sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Enrubescida

A festa era uma maravilha. Um lustre pomposo, do qual supostas gotas de vidro e cristal pendiam por fios invisíveis, iluminava o centro do salão tumultuado de homens e mulheres bem-vestidos, que seguravam com destreza taças cheias de champanhe e copos com gelo e conhaque. A música orquestrada banhava o chão de ondas espessas de riso embriagado e toques leves em ombros e barbas; a dança prosseguia solta e compassada; os pés, com calçados lustrosos e caríssimos, acompanhavam o ritmo da bateria preguiçosa e farfalhada. A festa era maravilhosa, assim como ela - a moça que acabara de chegar.
O vestido vermelho-vinho deixava os ombros chamativos à mostra e descia, rente às curvas, até os calcanhares, que apoiavam as sandálias prateadas e enfeitadas por pedras que reluziam um brilho esgazeado.  O cabelo era de um negro-vivo inebriante e estava absurdamente liso e preso por dois prendedores envolvidos por diamantes, que se uniam na nuca. Ela era linda. Todos pararam para vê-la, quando a música cessou gradativamente e foi dando lugar a uma nova melodia mais suave. Com graça, ela descia os degraus da imensa escadaria enfeitada para a noite. O sorriso exalando uma essência que condizia com os acordes dos instrumentos, a mão que segurava com cuidado um pedaço do vestido, o braço esquerdo solto que se movia com destreza. Serviu-se logo de uma das tantas taças de uma bandeja de prata, e se juntou à multidão que retomava o bailar. Havia apenas um problema.
Os olhos. Ela não se demorava olhando a ninguém, porque não conseguia. A beleza estampada nos movimentos calmos se restringia a mãos, pés, braços, cabelo, boca, mas jamais aos olhos. Ela os mantinha abertos, mas deixava que eles fitassem apenas o chão ou divagassem pela sala enorme e abarrotada de nobres. Faltava alguma coisa. Observava, esperançosa, os espaçamentos entre as colunas da parede anterior, as fitas, as cores, a janela... A janela! Foi ali que ela se demorou. Um moço já a tirara para dançar, mas era lá que os seus olhos se cravavam. As árvores se balançavam lá fora, ela via. Alguns galhos ricocheteavam no vidro, mas o som era quase inaudível, comparado ao da banda posta na plataforma. As folhas iam se soltando, embora arrancadas, e ela fechava os olhos imaginando como seria se tivesse a sorte daquelas pequenas e voláteis estruturas mal iluminadas pela luz que emanava do ambiente. As narinas se abriam buscando um cheiro que estava em outro lugar. A cintura era envolvida pelas mãos do rapaz que ela não reconhecia, mas ela sentia dançar com outra coisa, algo que também tirava as árvores para dançar e, sem nenhum pudor, também as despia. Começou a assoviar a música que tocava, pois a conhecia de cor. De olhos fechados, narinas curiosas e lábios articulados num pequeno círculo, ela assoviava atinadamente. Quando percebeu, empurrava com o próprio corpo, o homem que a acompanhava em direção à janela. Foi chegando cada vez mais perto, as pálpebras ainda espremidas, o sonho ainda florido, e foi percebendo que, pelas frestas da janela, alguém também assoviava. Abriu os olhos. Havia algo que ela queria lá fora. As íris escuras moviam-se freneticamente à procura do que quer fosse e ela não sabia que era. Foi se aproximando mais, os dedos quase encostando no vidro frio, o moço quase pedinte de pausa porque ela já o empurrava com força, e, enfim, ela soube o que era. O nome dele era vento. E ela o sentia fugidio entre os dedos arreganhados que buscavam uma resposta inalcançada. Ela pestanejava, confusa, sem saber o que fazer. Quando, de repente, a música já tinha acabado novamente e ela só ouvia o assovio do seu amante invisível que parecia enamora-la pelos batuques ocos dos galhos que se atritavam contra a barreira transparente que os separava. Não foi preciso sair. Ela o sentiu por dentro, como se ele a amarrasse, com cordas novas e grossas, as entranhas. Era a dor mais agradável que ela já sentia. Entendia que o cabelo liso era uma mentira, e o sapato caro era um disfarce, os braços colados ao flanco, uma afronta. Ela era uma menina, não uma donzela. Mas ninguém precisava saber disso.
Deu uma piscadela para o vidro que, não nitidamente, mostrava o seu reflexo meio apagado. Sorriu, como que pela primeira vez, de verdade, e enrubesceu-se de uma maneira que só ela e as folhas entenderiam. A partir daquela noite, e para toda a vida, ela era enrubescida como a mulher do vento.

