Sou como os livros antigos. Feio por fora, e feio por dentro. Já me disseram isso algumas vezes. Não sou muita coisa, e me falta uma porção necessária de beleza. Marcas aqui e ali, dobraduras aos montes, remendos na capa. Mas sou do tamanho que deveria ser, pelo menos por dentro. Nem vasto, nem breve, tenho um punhado de história guardada e outro, de páginas ainda brancas a serem escritas. Tenho nome incomum, expressão imponente, e falar aveludado. Não sou amado por todos e nem para sempre, mas tenho certeza de que caibo em qualquer canto. Livros velhos também podem guardar pétalas mortas.
Neemias Melo
sábado, 25 de agosto de 2012
Não tenho mais tempo para falar de amor
Não tenho mais roupas que me sirvam, não tenho mais tempo reservado aos estudos, não tenho mais tempo para nada. O engraçado é que me falta tempo também para comer, para tomar um banho decente, para ler um livro inteiro. O engraçado é que não tenho pressa. Falta-me tempo para retomar a pressa. Falta-me o desespero por ser completamente inútil. Na maior parte do dia, sento-me sobre o piso frio da varanda e fumo. Tenho tempo para ver a fumaça dançando à minha frente. Divirto-me. Depois me levanto. E não tenho tempo para corrigir a postura, para trancar a porta, fechar a torneira, arrumar os lençóis que joguei na sala para deitar sobre e dormir. Não é justo. Não me parece justo. Tenho dez dedos nas mãos, posso escrever com eles, catar borboletas, lavar a louça. Não entendo como não tenho tempo. Meu dia passa corrido com pequenas pausas de nicotina. Como se eu fosse aquela fumaça que dança. Um passo feito no vento não pode ser refeito, o jeito é continuar subindo, subindo, até se espalhar no céu. Imagino sempre como deve ser cair para cima, como se o mundo virasse e eu despencasse no infinito. Há tempo no infinito? Talvez ele me espere por lá para uma prosa ligeira. "Tenho andado atrás de você, mas não lhe encontro", ele diria. "Tentasse descer um pouco, acharia", eu brincaria. Senhor tempo, senhor tempo, você viu onde eu deixei minha última lágrima? Estou seco. Esprema-me um pouco e vê, não escorre nada, nem uma gota. Quando um cisco cai no meu olho eu arranco com as unhas. Não choro mais, senhor tempo. Não tenho tempo para choro. O senhor me deixou, como todos os outros me deixaram. Tropeço nos cadarços por não ter tempo de amarrá-los, caio e não tenho tempo de me levantar. O senhor vê a falta que me faz um abraço? O senhor foi o último, o último amigo que eu esperava me estender as mãos e dizer que tudo ia dar certo. Mas eu estou saindo agora, meu ex-amigo. Estou voltando à minha queda inversa, ao meu paralelismo encabulado. Nos encontramos em outra galáxia, ou talvez eu caia num mundo que só caiba eu. Eu, minhas roupas que não me servem, minha pressa fugidia, meu banho mau-tomado, minhas preces ecoantes. Não tenho mais tempo para falar de amor.
Neemias Melo
Neemias Melo
domingo, 19 de agosto de 2012
Mãe, me empresta o carro para eu dar uma volta? Eu sei que ainda não tirei a carta de motorista, mas vê só como eu cresci. Já tenho de fazer a barba duas vezes por semana. Tenho cara de gente adulta. Mãe, a senhora viu meu isqueiro? Eu só quero dar uma volta por aí, estacionar em frente ao pequeno cristo redentor da nossa pequena cidade. Sozinho. Fumando. Do lado de fora do carro, porque a senhora não gosta do cheiro, mas mesmo assim se acostumou a me beijar a testa de manhã quando eu apanho o primeiro cigarro. "Bom dia, meu filho". Bom dia, minha mãe. A senhora viu como eu cresci, mãe? Meus ombros estão largos, embora minhas mãos continuem bem pequenas. Tenho mãos de criança, mãe, mas sou crescido, sim. Minha dificuldade é só em segurar as coisas que as pessoas grandes seguram, mas minhas mãos se firmam no volante, mãe. A senhora aprendeu a dirigir com treze, não foi? Eu já tenho dezoito. Veja só, mãe, já tenho dezoito! Já posso ser preso. Já posso comprar minha própria bebida, ver filme pornô, entrar em bares. Eu tenho idade para isso, mãe. O que eu não tenho é vontade. Porque, embora eu tenha crescido, minhas vontades permaneceram pequenas. Eu gosto de brincar com os cachorros, de assistir desenho animado, tomar leite achocolatado e comer salgadinhos. O que mudou foi o cheiro de cigarro e a vontade de andar de carro, mãe. E eu só quero que a senhora me empreste por umas duas horas. Não preciso de mais. Só preciso de duas horas para perceber que eu cresci. Eu cresci, mãe. Tenho vontade de correr para qualquer lugar sempre que penso que cresci demais. E se eu fizer o que o resto dos adultos fazem, mãe? E se eu me tornar alguém tão forte quanto a senhora? E se eu perder a fé, mãe? E se eu perder a fé nas pessoas? A senhora sabe que eu sempre fui um pouco só, mas não é por maldade. É por curiosidade. Lembra quando a senhora era menina e ficava atrás das árvores vendo as carroças passar? Então, mãe, eu me escondo atrás desse corpo crescido para ver os adultos conversando na mesa. Para rir dos assuntos que eu não sei. Eu não sei ser gente grande, mãe. Mas eu sei dirigir. E isso me faz ser gente grande, não faz? Eu só preciso de duas horas. Eu juro, mãe. Duas horas, e eu volto com o cabelo cortado, e não deixo a senhora ver o carrinho que eu sempre guardo dentro do bolso.
