E aquela era a grife de noivas mais requintada que se podia encontrar naquela cidade. Vestidos rodados, longos, com franjas, sem mangas, frente única e a relíquia da casa: um vestido que, de tão branco, deixava a visão embaçada depois de um tempo olhando, e que possuía detalhes bordados com diamantes pequeníssimos e bem trabalhados, como pássaros voando com ramos de vides nos bicos, flores perdendo pétalas para o vento, um moinho cercado por espinhos, uma cachoeira, uma cabana escondida, uma árvore desfolhada... Detalhes que não podiam ser vistos sem que se passasse horas a fio namorando aquela perfeição.
Foi o que ela escolheu.
Experimentou-o. Serviu. O cabelo não precisava ser arrumado, ela o queria solto.
- Pago agora e já quero vesti-lo
- Foi uma boa compra, senhorita. Se me permite perguntar, há quanto tempo espera pelo dia do seu casamento?
- Não espero. Não vou me casar
- Mas... Qual a ocasião para o vestido?
- Ah, hoje eu vou me matar – ela disse enquanto passava as mãos no vestido, sentindo o corpete delineando a sua cintura, sem mudar a expressão hora nenhuma, o que fez a atendente perceber que talvez não fosse brincadeira. Mas o dinheiro já estava posto sobre o balcão. Saiu caminhando pela calçada, enquanto a cauda do vestido arrastava no chão úmido pela chuva de minutos atrás e os pequenos diamantes iam fazendo cócegas nos muros com o reflexo quase forçado de um sol que implorava para sair detrás de um céu nublado.
- A senhorita esqueceu os sapatos – a atendente gritou para a mulher, que já dobrava a esquina.
Chegou em casa, escancarou as janelas, abriu a adega, tirou o vinho mais antigo . Foi até o banheiro, encheu a banheira, chutou para o canto a roupa suja espalhada no chão. No quarto, abriu a última gaveta da cômoda e pegou os remédios de tarja preta que ela havia comprado para o avô e dito que tinha sido assaltada enquanto voltava para o carro. Uma pena, o avô pensou, mas amanhã o vô pegava adiantado o dinheiro da aposentadoria e ela comprava de novo, mas dessa vez tomasse cuidado. Tomou.
Levou o som para o banheiro, colocou o CD predileto, deixou nas duas músicas consecutivas mais melancólicas, colocou no chão o vinho, uma taça, as drogas. Entrou devagar com o vestido já imundo nas extremidades, olhou com desdém para as veias azuis sobressalentes nos pés pálidos demais e riu. Sentou-se com calma na água morna, encarou as pontas do cabelo que, mergulhadas, tinham uma leveza muito mais bonita, muito mais morta. Agarrou a garrafa, deixou o vinho escorrer pela superfície interna da taça enquanto ia inclinando de leve a cabeça se perguntando qual o lugar na alma tinha uma cor tão igual àquela. Espremeu das cartelas, um a um, os comprimidos e deixou-os na beirada da banheira. Começou a segunda música. “Porra, mas já?”. Voltou para a música anterior. Começou a assoviar na parte da flauta. Tomou um gole do vinho. “Supimpa”, ela pensou e deu uma gargalhada frouxa. Que tipo de idiota ainda falava supimpa? Catou os comprimidos todos com uma mão e os deglutiu num só gole. Já era o coro, e ela berrava com o violão e o baixo, balançava os joelhos pra ver a água se agitar em volta do vestido que mal cabia naquela banheira. O vestido que se acostumasse com o aperto, ela também ficava desajeitada em qualquer lugar e não reclamava. E a canção já havia terminado novamente. “Porra, de novo? Eu gosto mesmo dessa música”, mas deixou a outra tocar. Muito mais triste - pensou enquanto suspirou - música assim é só pra chorar. E esse remédio que não faz efeito? E cantarolou o coro, pois não sabia a letra. Passou os dedos na boca da taça, a encheu. Tomou numa golada. Encheu de novo. Deixou a taça de lado e entornou a garrafa. A segunda música também havia terminado. Da terceira ela nem gostava, mas depois de se escorar nem se importava, estava era cansada de tudo, mesmo. Dessa gente que não escuta quando a gente grita, desse nó na garganta que não desfaz quando a gente tosse, da vida que não nos costura de volta quando a gente desfia. Queria levantar, mas ali estava confortável demais. Queria coçar o nariz, mas os braços pareciam pesados. Começou a deslizar. Queria trocar o CD, mas os ouvidos clamavam por festa, queria gritar, mas o peito queria descanso, queria fechar os olhos, mas preferiu ver as imagens serem distorcidas vistas debaixo da água, enquanto ela escorregava para mundo de lá. Queria chorar, mas já estava afogada, queria viver, mas já tinha se despedido, queria abraçar, mas já tinha alcançado. E o vestido se desfez em dança, e nos pés nasceram barbatanas, e o teto era só paisagem. E a banheira cheirava a casulo, e as clavículas, que eram feitas de aço, trançavam os cabelos que viraram cortinas, na torre de uma princesa que queria fugir, mas havia esquecido os sapatos.
Neemias Melo

Ah, gigante, que vontade de acudir. Mas... mas... mas não sei disputar com morte bonita assim. Parece um quadro. Parece uma corrente de flores que foi sugando a vida e que, no final, deu um ramalhete esplêndido.
ResponderExcluirNossa, lindo... que intensidade!
ResponderExcluirAinda estou pensando nos detalhes... o reflexo dos diamantes no muro, o céu nublado, os pés descalços, o avô, a cor do vinho, a ordenação dos comprimidos... é muita metáfora prum coração só.
Adoro vinho...