De: Neemias Melo para Carolina F.

domingo, 25 de dezembro de 2011

A janela sempre esteve de bom tamanho, assim como os livros disseram tudo que eu precisava dizer. Ir lá fora sempre pareceu muito difícil. Tão bonito ver as estações cederem à complexidade do equilíbrio que nos sustém, mas, quanto ao retirar de cada folha e tingir de cada ponto de céu e nuvem que se vai, nunca coube a mim mover uma palha. Eu, por assim dizer, sou um cavaleiro acovardado. Histórias demais, sentimentos demais, mas minha armadura ainda está polida, intacta - vejo minha falta de coragem brilhando através dela. Porque é certo que nunca me vestiu essa ideia de balançar os braços, sacudir o orvalho da noite, suspirar o fresco espírito da manhã. Meus cotovelos se acostumaram com a moldura da janela, e os meus olhos já conheciam cada palmo estampado nos extremos do vidro embaçado pela minha respiração. Respirar me bastou até agora, e nada mais. O descompassar das batidas veio antes da adrenalina; os fios brancos e os olhos de quem morre chegaram antes do tempo; a lagarta, ainda no casulo, quis abrir as asas para cair. Um tipo de emoção que cabe na luz que entra pelas frestas irregulares das cortinas fez eu me sentir cuidado, quando tudo que eu mais quis foi ter sentido frio. E as músicas cuidaram de embalar meu ventre fechado e contorcido de romance inalcançado. Se eu sinto muito? Não sei dizer o que sou eu, o que é sentir, nem mesmo sei a medida que serve para muito. Eu sou alguma coisa não conhecida por não ter arriscado rasgar as fotos e sujar as mãos com sangue novo. Eu sou um tipo de animal acuado num pequeno quarto, sem querer cravar as unhas na terra, contente com linhas e quadrados e superfícies ocas. Ou talvez eu seja só mais um que desliga as luzes quando alguém  passa de madrugada e olha para cima, sentindo ser vigiado. Eu sou um segredo que não precisava ser contado. Eu não preciso, eu sou calado, caído, molhado - de que? Lágrimas, talvez. Mas nem imagino se o gosto que elas têm é doce ou ralo, por não ter provado de gotas de outros olhos, outras dores. Aqui, nunca doeu. Eu sou uma parede branca que brinca de trincar, mas nem se mexe. Eu nunca quis fazer a vida acontecer.

Neemias Melo

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Deixei nos umbrais desta porta
as marcas de um punho renhido -
vigas das quais se suporta
o peso de um corpo puído

Deixei nos adeuses do tempo
as mãos que, há tanto, calaram
sufocando esse escasso alento
acamando esses nós que restaram

E, esquecido de fragosa vivacidade
me perdi nos becos em que, avulso, caí.
Bebi tamanhas dores, entre os bares da cidade
e, de amor não vindo, desgostoso da vida, enxotado e sem saída, morri.

Neemias Melo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, consenti em deixar-te apenas para o meu Senhor. Fiz eu tuas próprias malas, coloquei eu mesmo o teu ralo cobertor em meio às tantas outras coisas cujos nomes tu não me ensinaste. Deixei, à noite, a porta aberta, jurando ao menos ver teu rastro, sentir teu cheiro, seguir teus passos. Pedi, ao mesmo Deus a quem te entregaste, que velasse, acima de tudo, meu sentimento aceso, mesmo que confuso, brilhante, queimando, tão quente, por ti. Porque disseste "adeus" e eu, tolo, ouvi "A Deus". "Vá com Ele, minha amada, deita o lombo nas costas do mundo que Ele nos entregou, suspirando esse cheiro de laranja que deixaste, impregnado, aqui". Eu era um desses poetas que brincam com as letras, vendo o jogo que, bem colocadas, meio que tímidas, elas davam. Fui me sentindo ator, também, fingindo que aguentava teu salto cravado nos meus olhos. E, nessa, de tirar letras ou fazer pouco caso de boa interpretação, comi do amor que, para ti, era amora; senti da dor que, em tua visão, poeta adora; acelerei quando pediste acerola. E me desencaixei nas palavras que, outrora, me serviam de abrigo e, em poucos casos, demora. Confesso que perdi as estribeiras e os sentidos de um bom escrevedor. Porque falhei quando deixei de ouvir-te, clamando por socorro sem nem mesmo estar caindo. Ou talvez eu já estivesse lá embaixo, acostumado ao limo íntimo das pedras.
E, pensando eu que 'adeus' era uma entrega ao Criador, voei para longe, como se o bater das minhas asas fosse prece, e achar-me já não fosse mais algum recurso. Fiquei por ali. Ali parado, ali distante, ali inalcançável. Fiquei dali, tecendo um tabernáculo na minha bruta fé de que, o Deus que a levara para um lugar tão longe de mim, traria o bom senso que eu bem reconheço ter perdido. E, então, resgataria o tanto amor que me regia, e a pouca força que me fora levada. Relevaria esses meus esquecimentos de quem acredita saber demais e veria que eu preciso, sim, de piedade por aqui. É que homens feitos não fazem cena. Eu preciso dela, mas nunca fiz questão de pedi-la.