Neemias Melo
Neemias Melo
terça-feira, 14 de agosto de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
O seu ciúme besta. Sempre o seu ciúme besta. Tínhamos tudo nas mãos. A faca, o queixo. Mas e o apetite, meu bem? Você vinha empanturrado de outros banquetes e eu, a pão e água, nunca soube lhe fartar. Eu lhe explicava, não sou igual às outras pessoas, não vim etiquetado como todo mundo vem. Saíamos com seus amigos, todos rindo das suas piadas, ninguém me olhava de frente, sempre pelas beiradas, e eu coçava as mãos, levantava os pés para contrair a panturrilha, para ver se aquela agonia passava. Duas horas de cerveja duravam uma eternidade em que eu não sabia aonde olhar. Eu tinha tudo: o coração livre, a conversa fiada, a roupa que me misturava ao resto da gente. Você tinha o ciúme, a desconfiança, a postura ereta, a arte de fazer qualquer pergunta se transformar num teste. E então adquiri também o medo. De falar num tom mais alto, de erguer a cabeça, de sorrir abertamente. Sempre o seu ciúme besta. Suas mãos inquietas que um dia se ergueram contra mim e me acertaram no rosto. As lágrimas que correram soltas enquanto você me xingava. Era assim que a minha cabeça deixava os meus dias, meus momentos de distração. Eu não precisava de ouvir absolutamente nada para que começasse a gritar e me justificar por um tropeço no cadarço, uma carne que passou do ponto. Meu Deus... Como é que aconteceu? Como é que eu desisti de tudo e fui embora de novo? Eu estava cansado de fugir. Exausto. O jeito era sair juntando tudo e pisar nas antigas pegadas, andar em marcha ré colhendo as roupas que caíram da mala que eu esqueci de fechar. Foi isso. Esse seu ciúme besta, que deixou um pedaço de vidro no meu coração, um coágulo no olho por insônia. Uma imagem triste de menino de volta ao lar, debaixo das asas ossudas da mãe, das músicas religiosas antigas que ela ouve no quarto, dos textos que não acabam nunca, num quarto sempre desarrumado. Meu Deus, meu Deus... Onde foi que eu assinei algum termo de infelicidade eterna? Quero o meu advogado. Quero o colo de minha mãe e não seus braços que me apertam. Quero minha porção infantil que me suja os pés e não me arde a face. Quero tudo mais bonito e menos denso. Um pedaço de amor que não me mate. Uma história de mentiras em que eu possa acreditar.
Neemias Melo
Neemias Melo
sábado, 14 de julho de 2012
As janelas estão fechadas, mas sinto o vento. O braço até arrepia.
Está frio, mesmo que esteja debaixo de vários cobertores. Penso se
colocar a cabeça debaixo deles me deixaria sem ar. Tenho asma. Quase
morri por conta disso, umas três ou quatro vezes. Rio da idéia. Morrer
sufocado por me esconder do frio e de um vento imaginário. Paro de rir.
