sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E ela me segurou firmemente pelos braços com aquelas mãos de quem passa o dia inteiro colhendo jabuticabas e se esquece de limpar os restos das cascas de jabuticabeira que grudam na dobra dos dedos, me sacudiu como a um galho abarrotado de maduros frutos na esperança de que alguma coisa caísse - uma palavra, um resmungo fraco qualquer - e insistia em querer mostrar, com alguma expressão no rosto, no modo com que franzia o cenho e enrugava a testa, que eu não estava ali. Ora, que absurdo! É claro que eu estava ali – perto da árvore cujas camadas desfolhavam-se, deixando-a brutamente adornada, enquanto uma chuva de pequenas verdes e amareladas folhas em chamas, refletoras da luz do sol diretamente nas minhas pupilas, secava-nos as bocas que voltavam a molhar-se com saliva quando a língua, carreada de água, sais e enzimas lustrava os lábios num movimento de sede. E é claro que eu estava ali, mesmo que não conseguisse ajustar o foco no seu rosto moreno, e apenas os seus cabelos castanhos, trançados de lampejos de sol, se balançassem no cenário que, jurando eu estar acontecendo, fiava.

Ela me disse com aquela voz de quem bebeu a noite inteira com os amigos e depois foi para casa a pé se encharcando de uma garoa fria de outono quase em fim que eu não estava ali. Ora, como não estava? Eu estava ali atrás de algum carro parado, de alguma caixa de papelão a ponto de desmanche, na forma de uma moeda jogada a um mendigo cego que apontou a abertura da caneca de lata para o lado errado. Eu estava ali, mesmo que só visse vultos de cabelos escuros ensopados se espalhando num espaço estático de gotas que não se moviam, como se a negrura empapada manchasse o próprio ar.

 E ela beijou-me a testa com aquela boca de quem fica horas abocanhando os beiços e arrancando as securas ásperas e sobressalentes vindouras dos períodos que a língua se esquece de encher-se e regar a vermelhidão das dentadas e disse “adeus”, como se eu não estivesse ali sendo chacoalhado - por aquelas mãos ossudas que eu não distinguia no meio dos fios castanhos que se alastravam por tudo que respirasse ou não. Disse adeus como se eu não estivesse ali, nas horas em que ela comia pedaços dos lábios até que sangrassem, ou como se eu não reparasse que ela nem via que eu não estava ali.

E ela me olhos com aqueles olhos de quem...
Os olhos de...
Olhos daquela que...
Olhou com aquelas armas que ela carregava onde deveriam caber dois globos marejados, com íris de cor semelhante à dos cabelos. Mas ela me olhou. Com aqueles, só dela, e não de outros, olhos. Não como quem recebia uma rajada de vento, ou como quem chorava - apenas como quem olha um homem acovardado e de mente anuviada em cenas sobrepostas e amontoadas umas em cima das outras. Olhou-me, imagino eu, uma vez que não a encarei em momento algum, como um cometa que, de última hora, muda sua rota de colisão. Olhou com aqueles únicos pares de olhos que eu nunca fitei por desaforo ou descuido.

E me deixou como quem sacode um tapete e vê a poeira flutuar no infinito mundo do pó. Deixou-me voando com as outras partículas comuns a mim, de igual insignificância, que se restringiam a disformes e microscópicas formas de cristais. Deixou-me como quem abre a geladeira à procura de uma resposta e se lembra de dormir, minutos depois. Foi dormir. E a lâmpada de cor alaranjada da geladeira permaneceu acesa – como a cabeça de qualquer homem distraído que nunca soube se apaixonar por cabelos castanhos da maneira correta.

Neemias Melo

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