Neemias Melo

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E você banhava o dedo no vinho, molhava os meus lábios, lambia o que escorria, e eu – bobo – até babava. Porque você era aquilo que eu não acreditava merecer, a chance que não tive direito de escolher, o sonho que eu sequer sonhava.  E você dizia coisas que eu não sabia entender, num mundo que eu nem sabia existir, com dimensões que eu não interpretava. Mas eu dizia: “Por favor, me perdoa”. Eu era tão puro. Eu era. Você não vê? Você não vê que tudo que eu tenho hoje é lembrança, é passado?  E você dizia ser culpa minha não conseguir carregar, sozinho, a cruz que lhe apertava. E eu sofria acuado por não poder corresponder a esse abafo que só cabia você. Você e o seu orgulho que me desesperava.  Porque você fazia frio e eu dilacerava. Você cosia asas e, no chão, eu me jogava.  Você dizia: “Vem” e eu me suicidava. Você falava de amor, mas de amor eu não escutava. Não é que você tenha ido. Você nunca veio de verdade. Eu me doei sem restrições, com o coração na mão, com a identidade nos pés e você dizia: “Acho melhor eu me afastar, estou me envolvendo demais”. Eu não acreditava. Eu não acreditava que todo medo era um aviso. Você seria o meu fim. Você foi. Eu morri na noite em que você disse eu te amo como um agradecimento por um pedaço de biscoito e um gole de mim. Eu não durei muito depois de você dizer não vai embora, porque eu esperava há tanto tempo um abraço seu. Mas você recuava aos meus pedaços. Estou desencaixado. Estou pisoteado. Eu vou embora. E, por favor, coloque um pouco de vergonha na cara e não me venha com essa de que sente muito, porque você não faz a mínima ideia do que é sentir. Muito menos muito.

Neemias Melo

Desabafo

Pelo que os olhos continuarão abertos, mesmo após o tapa, e as mãos permanecerão cruzadas depois de todas as chicotadas. Pelo que as escamas cairão com os suaves toques e as cores escorrerão para os dedos de outrem. Porque o corpo já não sente mais o tato e, em vez disso, sente uma outra alma que suspira angustiada uma chuva que não vem, um rio que não molha, um abraço que não sustenta, uma vida que definha.  Pelo que os cortes latejarão até a morte, porque a vida consiste na dor. A dor é a chave, é a estante, é o amontoado de engrenagens que nos soca com força o rosto e nos faz aguentar, calados, o bruto fardo.  E a boca permanecerá calada enquanto as pedras são atiradas por mãos amigas. E a sobrancelha não  arqueará e não se levantarão as súplicas, as misericórdias, as benevolências. Pelo que amor não se manifestará, porque as coisas tornaram-se valiosas - mais do que os próprios homens. Não valemos mais o próprio cuspe. Nadamos. Morremos. Adormecemos pisoteados.

Neemias Melo 

sábado, 26 de novembro de 2011

Timidez

Não houvesse rumo, eu fugiria - para longe, bem alto, tão perto de onde, outrora, deveras, sofri. Não vingasse a solidão que deixei em meu lugar, voltaria - no entanto, que triste, mirrado, sofrido, fiquei; não pude, não deu, nem mesmo parti. Não ouvisses meu grito, eu calaria - decerto, agora, que vejo, borrados, teus olhos, tão puros, nos meus, bateu, sorrateira, aquela, de sempre, saudade. De sempre? Nem tanto. Ou talvez seja. Já não sei bem em que lugar devo as palavras por, compor, repor, transpor - me lembrasse de outras derivações de por, amor, eu também não saberia. Porque me assusta, confesso, essa, tão minha, maneira de, querendo dizer-te, sem pressa, um tanto, talvez, demorado, que te amo, embolar-me desajeitado, descabido, gaguejado, não partindo, não gritando, nem sequer falando, que, se me dissesses que também me amas, assim, quem sabe, mesmo que brevemente, eu deixaria, por ora, meus entornos, delongas, demoras, e beijaria teus rubros lábios que me impedem de articular corretamente o que tanto quero abocanhar.

