Assovia meu nome no dialeto secreto da nossa tribo, arranca meus olhos e cospe tua alma em mim, crava um punhal no meu peito e retira esse coração miserável. Escreve com uma agulha um poema na minha pele, faz meu sangue escorrer. Esvazia a sala e acende velas para um ritual secreto, me coloca de joelhos, abre um livro, abaixa minha cabeça, espalha sal grosso no chão, desenha uma estrela na minha testa, corta a minha jugular, ata meus braços para trás, me chicoteia, me arranha, me chuta, me mata, me enfia num escafandro pesado. Belisca minha fronte, põe ferro quente no meu cenho, lambe a porção de compaixão que escorreu com a última lágrima, me desnuda, me expõe, me machuca, me prende, corta meus pulsos, me afoga na noite com tuas vãs promessas, me queima, deita meu corpo exausto num lago e me deixa engolir aos poucos tua esperança distorcida. Não me esperes na estação, me usa, puxa meu cabelo e bate minha cabeça no chão sujo de um prazer consumado, me despreza, algema meus tornozelos numa árvore, escala o meu cinismo, me vomita, sinta nojo quando eu te olhar, me deixa chorando no escuro, vai e volta com outro. Ri na minha cara, me difama, golpeia meu queixo com teu joelho, quebra meus dedos com teu salto alto, desenha meu retrato na escória. Descarta-me, estraga-me, entorta-me, macula-me, mutila-me, faz-me um meio poeta incompreendido, meio orgulho ferido, meio mãos calejadas, meio pés esfolados, meio lábios rachados e boca seca, meio braços caídos e dilacerados, que arrastam uma outra metade já definhada.
Neemias Melo

Consegue acreditar que senti essas dores?
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