Quando olhou para os lados, viu que não queria estar ali com aquelas pessoas, com a música absurdamente alta, com o nó na garganta, com aquele cisco que sempre caía no olho. Via corpos dançando, a vulgaridade exposta nas nucas, nas mãos. Via sexo nas pupilas, pecado nas línguas, sensualidade animal nas silhuetas. Via gente triste querendo esquecer do tempo e gente vazia o bastante para não entender que aquilo era tristeza. Via crianças que haviam sido violadas buscando na noite uma resposta, mulheres que haviam desacreditado no amor e o substituíam pelo álcool, homens submetidos ao nada, caídos sobre o próprio vômito, deitados no pó, no doce abraço do fracasso. Os ouvidos doíam, os dedos estavam gelados, os pés acompanhando timidamente o compasso histérico das luzes inquietas. Quando não conseguiu mais olhar para direção alguma sem que uma lágrima ameaçasse sair e as narinas começassem a umedecer, fechou os olhos.
E, como alguém que se despe de uma camisola de seda, levantou os braços, acariciando com as unhas o ar denso, levou as mãos acima da cabeça e posicionou-as como a receber os primeiros pingos de uma tempestade, concentrou-se na respiração e na contração rítmica do abdômen. Levantou a cabeça como se tivesse ouvido um passarinho cantar e sorriu para as cicatrizes do punho esquerdo. Quando uma nova música começou, pôs-se a dançar como um menino tomando banho, e arqueava os cotovelos num movimento de reverência. Deixava os pés varrerem o chão, e os braços se confundirem com os galhos de uma árvore que por pouco não é derrubada pelo vento.
Dançava como se não houvesse pressa para tentar achar as partes do espírito que se perderam na estrada, como se não houvesse culpa na contemplação daquilo que é profano. Dançava para celebrar a morte que há muito havia se instalado na retina, nos dentes, nos calcanhares, e para não se esquecer de que não existe julgamento quando se trata de uma vida: todos valemos o mesmo inferno. Dançava porque queria, e porque podia, e porque precisava entender que amanhã era tarde para errar uma outra vez. "Vinde a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei", ele havia lido em algum lugar. Mas qual era o preço para a paz? Que remorso era aquele que sempre nos puxou para a terra desde que éramos pequenos? Qual era a nossa dívida?
Ele queria apenas atuar, porque, na verdade, era o que todos sempre faziam. Acenava para desconhecidos, gargalhava para o bêbado que o ofereceu um gole de vodca, mandava beijos para a prostituta que não havia reparado que a roupa tinha um rasgo nas costas, piscava para os travestis que tinham rostos deformados por cirurgias mal sucedidas, sorria para o mundo, e um mundo sorria de volta. Eram todos perdidos. Todos cansados e sobrecarregados que não acharam o caminho de volta para casa. Eram todos uma comédia sem graça, um romance decadente, e ele - que antes assistia de longe o silêncio mórbido das almas que choram - misturava-se em meio àquela gente trincada, esperando apenas um sopro para se decompor. Gente que havia sido esquecida, que havia acreditado nos insultos. Gente rotulada, moldada. Gente distraída.
Dançou até o suor aderir a roupa à pele, até os pés incharem, até o nó na garganta desatar, até o sol raiar, até os passos se tornarem desajeitados por causa do cansaço. Dançou até se esgotar, até sentir o sangue sendo bombeado para todas as extensões do corpo, sentindo todas as partes latejarem. E, pela primeira vez, sentiu-se inteiro. Deixou o lado de fora no mesmo estado de emergência que o lado de dentro e sentiu que era preciso deitar. Mas que fosse num colo amigo, para chorar até que as lágrimas secassem, até que sumissem os recomeços nunca vindos, até que retornassem as antigas certezas. Sentiu que precisava de um abraço, ou de um beijo na testa mas, em vez disso, aquietou-se, juntando os braços à cintura, cessando o movimento dos pés. Respirou fundo e saiu correndo daquela boate para um lugar onde não houvesse ninguém que o ouvisse gritar que sentia muito por ter crescido e se tornado apenas mais um no amontoado de sonhadores calados.
Neemias Melo