Neemias Melo

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Não há uma só vez em que eu te olhe e não tenha certeza de que é esse o amor que outrora cantavam meus avós. Um olhar com som de violão, e sinto que nele caberia o coro nunca esquecido que as gargantas roucas e afinadíssimas entoavam. Desejo, por isso, mantê-lo aceso, e conservá-lo em pequenos frascos, para que sejam abertos quando o tempo abraçar-nos também, e uma nova canção nascer com alma já envelhecida. Um amor com gosto de vinho, para que nos embebedemos à toa, dancemos com as mãos repousadas nos ombros e cinturas quando não houver mais melodia para acompanhar; para que sintamos o vento mesmo com as janelas fechadas. Um amor que nos esquente quando nos calarmos, nos tape os olhos e nos empurre ladeira abaixo, e que nos adormeça o corpo para rolarmos, cairmos, pularmos, enquanto a bebedeira toma conta do coração. Um amor que nos embriague quando estivermos velhos, e faltar a força, o apetite, a postura - que nos baste, quando não houver nada além de uma simples canção guardada há muito tempo.

Neemias Melo

domingo, 20 de novembro de 2011


Eu não vi tua pélvis ígnea procrastinando o alçar dos pelos - os arrepios desfolharam-se mudos. Quando os trejeitos emborcados de volúpia alçaram voo, não conferi tua contorção maculada. Das tuas poses, tua entrega, tua súplica, eu nada bebi. Mirei-te posta à fuga, implorando envolvimento e carne - mas não a minha. Quiseste fartura e eu sequei, buscaste gemido e eu calei, pediste paixão e eu neguei. Quando as suspensas gotas de suor se assentaram no teu colo, meus dedos já estavam prontos a recolher tua - nunca antes vista - fragura, pois roubei de ti apenas a parte que nunca enxergaste: a vergonha, e o cansaço. Arranquei de ti a ameaça de sono, para que não acreditaste nos outros, assim como deveras desconfiam de ti. Enrubesceram-se os lábios fendidos, expôs-se no vestido aberto as coxas, mostrou-se nos teus injuriosos ombros fogo, e na tua saliva um recado: murchar-se-ão e dispersar-se-ão das frontes o véu de misericórdia, pois do provar da minha língua nasce o erro. Não desistimos nunca, e ali jazeram nossos pulmões mirrados e puídos. Decerto nadávamos quando amanheceu o dia, e -tamanho o descontentamento - afundamos de mãos dadas, prontos para o mar, fugidios da praia. Não nos despedimos por desconhecimento, e poupados fomos de dor. Eu não sei o que será de ti, cabelos ruivos, mas eu nunca vou morrer de amor. Eu não vi fluindo de ti vida, nem em tuas veias sangue correndo, nem nos teus olhos o contrair das pupilas, mas nos meus nunca houve tão grande estagnação - fracassamos antes mesmo de acordarmos.

Neemias Melo

sábado, 19 de novembro de 2011

Mas minha menina,

a vida não é feita de ilusões, e essa tua preocupação com a chuva é bobagem. Dá tua mão aqui, espera que logo chega a felicidade, e ela não deixa um gosto amargo na boca, como todas as outras coisas. Mas, minha menina, deixa aqui ao meu lado as tuas lágrimas para que plantemos esperanças, desfrutemos dos olhos vermelhos, das mãos enrugadas de choro, dos dedos tortos de estalos, das pernas marcadas por quedas. Colhamos estrelas no quintal quando for véspera de ano novo, façamos um piquenique à luz de velas, brindemos as irreparáveis olheiras, os inseparáveis laços. Mas, minha menina, recitemos Cecília quando Marjorie tocar, gargalhemos da gente, encontremos respostas, misturemos os grãos. Escrevamos sobre cravos e rosas, sobre ares e folhas, sobre buscas e contos; criemos coragem, refaçamos as contas, resgatemos as causas, defendamos as massas. Vivamos de sonho e distribuamos amor. Sejamos eternos, sejamos felizes. Troquemos correntes por asas, espinhos por fitas, suspiros por dentes expostos em curvas labiais. Encaremos a verdade, disfarcemos a dor, imitemos os heróis e durmamos embriagados. Fustiguemos o mal, nos levantemos sobre os montes, brademos um hino, lutemos ao lado dos esquecidos. Eu sei que leva um tempo para entender, mas poetas nunca morrem, menina. Nunca morrem.

Neemias Melo