Curioso, como sempre paro de rir abruptamente, como se um pai severo me
observasse em frente às visitas. Às vezes coço as pernas com muita
força. Pedaços de pele se acumulam debaixo das unhas. Quase nunca
sangra, mas dói. Pergunto-me se no mundo existem pessoas como eu: que
coçam as pernas até que sangrem, que cessam o riso por medo de fantasmas
ou lembranças. Acho que não. Para dizer a verdade, penso que tudo no
mundo é uma mentira; que eu sou o deus da minha própria mente e que
enlouqueci para cobrir do meu cérebro alguma coisa que eu não lembro,
por ter enlouquecido. Talvez eu tenha matado minha própria mãe, embora a
desta realidade me convença com suas palavras e gestos que é bem real a
dor que minha existência a causa. Ou talvez eu tenha sido vítima de
algum tipo de violência física ou emocional que tornasse os meus olhos
estrábicos enquanto eu me retorcia numa convulsão. Ou talvez não. Talvez
a vida seja mesmo assim. Assim patética. Mas não descarto as
possibilidades. Penso que sou grande, e que meus dedos só não escrevem
coisas mais belas porque as coisas mais lindas do mundo devem ser
guardadas. Penso que sou indestrutível, e que, por mais que meu sangue
escorra, o sopro de vida que carrego é levado no peito. É mais bonito
assim. É também mais triste. Tentar sempre sobrepor uma realidade alheia
à que tenho para não desapontar Deus. Sei que Deus nos colocou aqui.
Sinto. Acho que, de onde Ele está, deve chorar. Por minha causa, apenas.
E isso porque duvido que existam outros iguais a mim. Sonâmbulos.
Pessoas que precisam de café e de lavar o rosto a cada quinze minutos
para não acordar. Eu queria acordar, mas num lugar diferente. Abrir os
olhos, ver que estou numa praia de areia branca e água límpida. O sol
refrescaria minha pele gelada. Meus pés aquecendo-se na areia, meus
olhos fechados deixando tudo à frente das minhas pálpebras alaranjado.
Depois sorriria. Acabaria assim. Como num filme. O final de um filme.
Tinha de ser assim, o final logo depois do começo. De outro modo, tudo
desandaria de novo, eu perderia o controle das mãos, o chão me
engoliria. Ai ai ai, meu Deus, minhas pernas. Sangrou, desta vez. Bosta!
Não gosto de cheiro de sangue. Até acho a cor bonita. Penso se existem
pessoas que sangram até a morte por causa alguma. Sorrio. Paro de
sorrir. Alguém me vê. Alguém me escuta. Melhor entrar debaixo dos
cobertores. Talvez morrer em posição fetal, abraçando a asma, e acordar
na praia que narrei mais cedo, lembra? Claro que lembra! E deixar que se
repita minha chegada ao novo sonho várias e várias vezes, até que eu me
esqueça de onde vim, qual nome tenho, e que minha mãe chora quando me
vê. Seria melhor assim. Um sonho dentro de um sonho. Como a vida que
cabe em mim. Que se encaixa. Está frio. Minhas mãos estão geladas. Entro
debaixo dos cobertores. Encolho-me. Sinto sono. Sempre sinto sono.
Durmo. Não acordo. Pelo menos, não por enquanto. Não há pressa para
acordar. Fico quieto. Espero. Abro os olhos para ver se vejo sinal de
areia no meu colchão, ou algo que representasse a minha passagem para um
outro lado. Nada. Repito três vezes. Nada. Estico-me. Parado fico.
Decepcionado. Estou louco, tenho certeza. Não há pessoas como eu no meu
mundo. Há apenas eu. Um menino e uma camada grossa de cobertores. Apenas
eu.
Neemias Melo
Neemias Melo
sexta-feira, 13 de julho de 2012
"Habita, nas entranhas dos
sonhos, um tempo perdido. Brota, da putrefação dos costumes, um caminho.
Corre, nas marchas de cada plano, um adeus não pronunciado. Estancia,
em juramentos, pedidos perdidos. Escorre, entre os punhos retesados,
medos. Corta, palmas das mãos e solas dos pés, escolhas. Arranha,
garganta afundo, pedidos. Camufla-se, nas pupilas, fugas. Nasce, nos
passos, a morte. Parte, nos dias, a vida."
Letícia Rosa
quinta-feira, 12 de julho de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Passou-se o tempo e esquecerem de me passar. Ando amarrotado numa pele que creceu demasiadamente num corpo miúdo. Tropeço nas pelancas, asso nas dobras, canso-me de excessos. Seja lá quem me esticou, equeceu de alertar sobre o sufoco. Não sei se é falta de ar ou sobra de espaço, mas, por dentro, tudo me é pouco.
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