segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eu queria poder dizer que meu olhar não é assim perdido, minha boca não é assim caída, e meus sonhos não são assim pedaços. Essas fraquezas consumadas enfiam estacas no meu coração e – Deus sabe o quanto – me fazem querer estar longe para não presenciar meus movimentos de agonia. Eu queria poder recolher do chão essas palavras de esperança que me gritam, mas que se transformam em inaudíveis sussurros atravessando esse abismo de descrença que eu construí para esconder o meu fracasso. Quero banho, quero colo, quero afago, quero abraço, para ver se passa essa morte encardida nos ossos, para ver se desenterra o baú onde guardei minhas promessas. Esse céu foi sempre assim cinza, e essa rua sempre assim molhada e fria. Onde o amor soprou na minha vida, há um santuário empoeirado que serve de ninho para corujas adormecidas e pombas sujas. Há uma vela dentro de um jarro no fim da rua principal, para iluminar o bilhete que a menina deixou quando começou a correr atrás do balão vermelho. “É tarde”, diziam os ecos do silencio daquele papel amarelado e áspero. É tarde, ecoavam os sinos da igreja que distribuía pecados. É tarde, gemiam os cravos ao serem amassados pela carruagem que levava meu corpo morto ao meu enterro. É tarde, diziam as viúvas chorosas ao lado do caixão e as virgens trancafiadas nas altas torres. É tarde, dizia um monge que recebeu revelações sobre tempos vindouros. É tarde, dizia eu, acariciando o rosto pálido da menina que um dia saiu em busca de um balão colorido e acabou se afogando no riacho ao fim da campina. Os rouxinóis cantaram um hino de amizade quando cessou o último urro. Caiu o homem quando foi dado o último murro e o sangue que escorreu do nariz quebrado e da mandíbula triturada deixou um gosto salgado no vestido da justiça. No monte com forma de tartaruga havia uma cabana. Lá vivia um homem que aprendeu a caçar lobos e um menino que aprendeu a cortar os pulsos. Ao longe, naquele monte, o tom alaranjado tomava a liberdade de invadir o céu aos fins de tarde e se encarregar de fazer as linhas horizontais no punho do menino abrirem espaço para o vermelho. “Há um velho morto e um menino com uma faca enferrujada na mão”, gritava a senhorita com chapéu florido que levava uma torta de maçã. “Há um menino que aprendeu a deixar os cortes dos braços voarem e encontrar pescoços, coxas, peitos”, dizia o poeta da cidade mais próxima ao delatar o que o pequeno assassino faria. Perguntava sempre a ele: “Por que é a morte um vício insaciável para ti, menino?”. Não havia resposta, havia? “É para deixar passar o azul da noite em que nasci”, certa vez ele disse. Ele disse. E dizia com tanta convicção de que a maldição de seu nascimento havia de ser propagada, que ajuntou as sujeiras das mãos encharcadas de culpa e espalhou no coração do menino que carregava um nome na testa. “Seu nome será...”. Disse, e não terminou a frase ao cair morto em frente ao menino agora portador da escuridão.
Essa é a história que aconteceu numa tarde de terça-feira no único mundo que coube os demônios de um príncipe opaco. O mundo da desistência. Um brinde ao batuque do coração posto na bandeja de prata. Um salve aos podres de uma fruta doce inalcançável. Um beijo na boca da morte e uma canção de ninar para afastar o calor do seio materno. Acabou, criança, volta para a nudez de frio.

Neemias Melo

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