de cada ponto de céu e nuvem que se vai, nunca coube a mim mover uma palha. Eu, por assim dizer, sou um cavaleiro acovardado. Histórias demais, sentimentos demais, mas minha armadura ainda está polida, intacta - vejo minha falta de coragem brilhando através dela. Porque é certo que nunca me vestiu essa ideia de balançar os braços, sacudir o orvalho da noite, suspirar o fresco espírito da manhã. Meus cotovelos se acostumaram com a moldura da janela, e os meus olhos já conheciam cada palmo estampado nos extremos do vidro embaçado pela minha respiração. Respirar me bastou até agora, e nada mais. O descompassar das batidas veio antes da adrenalina; os fios brancos e os olhos de quem morre chegaram antes do tempo; a lagarta, ainda no casulo, quis abrir as asas para cair. Um tipo de emoção que cabe na luz que entra pelas frestas irregulares das cortinas fez eu me sentir cuidado, quando tudo que eu mais quis foi ter sentido frio. E as músicas cuidaram de embalar meu ventre fechado e contorcido de romance inalcançado. Se eu sinto muito? Não sei dizer o que sou eu, o que é sentir, nem mesmo sei a medida que serve para muito. Eu sou alguma coisa não conhecida por não ter arriscado rasgar as fotos e sujar as mãos com sangue novo. Eu sou um tipo de animal acuado num pequeno quarto, sem querer cravar as unhas na terra, contente com linhas e quadrados e superfícies ocas. Ou talvez eu seja só mais um que desliga as luzes quando alguém  passa de madrugada e olha para cima, sentindo ser vigiado. Eu sou um segredo que não precisava ser contado. Eu não preciso, eu sou calado, caído, molhado - de que? Lágrimas, talvez. Mas nem imagino se o gosto que elas têm é doce ou ralo, por não ter provado de gotas de outros olhos, outras dores. Aqui, nunca doeu. Eu sou uma parede branca que brinca de trincar, mas nem se mexe. Eu nunca quis fazer a vida acontecer.

Neemias Melo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Deixei nos umbrais desta porta
as marcas de um punho renhido -
vigas das quais se suporta
o peso de um corpo puído

Deixei nos adeuses do tempo
as mãos que, há tanto, calaram
sufocando esse escasso alento
acamando esses nós que restaram

E, esquecido de fragosa vivacidade
me perdi nos becos em que, avulso, caí.
Bebi tamanhas dores, entre os bares da cidade
e, de amor não vindo, desgostoso da vida, enxotado e sem saída, morri.

Neemias Melo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, consenti em deixar-te apenas para o meu Senhor. Fiz eu tuas próprias malas, coloquei eu mesmo o teu ralo cobertor em meio às tantas outras coisas cujos nomes tu não me ensinaste. Deixei, à noite, a porta aberta, jurando ao menos ver teu rastro, sentir teu cheiro, seguir teus passos. Pedi, ao mesmo Deus a quem te entregaste, que velasse, acima de tudo, meu sentimento aceso, mesmo que confuso, brilhante, queimando, tão quente, por ti. Porque disseste "adeus" e eu, tolo, ouvi "A Deus". "Vá com Ele, minha amada, deita o lombo nas costas do mundo que Ele nos entregou, suspirando esse cheiro de laranja que deixaste, impregnado, aqui". Eu era um desses poetas que brincam com as letras, vendo o jogo que, bem colocadas, meio que tímidas, elas davam. Fui me sentindo ator, também, fingindo que aguentava teu salto cravado nos meus olhos. E, nessa, de tirar letras ou fazer pouco caso de boa interpretação, comi do amor que, para ti, era amora; senti da dor que, em tua visão, poeta adora; acelerei quando pediste acerola. E me desencaixei nas palavras que, outrora, me serviam de abrigo e, em poucos casos, demora. Confesso que perdi as estribeiras e os sentidos de um bom escrevedor. Porque falhei quando deixei de ouvir-te, clamando por socorro sem nem mesmo estar caindo. Ou talvez eu já estivesse lá embaixo, acostumado ao limo íntimo das pedras.
E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, voei para longe, como se o bater das minhas asas fosse prece, e achar-me já não fosse mais algum recurso. Fiquei por ali. Ali parado, ali distante, ali inalcançável. Fiquei dali, tecendo um tabernáculo na minha bruta fé de que, o Deus que a levara para um lugar tão longe de mim, traria o bom senso que eu bem reconheço ter perdido. E, então, resgataria o tanto amor que me regia, e a pouca força que me fora levada. Relevaria esses meus esquecimentos de quem acredita saber demais e veria que eu preciso, sim, de piedade por aqui. É que homens feitos não fazem cena. Eu preciso dela, mas nunca fiz questão de pedi-la.

Neemias Melo

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E você banhava o dedo no vinho, molhava os meus lábios, lambia o que escorria, e eu – bobo – até babava. Porque você era aquilo que eu não acreditava merecer, a chance que não tive direito de escolher, o sonho que eu sequer sonhava.  E você dizia coisas que eu não sabia entender, num mundo que eu nem sabia existir, com dimensões que eu não interpretava. Mas eu dizia: “Por favor, me perdoa”. Eu era tão puro. Eu era. Você não vê? Você não vê que tudo que eu tenho hoje é lembrança, é passado?  E você dizia ser culpa minha não conseguir carregar, sozinho, a cruz que lhe apertava. E eu sofria acuado por não poder corresponder a esse abafo que só cabia você. Você e o seu orgulho que me desesperava.  Porque você fazia frio e eu dilacerava. Você cosia asas e, no chão, eu me jogava.  Você dizia: “Vem” e eu me suicidava. Você falava de amor, mas de amor eu não escutava. Não é que você tenha ido. Você nunca veio de verdade. Eu me doei sem restrições, com o coração na mão, com a identidade nos pés e você dizia: “Acho melhor eu me afastar, estou me envolvendo demais”. Eu não acreditava. Eu não acreditava que todo medo era um aviso. Você seria o meu fim. Você foi. Eu morri na noite em que você disse eu te amo como um agradecimento por um pedaço de biscoito e um gole de mim. Eu não durei muito depois de você dizer não vai embora, porque eu esperava há tanto tempo um abraço seu. Mas você recuava aos meus pedaços. Estou desencaixado. Estou pisoteado. Eu vou embora. E, por favor, coloque um pouco de vergonha na cara e não me venha com essa de que sente muito, porque você não faz a mínima ideia do que é sentir. Muito menos muito.

Neemias Melo