sábado, 14 de julho de 2012

As janelas estão fechadas, mas sinto o vento. O braço até arrepia. Está frio, mesmo que esteja debaixo de vários cobertores. Penso se colocar a cabeça debaixo deles me deixaria sem ar. Tenho asma. Quase morri por conta disso, umas três ou quatro vezes. Rio da idéia. Morrer sufocado por me esconder do frio e de um vento imaginário. Paro de rir. Curioso, como sempre paro de rir abruptamente, como se um pai severo me observasse em frente às visitas. Às vezes coço as pernas com muita força. Pedaços de pele se acumulam debaixo das unhas. Quase nunca sangra, mas dói. Pergunto-me se no mundo existem pessoas como eu: que coçam as pernas até que sangrem, que cessam o riso por medo de fantasmas ou lembranças. Acho que não. Para dizer a verdade, penso que tudo no mundo é uma mentira; que eu sou o deus da minha própria mente e que enlouqueci para cobrir do meu cérebro alguma coisa que eu não lembro, por ter enlouquecido. Talvez eu tenha matado minha própria mãe, embora a desta realidade me convença com suas palavras e gestos que é bem real a dor que minha existência a causa. Ou talvez eu tenha sido vítima de algum tipo de violência física ou emocional que tornasse os meus olhos estrábicos enquanto eu me retorcia numa convulsão. Ou talvez não. Talvez a vida seja mesmo assim. Assim patética. Mas não descarto as possibilidades. Penso que sou grande, e que meus dedos só não escrevem coisas mais belas porque as coisas mais lindas do mundo devem ser guardadas. Penso que sou indestrutível, e que, por mais que meu sangue escorra, o sopro de vida que carrego é levado no peito. É mais bonito assim. É também mais triste. Tentar sempre sobrepor uma realidade alheia à que tenho para não desapontar Deus. Sei que Deus nos colocou aqui. Sinto. Acho que, de onde Ele está, deve chorar. Por minha causa, apenas. E isso porque duvido que existam outros iguais a mim. Sonâmbulos. Pessoas que precisam de café e de lavar o rosto a cada quinze minutos para não acordar. Eu queria acordar, mas num lugar diferente. Abrir os olhos, ver que estou numa praia de areia branca e água límpida. O sol refrescaria minha pele gelada. Meus pés aquecendo-se na areia, meus olhos fechados deixando tudo à frente das minhas pálpebras alaranjado. Depois sorriria. Acabaria assim. Como num filme. O final de um filme. Tinha de ser assim, o final logo depois do começo. De outro modo, tudo desandaria de novo, eu perderia o controle das mãos, o chão me engoliria. Ai ai ai, meu Deus, minhas pernas. Sangrou, desta vez. Bosta! Não gosto de cheiro de sangue. Até acho a cor bonita. Penso se existem pessoas que sangram até a morte por causa alguma. Sorrio. Paro de sorrir. Alguém me vê. Alguém me escuta. Melhor entrar debaixo dos cobertores. Talvez morrer em posição fetal, abraçando a asma, e acordar na praia que narrei mais cedo, lembra? Claro que lembra! E deixar que se repita minha chegada ao novo sonho várias e várias vezes, até que eu me esqueça de onde vim, qual nome tenho, e que minha mãe chora quando me vê. Seria melhor assim. Um sonho dentro de um sonho. Como a vida que cabe em mim. Que se encaixa. Está frio. Minhas mãos estão geladas. Entro debaixo dos cobertores. Encolho-me. Sinto sono. Sempre sinto sono. Durmo. Não acordo. Pelo menos, não por enquanto. Não há pressa para acordar. Fico quieto. Espero. Abro os olhos para ver se vejo sinal de areia no meu colchão, ou algo que representasse a minha passagem para um outro lado. Nada. Repito três vezes. Nada. Estico-me. Parado fico. Decepcionado. Estou louco, tenho certeza. Não há pessoas como eu no meu mundo. Há apenas eu. Um menino e uma camada grossa de cobertores. Apenas eu.

Neemias Melo

sexta-feira, 13 de julho de 2012


"Habita, nas entranhas dos sonhos, um tempo perdido. Brota, da putrefação dos costumes, um caminho. Corre, nas marchas de cada plano, um adeus não pronunciado. Estancia, em juramentos, pedidos perdidos. Escorre, entre os punhos retesados, medos. Corta, palmas das mãos e solas dos pés, escolhas. Arranha, garganta afundo, pedidos. Camufla-se, nas pupilas, fugas. Nasce, nos passos, a morte. Parte, nos dias, a vida."
 
Letícia Rosa

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Tristes são os meus olhos quando encontram um espelho.
Triste sou no reflexo d'uma poça d'água.
Triste é a minha imagem na imagem de qualquer coisa -
Enquanto outras e outras coisas se aglomeram nos meus cílios.
Mas triste não sou. Sou lido.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Passou-se o tempo e esquecerem de me passar. Ando amarrotado numa pele que creceu demasiadamente num corpo miúdo. Tropeço nas pelancas, asso nas dobras, canso-me de excessos. Seja lá quem me esticou, equeceu de alertar sobre o sufoco. Não sei se é falta de ar ou sobra de espaço, mas, por dentro, tudo me é pouco.

Falemos sobre o medo, então. Narremos sua essência inexata e seu potêncial de molde a tudo. Matenhamos perto seu cheiro de chuva, sua força cinza, seu vazio denso.
Falemos, então, sobre o frio - os galhos secos que unham a pele e excitam o corpo à tremedeira. A sinceridade da dor, a cumplicidade do silêncio e a imponência do escuro.
E falemos da verdade. Espremamos a ferida até que murche. Vejamos - nos parapeitos dos altos prédios - crianças mudas que choram por não encontrarem estrelas caídas ou mãos que impeçam a queda [o pulo]. Queiramos perto a exatidão dos olhos que enxergam longe e se perdem [nada veem].
E, também, falemos da tristeza, mãe dos que não dormem, mestra do medo, do frio e da verdade. Saibamos calar quando ela vem, esperar quando ela cresce e ceder quando ela abraça. Reconheçamos o pouco valor que temos - ou o nenhum - e esperemos a hora de desaparecer do mundo, do roteiro de Deus, das armadilhas dos sonhos, dos ruidos do vento, carregados em seus fortes antebraços [cócegas por fios soltos de seu manto negro desfiado]. Reverenciemos sua forma sólida, seus coágulos de sangue nas têmporas, seus rodeios infinitos e reticentes.
Por fim, falemos de mim. As cicatrizes, os erros, as falas em momentos oportunos que se perderam. Falemos das fugas, dos gestos falhos, das magras mãos. Riamos da pose morta, dos pés podres, do cabelo bem lavado e cheiroso. Gesticulemos em frente ao espelho - o mundo acenando para mim.Viremos as costas - o mundo a me esquecer. Exaltemos o amor - o mundo a me humilhar. Sejamos sinceros: nem mesmo o respeito próprio limpa um coração perdido, uma mente avulsa e um par de ombros cansados. Nem mesmo as palavras, que nada mudam, mas tudo tranformam. Nem mesmo a vontade de seguir em frente ou cair da cruz. Nem mesmo o tempo. Nem mesmo a falta que me faz - que faz a todos - ter um ninho a repousar a cabeça e deixar que os pensamentos cuidem de trazer um novo sol. Nem mesmo as repetições, a gradativa perca de fôlego. Nem mesmo nada.
Calemo-nos, depois. Prossigamos, apenas.

Neemias Melo

domingo, 27 de maio de 2012

Os sonhadores cantam baixo e o sol se põe. Uma sereia paira sobre o ar deixando um rastro de brilho. Uma flor definha e cai. Um moço varre o chão e aceita o café da moça que oferece dois tipos de adoçante. Um menino chicoteia as próprias costas, um passarinho foge por prever a chuva. Mãos espalmadas recobrem o chão e, bem baixo, de longe, ouve-se o canto dos que dormem. Olho ao meu redor. Todos acenam: o moço que varre, a sereia, as mãos que pisoteio. Chamam o meu nome e não abrem a boca. Conhecem-me sem me notar. Sentem que fui algo que deveria ter durado e simplesmente evaporou. Sentem minha falta. Sinto minha falta.
Fecho o livro que carregava nas mãos. Sigo em frente. Não olho para trás - não antes de ter atingido distância suficiente para ser considerado um estrangeiro quando retornasse. Não retorno. Todos continuam acenando. Guardo o livro na mochila que carrego nas costas. Dou as costas. Enfio as mãos nos bolsos da jaqueta.
Já não ouço o canto dos sonhadores e o sol já nasce. Deixo no peito o vazio oscilar entre solidão, saudade e tristeza, ao preencher-se. Nos dias em que ambos preenchem o peito, consigo chorar. Nos outros, não sinto nada. Ou sinto muito. Por todos. Por tudo. Sinto, apenas. As penas. Coçam. Sinto que caem ou crescem. Sinto medo, mas fecho os olhos. O escuro fortalece a crença e purifica os anseios. Ando crente e forte. Ando só. E eu não volto. Eu não volto.

domingo, 13 de maio de 2012


é chegado o inverno.
choro com frio;
adormeço cansado;
penso onde estarias se ainda me amasses.
abro os olhos.
estás ali diante,
bem diante de mim.
carregas nos olhos o amor do qual não sou digno.
sorris.
dói-me o teu riso.
dói-me a capacidade de sorrires com o nada que represento.
dói-me saber que, mesmo merecendo mais, te contentarás com pouco.
muito pouco.
é chegado o inverno.
lá fora, o céu nublado deixa o dia claro.
a luz invade o quarto onde estamos.
os corpos nus,
as mãos dadas.
tu dizes "eu te amo"
e eu cerro as pestanas
como se dissesse "sinto muito"

Neemias Melo

segunda-feira, 7 de maio de 2012

fumaça


em que lapso de bocejo perdi o fim do mundo? ando perdido como perdidas estão todas as coisas. desprendo-me do teto - evito cores, raios, flechas. como um pêndulo entre lençóis, balanço. amanheceu, mas é hora de dormir. em que estação do ano perdi o último trem? soprei as velas do meu décimo nono aniversário e logo a vida inteira se apagou. reparto lágrimas em pequenas xícaras para cada caco de mim. acabado o sal, conta-se a sede. em que insônia perdi o medo do escuro? a lua pia, o piso é frio, o cobertor engole-nos - eu e todas as flores que abraço - repouso a cabeça sobre as mãos unidas. choro. tento colher um soluço, mas também o soluço se despedaça. a respiração falha. os punhos relaxam. um suspiro dança invisível. em que ventania esqueci de fechar a janela?

Neemias Melo